• Nenhum resultado encontrado

BORGES, Vavy Pacheco Desafios da memória e da biografia: Gabrielle Brune-Sieler, uma vida (1874-

1940). In: BRESCIANI, Stella; NAXARA, Márcia (Org.) Memória e (res)sentimento: indagações sobre uma questão sensível. 2.ed. Campinas (SP): Ed. Unicamp, 2004. P. 291

70 BORGES, Vavy Pacheco. Grandezas e misérias da biografia. In: PINSKY, Carla B. (org.) Fontes históricas. São Paulo: Contexto. 2008. P.221.

71 De fato, a documentação sobre registros de chegadas de estrangeiros entre 1855 a 1860, é escassa. No Arquivo Público Estadual de Pernambuco, as listas e registros deste período, inexistem.

escritório: “...no número 6 do Cais da Lingüeta, como ship-chandler, nome dado aos fornecedores para navios, de cabos, cordoalhas e velas, além de víveres para viagem.”72. O escritor Raul de Góes, registra em tom laudatório:

Numa cidade como o Recife, a cujo porto atracavam grandes veleiros, principalmente ingleses, fazia falta um empreendimento daquela natureza, tendo à frente uma pessoa que servisse de intérprete aos comandantes, tripulantes e passageiros procedentes da Europa e de outras partes do mundo. O escritório do jovem Herman Lundgren transformou-se, por assim dizer, no centro das várias colônias estrangeiras com atividades mercantis e industriais na bela cidade nordestina, abrindo ao seu chefe as perspectivas da prosperidade. Esse escritório estava situado na Praça da Lingüeta n.6, e era uma espécie de ship-chandler para fornecimento de víveres e massames para os barcos ingleses, holandeses, franceses, americanos, portugueses e de outros povos navegadores. 73

No Almanaque de Pernambuco em sua publicação de 1881, na seção Armazéns para fornecimento de navios (ship-chandler), há uma lista com escritórios e entre os seis listados encontramos o de Herman Lundgren & C..74 A cartografia/espaço urbano do Recife comercial nestes anos destacava-se por: Rua do Comércio; Cais da Alfândega e Praça do Comércio (que chamava-se Cais da Lingueta).75 Em pesquisa sobre a trajetória do comerciante João Pinto Lemos – na mesa conjuntura das atividades comerciais em que Herman atuava – a historiadora Bruna Dourado ainda observa que nestes endereços comerciais existia uma presença considerável de estrangeiros atuando.76 E finaliza, ao dizer que: “(...) no Recife oitocentista o ritmo da vida cotidiana era, em grande parte, influenciado pelo movimento que ali existia.”77

Também encontramos nas páginas do jornal A Província – órgão ligado ao Partido Liberal – fatos, como o de novembro de 1876, quando o jornal informa acerca de atentado em que foi vítima. Na descrição, três homens o abordaram, ferindo-o com pedaços de madeira às 20hs da noite, quando estava sentado em frente ao seu armazém. Nota-se que o jornal o evidencia como comerciante de destaque, entretanto, as motivações da violência não são

72 MARKOVITCH, Jacques. Op. Cit. P.32

73 GÓES, Raul de. Herman Lundgren: Pioneiro do Progresso Industrial do Nordeste. Rio de Janeiro: A Noite, 1949. P. 21

74 Almanak administrativo, mercantil, industrial e agrícola da Província de Pernambuco. Recife. Tipografia

Mercantil. 1881. Arquivo da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. P.159. 75 DOURADO, Bruna Iglezias Motta. Op. Cit. P. 27

76 DOURADO, Bruna Iglezias Motta. Op. Cit. P. 34 77 DOURADO, Bruna Iglezias Motta. Op. Cit. P. 19

explicadas pela folha que desfere críticas ao Presidente da Província, Manuel Machado Portela, do Partido Conservador, e a falta de segurança na região da rua do Comércio.78

Fotografia 2: Notícia em A Província sobre o

atentado ocorrido com Herman Lundgren. (Fonte: Hemeroteca digital da Biblioteca Nacional).

Portanto, este episódio revela que a esse tempo já se notabilizava no ramo de exportação e importação e segundo A Província e o Jornal do Recife, suas relações comerciais estavam entre algumas praças do Brasil e da Europa, tais como Hamburgo, Antuérpia e Liverpool. Inseriu-se no comércio de couros e em 1866 adquiriu uma fábrica de pólvoras na Pontezinha, no município do Cabo, a Pernambuco Powder Factory com a pólvora da marca Elephante:

(...) instalou depósitos de pólvora na Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Ceará, Maranhão, Pará e Amazonas. Como a maior parte dos navios brasileiros se recusava a transportar explosivos, Lundgren adquiriu uma pequena frota de veleiros para

78 Attentado. In: A Província – Órgão do Partido Liberal. Recife, segunda-feira, 6 de novembro e 1876. P.1 Arquivo da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

esses serviços. Além das escunas Eclipse e Elizabeth, e várias barcaças menores, havia três iates de alto bordo: Reinder, Taurus e Palma Santa.79

O censo de 1872, tempo em que já tinha iniciado as atividades da Pernambuco Powder Factory, registrava que Pernambuco possuía 7 suecos residentes, classificados em casados, solteiros, homens, mulheres, católicos e acatólicos. Por ser negociante próspero no Recife, virou representante sueco na cidade e costumeiramente realizava viagens para o sul do Brasil e para a Europa. Suas idas e vindas à Europa eram registradas nos jornais da capital ,a exemplo de 1876 , quando acabara de chegar de uma viagem da Europa. A Província anota: “Chegados dos Portos da Europa, no vapor inglez Boyne: I. A. Thon. C. R. Power, Willian Lidngton e sua senhora, George Willian Gibson, Herman Lundgren.” 80 Foi neste contexto que iniciou os primeiros contatos com a indústria têxtil, ao dar início à compra de ações de uma antiga fábrica na vizinha Goiana: Companhia de Fiação e Tecidos de Goiana. Em seguida, desistiu do negócio e adquiriu uma antiga fábrica na cidade de Olinda. Veio a falecer em 1907 e seus negócios foram distribuídos entre seus filhos, especificamente, Arthur e Frederico João Lundgren. Em 1908, foi fundada a Casas Pernambucanas, onde seria vendida a produção, inicialmente, da tecelagem Paulista e, depois de 1924, de Rio Tinto. Em 1910, já contava com filiais em todo o Brasil.

Ao (re)pensar a história de Herman T. Lundgren, algumas reflexões devem ser pontuadas: como problematizar a história e a memória construída sobre Herman Lundgren? De que forma sua trajetória de vida e comercial, na segunda metade do século XIX, confunde-se com o amplo leque comercial em torno do porto do Recife? Como imigrante, naturalizado brasileiro, construiu uma forte teia de empreendimentos culminando com a fábrica de tecidos Paulista, no município de Olinda, no início do século XX. Neste sentido, ao serem tributários do pai, os filhos Arthur e Frederico João Lundgren81 prosseguiram no fortalecimento e ampliação dos seus projetos comerciais e ao escrever sobre a história de Herman T. Lundgren a justificativa é no entendimento da mentalidade industrial dos patrões e de como estabeleceram relações com os operários da fábrica de tecidos Rio Tinto, na Paraíba.

79 MARKOVITCH, Jacques. Op. Cit. P.36

80 A Província – Órgão do Partido Liberal. Recife, segunda-feira, 26 de setembro e 1874. P.2. Arquivo da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

81 Herman e Ana Elizabeth Lundgren, tiveram 5 filhos: Frederico João (1879-1946), Guilherme Alberto (1881- 1933); Herman Lundgren Júnior; Anna Louise e Arthur Herman (1882-1967).

2.2 DOS POTIGUARAS AOS LUNDGREN, DAS TERRAS DA PREGUIÇA À RIO TINTO:

UM SOPRO DE PROGRESSO?

Em 1908 o Presidente do Estado da Paraíba, Monsenhor Walfredo Leal, anunciava a habitual Mensagem dirigida à Assembleia do Estado. No corpo do texto, no item Leis Sancionados no ano de 1907 encontrava-se a primeira referência sobre isenção de impostos a tecelagens que, porventura, viessem a serem instaladas na Paraíba. Por meio da Lei N. 273, Walfredo Leal isentava estas fábricas de fiação e tecidos por um período de 15 anos.82 Dez anos depois, os industriais Lundgren, proprietários de uma fábrica têxtil, em Paulista, próximo a Recife, demonstram interesse em executarem um plano de expansão de seus negócios têxteis. Podemos perceber que esta isenção oferecida pelo governo paraibano possibilitou a escolha do estado para a implantação de uma filial da fábrica de Paulista.

Em 1925, em sessão na Assembleia do Estado de Pernambuco, há memorando remetido ao Governo do estado sobre a isenção e modificação de impostos à fábrica Rio Tinto.83 Entre os governos de João Suassuna (1924-1928) e João Pessoa (1928-1930), a relação dos Lundgren com o governo estadual, passou por algumas modificações, como informa, José Octávio de A. Mello:

Ao contrário de Suassuna, por conta de quem a Companhia de Tecidos Rio Tinto, de devedora de impostos ao Governo estava se transformando em credora, a custa de duvidosos serviços realizados por Mário Viana em ponte sobre o rio Mamanguape, João Pessoa achava-se de há muito insistindo junto a presidência do Estado pela revogação de isenções fiscais concedidas a esse grupo agroindustrial. Ao assumir o Governo, Pessoa não só restabeleceu a cobrança de impostos da companhia de tecidos como desarmou os vigias de sua milícia particular e, além de demitir o Juiz da Comarca, removeu de Mamanguape o Promotor Rui Alverga, aparceirado com os Lundgren. 84

É certo que ao conceder isenção de impostos à implantação da tecelagem, o presidente do estado Camilo Holanda, permitiu que houvesse um processo em que Rio Tinto se tornou,

82 Mensagem apresentada à Assembléia Legislativa do Estado em 1 de março de 1908 por ocasião da

instalação da 1ª sessão da 5ª legislatura pelo Presidente do Estado monsenhor Walfredo Leal. Imprensa

Oficial, Parahyba do Norte, 1908. P. 9. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Walfredo Leal exerceu o cargo de Presidente do Estado de 1905 a 1908.

83 Congresso do Estado. A Província – Recife, quarta-feira, 8 de abril de 1925. Ano LIV – N. 82, P. 1.

84 MELLO, José Octávio de A. A Revolução Estatizada: um estudo sobre a formação do centralismo em 30.

segundo o historiador José Octávio de Arruda Mello, um “Estado dentro do Estado”. 85 Grande parte do projeto de colonização da região passava obrigatoriamente pela compra de extensas quantidades de terras e desembocava em contendas envolvendo os potiguaras. A partir da visão descrita pelos potiguaras, percebemos que este não foi um processo sem resistência. A chegada dos Lundgren na região, desmantela um modo de vida e os Potiguaras foram responsáveis pela narrativa de resistência.

As terras dos índios potiguaras estão concentradas em Rio Tinto, especificamente, em Vila Monte-Mór e Jaraguá.86 Ao rememorar os fatos relacionados à colonização da região pelos Lundgren, ao tempo da construção da cidade-fábrica de Rio Tinto, e o processo violento contra os Potiguaras, registra-se:

Os descendentes de Potiguaras relatam um fato estarrecedor, quando uma família de índios se recusava a entregar suas terras para os Lundgren tinham suas casas atacadas e destruídas pelos capangas do Coronel Frederico durante a noite impossibilitando a fuga, alguns índios tinham medo de se aproximar de suas famílias para não serem pegos, devido a esse fato muitos optaram por migrarem para outras aldeias. Durante muitos anos a CTRT desfrutou de todos os recursos provenientes das terras potiguaras, o SPI (Sistema de Proteção ao Índio) e depois a FUNAI nunca tiveram êxito em por fim aos absurdos cometidos pelos Lundgren.87

Para o antropólogo Estevão Palitot, este período em que os Lundgren, chegaram Mamanguape e passaram a estender a um amplo domínio territorial fez com que fosse um processo violento e de terror:

A Vila Monte-Mór seguiu habitada pelos indígenas até a primeira metade do século XX, quando estes se viram forçados a abandonar o local com a chegada dos irmãos Frederico e Arthur Lundgren. A instalação da Fábrica de Tecidos Rio Tinto deu início ao regime de terror, esbulho e negação da identidade indígena que ficou conhecido como o Tempo da Amorosa.88

85 Notar que Mário Coelho, um dos diretores da tecelagem, torna-se prefeito de Mamanguape por nomeação em 1927 a 1929, 1934 a 1935. Outro diretor que se torna igualmente, prefeito foi Eduardo de Alencar Ferreira, em 1935 a 1940 e 1951 a 1955, quando é eleito Deputado Estadual da Paraíba. Outro que faz carreira política, foi Raul de Góes.

86 PALITOT, Estevão Martins. A multidão potiguara: poder tutelar e conflito na Baía da Traição ao longo do século XX. Raízes, v.31, n.1, jan-jun / 2011, p. 27. Outro pesquisador também informa que são catalogadas