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Capítulo 2 QUESTÕES SOBRE O RITMO DA FALA

2.3 Ritmo do inglês norte americano

2.3.2 Ritmo silábico (full vowel timing)

2.3.2.2 The Borrowing Rule

Conforme discutido na seção anterior, quando uma sílaba plena fosse seguida de outra sílaba plena, a primeira receberia extra length. Por outro lado, quando uma sílaba plena fosse seguida por uma sílaba reduzida, o alongamento da vogal não mais se faria necessário, uma vez que a sílaba reduzida já forneceria o espaço

temporal para a inflexão tonal. Assim, as sílabas reduzidas estariam “emprestando tempo” das sílabas plenas. Como resultado, a combinação formada por uma sílaba plena e uma sílaba reduzida (nesta ordem) seria produzida aproximadamente no mesmo espaço de tempo da sílaba plena, como exemplificado a seguir:

Kids want sweets [ ʌ ]

Kids wanted sweets [ ʌ ]

No exemplo, a vogal [ʌ] da palavra want no primeiro enunciado seria mais longa do que no segundo enunciado em wanted, já que ambas palavras tenderiam a ser produzidas em tempos aproximados, uma vez que a duração dos pés rítmicos troqueus20 (wanted) e monobeats (want) são muito próximas.

Dados experimentais mostram que, a medida que aumentamos o número de sílabas reduzidas dentro de um pé rítmico, ele tende a aumentar em duração. Kim e Cole (2007) desenvolveram um experimento para o inglês norte-americano no qual foram feitas as medições de duração de pés rítmicos de tamanhos variados em três posições: dentro de frases intermediárias, em fronteiras intermediárias e em fronteiras finais, os quais foram plotados no Gráfico 4 abaixo:

Gráfico 4 – Duração do pé rítmico vs número de sílabas no pé. Fonte: Kim e Cole (2007)

Kim e Cole (2007) concluíram que, quando o número de sílabas em um pé rítmico aumenta, a duração do pé aumenta, mas a duração da rima silábica da sílaba acentuada é reduzida. Os autores acrescentam que “this finding suggests that rhythmic regularization in American English is manifested not in terms of isochronous foot duration, but through an adjustment of the duration of stressed syllables”. Uma vez que esse encurtamento da vogal ocorre apenas dentro da frase intermediária, os resultados do experimento sugerem que a estrutura prosódica desempenha um papel importante no inglês norte-americano.

Tal implementação fonológica pode ser explicada de forma mais simplificada através da chamada Borrowing Rule, ou regra do empréstimo: a sílaba com a vogal reduzida [] estaria “tomando tempo emprestado” da sílaba longa que a precede

ela teria sua duração reduzida, de modo a manter a regularidade, conforme, portanto, mostraram os dados de Kim e Cole (2007).

Bolinger (1986) também acredita na existência da Borrowing Rule para o inglês norte-americano. Segundo o autor, as características rítmicas relacionadas à sílaba são observadas na alternância entre sílabas plenas e reduzidas e ao modo como as vogais plenas têm sua duração alterada quando sílabas reduzidas são adicionadas ao mesmo pé rítmico. Não se trata, portanto, de isossilabicionismo, tendência de ser dar a cada sílaba, independentemente de ser proeminente ou não, a mesma duração21.

Isso já seria em si suficiente para que se traçasse base para distinção tipológica entre o ritmo de duas línguas. Por exemplo, seria possível testar a hipótese de que as línguas classificadas como de ritmo acentual apresentam maior contraste na duração de vogais em sílabas adjacentes do que as sílabas classificadas como de ritmo silábico.

Há vários trabalhos acústicos contrastivos entre o ritmo das línguas envolvendo a inspeção da qualidade vocálica e a duração silábica que parecem corroborar a Borrowing Rule.

Udofot (2003), por exemplo, desenvolveu experimento acústico de análise do ritmo da fala de 60 sujeitos nigerianos oriundos de três categorias distintas: substandard, standard e sophisticated English, contrastando as produções desses falantes com a de um falante nativo de inglês britânico. Ele percebeu que nigerianos tendem a dar a mesma proeminência a todas as sílabas, sem diferenciar vogais plenas e vogais

21 O termo isossilabicionismo é recorrente em Barbosa (2006), em estudo sobre as características rítmicas do português brasileiro sob um enfoque dinâmico-funcional.

reduzidas. Como resultado, a duração, tanto das sílabas quanto dos enunciados, mostra-se maior na fala dos falantes nigerianos.

O pesquisador percebeu haver também diferenças em relação ao maior número de sílabas proeminentes na fala dos nigerianos, sendo que o padrão rítmico desses falantes não alterna sílabas proeminentes e não proeminentes de forma consistente. A análise acústica demonstrou que o grupo dos nigerianos usou mais tempo para produzir as sílabas reduzidas, palavras e enunciados e menos tempo para produzir accented syllables do que o falante britânico, resultando em uma tendência de valores de duração de sílabas mais aproximados.

O autor afirma que talvez uma análise de ritmo baseada na descrição do intervalo de ocorrência das vogais plenas (full vowel timing) seja mais compatível com o inglês nigeriano, já que essa análise não depende nem do número de acentos de pitch nem do número de sílabas, mas do padrão formado pela mistura de sílabas plenas e reduzidas. Em outras palavras, o veio estrutural do enfoque proposto por Bolinger para o ritmo do inglês, ou seja, que as sílabas reduzidas “borrow time from the full syllable” mostrou-se mais producente na análise das diferenças entre os padrões rítmicos do inglês nigeriano e do inglês britânico do que aquele baseado apenas nos “stresses”. O autor concluiu que o inglês nigeriano apresenta características rítmicas mais próximas do ritmo silábico do que do ritmo acentual.

Rietveld e Koopmans-van Beinum (1987) investigaram a relação entre o grau de redução vocálica e a percepção de proeminência acentual quando outros parâmetros, tais como f0, intensidade e duração, foram mantidos constantes; eles descobriram que, nesse contexto, a ausência de vogais reduzidas era uma pista relevante para a percepção das proeminências.

Householder (1971), por sua vez, em estudo de corpus de inglês coloquial, descobriu que a diferença na posição do acento lexical na grande maioria de pares de palavras com mesma grafia (ex: record (n) vs record (v)) era sinalizada pela redução vocálica (portanto, manipulação de qualidade de voz), bem como por diferenças acústicas nos parâmetros de f0, intensidade e duração. De modo similar, Fear, Cutler e Butterfield (1995) afirmam que as sílabas “fortes” e “fracas” no inglês são distinguidas pelo “stress” (ex: f0, duração e intensidade), pela qualidade vocálica ou por ambos.