CAPÍTULO 3: CIRCULANDO NO SHOPPING
3.2. Bondes e outros grupos juvenis
3.2.1. Bonde, Boonde, Família, Equipe, Galera e Fraternidade
O fenômeno dos bondes tem se destacado no contexto do lazer de shopping em Salvador e já tem sido objeto de pesquisa (DUARTE, 2010). Principalmente nos finais de semana, muitos grupos de adolescentes tomam conta da praça de alimentação, dos shoppings A e B, agrupando-se em bondes. “Todos os bondes se encontram no [shopping B] depois dão uma paletada e vão pro [A].” (Igor, 16 anos, estudante e morador de São Caetano). Durante os finais de semana muitos bondes se encontram no shopping B, de lá vão para o shopping A e às vezes até voltam novamente para o B.
Logo no início dos grupos focais fui percebendo que o termo “bonde” apresentava dois sentidos, um positivo e um negativo. Em geral, quando eu fazia algum comentário a respeito dos bondes, pela reação da maioria eu percebia que eles estavam mobilizando o sentido negativo do termo e logo criticavam os bondes, visto como uma nova “praga” do shopping, e eram categóricos ao afirmarem que não faziam parte desses grupos juvenis. Ao mesmo tempo, no decorrer dos grupos focais, percebia que muitos dos adolescentes que inicialmente se mostravam arredios com o pronunciamento do termo “bonde” e que faziam questão de afirmar o seu duplo sentido, acabavam utilizando a palavra para se referir aos agrupamentos que iam ao shopping para curtir e até contavam entusiasmados que eram integrantes de bondes. Ou seja, também utilizam o termo “bonde” com sentido positivo, mas
em geral enfatizam que os bondes “do bem” em geral são chamados de “família”: “agora, assim, Bonde mais na paz é as Famílias. Família num sei o que, Família Sacanagem, Família Marpica, a Família bererê, é tudo Família. Aqui a galera se reúne.” (Hilda, 13 anos, estudante e moradora do São Gonçalo).
Alguns entrevistados disseram que deixaram de frequentar o [shopping B] devido aos confrontos entre os bondes terem se tornado constantes. A maioria lamentou que alguns bondes têm o costume de ir ao shopping para promover brigas e confusões, como evidencia esse relato: “Os bondes estão sendo que nem torcida organizada, no começo eles juntaram pra quê, pra fazer torcida, pra ficar bonito, depois começou a rolar briga, a mesma coisa tá sendo os bondes, começou pra ficar bonito agora começou a rolar briga.” Alan (14 anos, estudante e morador de Pernambués). Apesar disso, enfatizam que por outro lado, existem bondes que usam o espaço do shopping para curtir, promover encontros e danças, ou seja, um único termo contempla duas coisas distintas.
Além de “bonde”, termos como “família”, “equipe”, “galera” e “fraternidade” costumam ser mais usados para se referir aos agrupamentos juvenis que fazem do shopping um espaço de encontro e diversão. Mas, nem através da análise de documentos disponíveis na internet nem através dos grupos focais consegui explicações para a criação dessa gama de termos. Para os próprios jovens que são membros desses grupos não há razão clara para a aplicação dessas palavras, nem uma distinção rígida entre elas. Os jovens costumam distinguir apenas “família” e “bonde”, porém, muitas vezes até mesmo esses termos se confundem quando se referem aos agrupamentos movidos somente pela diversão, ainda que diferentemente do que acontece com o termo “Bonde”, “Família” não seja um termo estigmatizado. Ainda assim, em um grupo focal, por exemplo, alguns adolescentes alegaram que muitas vezes os seguranças são truculentos com algumas famílias porque não têm como advinhar quais são de paz. Em outras palavras, às vezes falam em “Famílias do bem” sem que isso implique redundância.
Analisando a categoria juventude em relação ao domínio da família, Duarte (2010) afirma que a utilização do termo “família” como um equivalente de bonde permite inferir que nesse tipo de agrupamento esses jovens buscam um relacionamento que não encontra em seus familiares. Embora o fenômeno não deva ser reduzido a uma perspectiva utilitarista, pude perceber que ao participarem de “bondes” os adolescentes se sentem incluídos e estabelecem novos vínculos. Alguns jovens mencionam que um dos motivos essenciais para ir ao shopping é a oportunidade de encontrar seus “bondes”.
Nesse sentido, Duarte (2010) informa que através dos bondes grupos de jovens que comungam coisas comuns, como estilos de roupa e fala, podem se identificar enquanto uma unidade específica, ainda que disforme. Ele caracteriza os bondes juvenis como um fenômeno social urbano recente da juventude – uma nova configuração de sociabilidade que responde ao imenso desejo juvenil em se incluir e participar do mundo.
Em geral quando se referem a si mesmos, os jovens utilizam mais a palavra Família, justamente porque costuma ser utilizada para se referir aos bondes em sentido positivo. Alguns explicaram que os bondes se encontram para duelar e que as famílias eram os grupos que iam ao shopping a fim de curtição: “é pra se reunir, pra brincar, perturbar ali é família, agora se você vê o povo criando site pra marcar, ah, Cyclone contra os Adidas, vai ter pau, vai rolar briga, aí é bondes.” (Hilda, 13 anos, estudante e moradora do São Gonçalo).
Enfim, o significado da palavra bonde costuma ser relativo e nas conversas primeiramente eles faziam questão de esclarecer as diferenças entre os dois sentidos e a qual estavam se referindo. Também podiam expressar a diferença pelo tom de voz e prolongamento da pronúncia da letra “o”: os bondes (positivo) e os boondes (negativo) e, além disso, o contexto em que se fala pode dispensar esclarecimentos. Demarcada a diferença no início da conversa, eles se sentiam mais livres para usar o termo bonde em sentido positivo, já que não corria o risco de ser confundido. Como se fosse assim: agora já podemos generalizar a palavra bonde para todos os grupos que se encontram em shopping, pois já está claro que existem ao menos dois tipos de bonde.
Durante a construção da narrativa deste trabalho, percebi que precisava de um recurso linguístico que pudesse dar conta dessa diferença complexa e que não é expresssa graficamente. A fim de evocar essa diferença e evidenciar as especificidades do termo da maneira mais simétrica possível, lembrei-me dos aspectos norteadores do duplo sentido do termo bonde: há uma dimensão gestual; o tom de voz pode ser diferente; pouco utilizado para falarem de si mesmos, preterido pelo termo família, e sobretudo a dualidade bem e mal que fundamenta a distinção e se manifesta nas diferentes maneiras de perceber e ocupar o espaço do shopping: “ [...] agora, tem bonde que você se junta pra você não ir sozinho mesmo, pra você ser alegre, só que aí os outros que vêm pra cima pra procurar briga, às vezes é isso.” Alan (14 anos, estudante e morador de Pernambués).
Passei a questionar como fazer essa distinção textualmente, já que duas coisas totalmente distintas que são grafadas da mesma maneira. A princípio pensei que o melhor seria chamar de “bonde” os grupos que são mal vistos pelos pesquisados porque promovem conflitos e chamar de “família” os grupos que são bem vistos pelos pesquisados porque os
membros buscam diversão. Porém, essa proposta aos poucos foi se mostrando desinteressante, pois não contemplava nem o sentido positivo do termo “bonde” nem o sentido negativo do termo família, embora esse seja raramente utilizado. Por isso decidi estabelecer uma distinção gráfica apenas para “bonde”, visto que o conceito de “família” não costuma ser ambivalente. Assim, pareceu interessante compreender a categoria “bonde” como um caso de homonímia, embora o som produzido por cada sentido nem sempre seja igual. Porém, esbarrei na dificuldade de expressar textualmente diferenças que são circunstanciais e também se dão no nível acústico e gestual. Além disso, as próprias limitações do sistema gráfico do computador restringiram minha criatividade. Desse modo, enfim, textualmente a distinção foi feita da seguinte forma: bondes (sentido amplo e positivo) e boondes (sentido negativo)22.
Duarte (2010), por sua vez, reclama da pouca atenção dada pela mídia ao fenômeno dos bondes, evidenciada na escassez de notícias sobre o assunto nos jornais de grande circulação da capital baiana. Além disso, ele frisa que representados pelas administrações centrais, os shopping centers também evitam dar informações a respeito desses grupos e de suas ações dentro dos estabelecimentos. Assim, esse autor explica que uma parte da coleta de dados para a pesquisa teve que ser feita de modo empírico, o que também não foi fácil devido à recusa formal da pequisa.