CAPÍTULO 3: DO GAUCHE À RAIZ
3) O bonde passa cheio de pernas:
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração. Porém meus olhos
não perguntam nada.
Quanto à terceira estrofe, o poeta utiliza-se mais uma vez da metonímia, referindo-se desta vez às pessoas, como “pernas”, causando um breve estranhamento na leitura, resultando em um efeito de flashes como sugere o título: sete faces diferenciadas de um mesmo sujeito. Dá-se a percepção aguçada da ocorrência de fatos, porém o silêncio diante deles: “Para que tanta perna meu Deus, pergunta meu coração / Porém meus olhos / não perguntam nada”; o coração, isto é, o sentimento, a emoção, questiona-se, porém os olhos, a razão, preferem silenciar. O uso da hipálage permite que uma qualidade ou uma ação seja atribuída a outro ser que não aquele de origem, específico – o eu lírico é que se questiona, todavia é
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Drummond relembra, saudoso, dessas comemorações marianas do mês de maio, em sua infância, na crônica Carta aos nascidos em maio; do livro Passeios na ilha, incluído em ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia e prosa, organizada pelo autor. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992, p. 1384-6.
o seu coração que sofre alterações, e os seus olhos enxergam com cautela. O coração sofre e os olhos escondem este sofrimento. Novamente o ar obscuro toma conta do eu lírico, pois há um distanciamento deste, frente aos acontecimentos da vida, posto que o mesmo coloca-se como um observador e não como um efetivo experienciador do que diz e do que vê.
Diante de toda essa efervescência do mundo ao redor, de um poeta que sai de uma cidade provinciana para uma cidade urbana, que no elevador lembra da roça
e na roça lembra do elevador, o movimento mais repentino e aparentemente mais
certeiro é o fechamento em si mesmo, e o posterior sentimento de obrigação por nascer de novo, nascer constantemente em espaços diferentes, e estar vulnerável a todas essas ações do fora que não se podem mensurar, quanto menos agir sobre elas. O poeta encontra-se desarmado.
RUAS
Por que ruas tão largas? Por que ruas tão retas? Meu passo torto
foi regulado pelos becos tortos de onde venho.
Não sei andar na vastidão simétrica implacável.
Cidade grande é isso?
Cidades são passagens sinuosas de esconde-esconde
em que as casas aparecem-desaparecem quando bem entendem
e todo mundo acha normal. Aqui tudo é exposto evidente
cintilante. Aqui
obrigam-me a nascer de novo, desarmado. (ANDRADE, 1980, p. 90 – 91)
Ruas: um indicativo de caminho; o verbo “ir” do terceiro verso do “Poema de
sete faces” sugere, desde o princípio, uma direção, como uma indicação do anjo torto: vai, segue o teu caminho. “Por que ruas tão largas?” Se o caminho do gauche é estreito? “Por que ruas tão retas?” Se o caminho do gauche é sinuoso? As ruas da cidade não correspondem ao que o eu lírico sente e ao que está acostumado a ver, pois seu passo é torto, regulado pelos becos (sonoridade fechada que sugere acuamento) de onde veio, não sabe andar na vastidão simétrica implacável que a cidade lhe apresenta, e o mais de tudo isto é que não nega a sua raiz, sabe que vem
de uma província e que a cidade grande é um mundo paralelo em relação àquele em que viveu na infância.
Aproveitando-se do vocábulo becos e do conteúdo semântico a ele empregado por Drummond, nota-se que, do mesmo modo, Manuel Bandeira, no “Poema do beco”, contrapõe os espaços, quando compara a amplidão da paisagem de um lado e o beco do outro. Tudo o que o eu lírico vê, aquilo com o que se depara, é o beco, como uma limitação. A impressão é a de que ele está de costas para a baía e o horizonte com sua vasta linha. Tal imagem suscita a noção de isolamento e impasse, até mesmo por vontade própria, considerando que o poeta lança a expressão desdenhosa “Que importa” no início do primeiro verso. Pertinente destacar também a relação entre o primeiro verso longo e o segundo mais curto em se comparando o contexto dos mesmos, mais enfatizados ainda pela sonoridade (vogais abertas, vocábulos nasalizados do primeiro verso, como em paisagem e
horizonte, em oposição ao som das vogais fechadas e o som seco da palavra beco
do segundo verso) que adquire o sentido de amplitude e redução espacial, respectivamente, como se pode notar a seguir:
Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte? ─ O que eu vejo é o beco.
(BANDEIRA, 2005, p. 43)
As indagações para ambos, portanto, surgem de sua inquietação, da consciência de que viver neste meio é estar fadado a uma linha reta (um beco), embora tenham de aceitar as contingências, exigências de uma simetria inflexível. Ou seja, além do espaço restrito e necessário para os sujeitos, ambos compreendem que há outro espaço em torno deles.
A discussão sobre isto, em Drummond, estende-se um pouco mais, assim, a partir disso, percebe o que é uma cidade grande: “Cidade grande é isso?” E assim, parte do espaço menor para um espaço mais amplo. Como resposta à pergunta sobre o significado de cidades, ele responde como “cidades” no plural, e que elas seriam passagens sinuosas (agora o termo já não é mais “reto”, houve uma contraposição), de esconde-esconde em que as casas aparecem e desaparecem quando bem entendem e todo mundo acha normal. O que se pode notar com esta oposição aos primeiros versos é que: se existe o implacável há que se conformar com ele, conformar-se com o que aparece e desaparece e fingir que não se nota o
que se vê. As passagens sinuosas representam estágios da vivência do eu lírico, marcam pontos, como portais, passagem de um espaço a outro, um transporte: da província à cidade grande e da cidade grande à cidade-mundo, pois assim é o mecanismo de passagem de um espaço a outro na amplidão. Drummond perfaz esse trajeto de mudança entre espaços e planos através das estratégias poéticas. A impressão imagética que se tem do poema é a de que o eu lírico caminha, e ao passo que caminha vai descobrindo o que é o significado do seu caminhar no espaço em que se encontra, ou seja: “Aqui tudo é exposto / evidente / cintilante”, isto é, tudo fica muito claro, quando se consegue responder às perguntas por meio da reflexão. Novamente nos últimos versos, nota-se a relação de “obrigação” e poder que a cidade exerce sobre quem nela adentra: “Aqui / obrigam-me a nascer de novo, desarmado”. O sujeito anda na rua e no ponto em que define a sua ideia, conclui-se “desarmado”; o ponto final sugere a parada do pensamento e ao mesmo tempo a parada da suposta caminhada, momento em que o eu lírico se vê numa encruzilhada, descobrindo-se vulnerável, pois como há de enfrentar o caminho sem armas? O sentimento do poeta pulsa com o caminhar, o coração pergunta, mas no fim a razão percebe o seu estado e o poema acaba. Então, em silêncio, não há continuidade, logo, é preciso nascer de novo (expressão bem empregada novamente pelo poeta), o tempo é outro e o espaço também, no entanto é preciso, antes de tudo, munir-se das armas, e a arma do poeta é a linguagem, ele se vê na necessidade de nascer de novo, de rememorar. O tempo todo precisa lembrar que essa viagem (renascimento) é necessária para cumprir sua caminhada.
4) O homem atrás do bigode