Em um de suas principais trabalhos denominado Sobre a Televisão, Bourdieu (1997) se esforça por realizar uma análise das dinâmicas do campo do jornalismo e dos fatores que influenciam a ação dos agentes que nele estão inseridos, tendo por base o contexto da mídia francesa de sua época.
Primeiramente, deve-se ressaltar que o campo jornalístico ou o campo da mídia é parte do campo da produção cultural em conjunto com as artes e as ciências, ou seja, um campo que se ocupa com a produção cultural de bens simbólicos (BOURDIEU, 1997).
Para o autor, o mundo do jornalismo pode ser encarado como um microcosmo que possui suas próprias leis e que é definido por sua posição no mundo global e pelas atrações e repulsões que sofre por parte de outros microcosmos. Assim, para ele, “dizer que ele é autônomo, que tem sua própria lei, significa dizer que o que nele se passa não pode ser
compreendido de maneira direta a partir de fatos externos” (BOURDIEU, 1997, p.55). Tal
afirmação, para ele, significa dizer que aquilo que se passa no campo do jornalismo não pode ser explicado tão somente por fatores econômicos.
Assim, o mais importante, para ele, é a compreensão de que as empresas de jornalismo estão situadas em um universo de relações objetivas onde há a presença de diver sas outras
empresas que competem entre si, sendo tal concorrência “definida em sua forma, de maneira
invisível, por relações de força não percebidas que podem ser apreendidas através de indicadores tais como as fatias de mercado, o peso aos olhos dos anunc iantes, o capital
coletivo de jornalistas prestigiosos, etc.” (BOURDIEU, 1997, p.56). Ao abordar tal universo
de relações objetivas, evidentemente, o autor está fazendo menção ao próprio conceito de campo que é o cerne de seu trabalho e à própria noção de capital que é alvo de disputas por parte dos agentes que estão presentes em tal universo. Sendo assim, o autor ressalta que:
“Essa estrutura não é percebida nem pelos telespectadores, nem pelos jornalistas; eles percebem-lhe os efeitos, mas não veem a que ponto o peso relativo da instituição na qual se encontram pesa sobre eles, assim co mo seu lugar e seu peso nessa instituição. Para tentar compreender o que faz um jornalista, é preciso ter no espírito u ma série de parâmetros: de u m lado a posição do órgão de imprensa no qual ele se encontra [...], no campo jorna lístico; e m segundo lugar, sua própria posição no espaço de seu jornal ou de sua emissora” (BOURDIEU, 1997, p.57).
Dessa forma, ao estabelecer a relação entre a posição que um determinado órgão de imprensa ocupa dentro do universo do campo jornalístico e a posição que os próprios jornalistas ocupam dentro desse espaço social, Bourdieu (1997) enfatiza que:
“Em outras palavras, se quero saber hoje o que vai dizer ou escrever tal jornalista, o que ele achará evidente ou impensável, natural ou indigno dele, é preciso que se conheça a posição que ele ocupa nesse espaço, isto é, o poder específico que possui seu órgão de imprensa e que se mede, entre outros indícios, por seu peso econômico, pelas fatias de me rcado, mas també m por seu peso simbólico, ma is difíc il de quantificar.
Bourdieu (1997), também, afirma que o campo do jornalismo possui a particularidade de ser muito mais dependente de forças externas do que todos os outros campos de produção cultural, uma vez que depende diretamente da demanda e é diretamente objeto de sanção por parte do mercado. Em sua concepção, o campo jornalístico, dominado pela lógica comercial, atua sobre todos os outros campos por meio da imposição de suas limitações em o utros universos. Há, assim, conforme o pensamento do autor, uma contradição que diz respeito à submissão do próprio campo jornalístico à lógica econômica, mas também a influência deste sobre todos os outros campos de produção cultural.
De fato, Bourdieu (1997) afirma que, por um lado, o campo jornalístico é aquele que mais se submete às pressões externas advindas de forças econômicas e também dos índices de audiência (caso da televisão, meio de comunicação que o autor analisou de forma mais específica por perceber sua crescente influencia no campo em detrimento dos veículos de notícias impressos) e, por outro, exerce pressão e impõe limitações aos outros campos de produção cultural. Assim, diz ele que por meio da pressão relacionada ao índice de audiência,
“o peso da economia se exerce sobre a televisão, e, através do peso da televisão sobre o jornalismo, ele se exerce sobre os outros jornais, mesmo sobre os mais ‘puros’, e sobre os
jornalistas, que pouco a pouco deixam que problemas de televisão se imponham a eles” (BOURDIEU, 1997, P.81). Em suma, o peso do campo jornalístico como um todo, explica o autor, pesa sobre todos os outros campos de produção cultural.
Ao abordar as características relacionadas ao surgimento e o acesso à televisão, Bourdieu (1997) menciona que tais fatores foram responsáveis pelo que ele denomina como sendo uma censura invisível exercida sobre jornalistas e sobre os convidados no campo e que
ocasionaram a perda de autonomia deste último. Tal censura está ligada especialmente “ao
fato de que o assunto é imposto, de que as condições da comunicação são impostas e, sobretudo, de que a limitação do tempo impõe ao discurso restrições tais que é pouco
provável que alguma coisa possa ser dita” (BOURDIEU, 1997, p.19).
Tal censura, pode ser analisado por meio de fatores internos e externos. Os primeiros dizem respeito ao que foi abordado mais acima, ou seja, uma restrição imposta aos próprios jornalistas que está ligada ao fato de haver uma grande precariedade de emprego e um exército de reserva nas profissões ligadas à televisão e às rádios e que acaba por levar os jornalistas a um conformismo político, gerando uma autocensura operada por eles de forma consciente ou inconsciente. A autocensura também está intrinsecamente ligada ao que Bourdieu (1997) denomina como a circulação circular da informação, ou seja, algo que resulta da homogeneidade dos produtos jornalísticos ocasionada pela própria lógica da concorrência. Tendo em vista que os jornalistas realizam a leitura dos grandes jornais de forma regular (e, portanto, o trabalho que seus pares realizam), aliado ao fato de que os próprios jornalistas possuem as mesmas origens sociais e formações (ou seja, um habitus semelhante), de se encontrarem e debaterem frequentemente uns com os outros, acaba-se por gerar um efeito de fechamento ou de censura eficaz que coíbe que determinados assuntos sejam tratados, em um círculo vicioso. O rompimento desse círculo, diz ele, apenas acontece a partir de mecanismos de transgressão, os quais só podem ocorrer por meio da própria mídia.
Nesse sentido, ele diz que é necessária a produção de um fato novo que servirá como um choque que atraia ao conjunto da mídia ou pelo menos um veículo especificamente, e que pode ser reforçado pelo interesse dos outros veículos. O segundo conjunto de fatores, ou seja, a autocensura externa, se dá em função da pressão econômica, como os anunciantes que pagam a publicidade, o Estado que dá subvenções, os índices de audiência, etc., o que faz, especialmente da televisão, “um formidável instrumento de manutenção da ordem simbólica”
e “uma forma particularmente perniciosa de violência simbólica” (BOURDIEU, 1997, p.20;
22).
Com relação a esta última afirmação, vale mencionar que Bourdieu (1997) atribui àquilo que ele denomina como sendo fatos-ônibus parte da ação de violência simbólica que a televisão exerce sobre as pessoas. Os fatos ônibus são, para o autor, informações elementares ou rudimentares que devem ser do interesse de todos sem que causem algum tipo de impacto e que formem consenso, sem tocar em nada que seja importante. Ainda, afirma ele que a televisão possui uma espécie de monopólio sobre a formação de opinião de parte importante da população, uma vez que há inúmeras pessoas que não leem jornal algum e que entregam a televisão o papel de fontes únicas de todas as informações que recebem. Também, Bourdieu (1997, p.140) chama a atenção para “a amnésia estrutural favorecida pela lógica do
pensamento improvisado dia após dia” e também para a concorrência que condena os
jornalistas “a produzirem uma representação instantaneística e descontinuística do mundo”. Ele afirma também que “esta visão des-historizada e des-historizante, atomizada e atomizante, encontra a sua realização paradigmática na imagem que do mundo dão as atualidades televisivas, sucessão de histórias na aparência absurdas que acabam todas por assemelhar-se” (BOURDIEU, 1997, p.140).
É interessante observar que, na época em que refletiu sobre a televisão, Bourdieu (1997) percebia uma maior seriedade por parte da imprensa escrita quando comparada à primeira, uma vez que ele percebia nos jornais certa preocupação por respeitabilidade inerente ao modelo que eles se acostumaram a seguir. Entretanto, o autor já colocava em dúvida a manutenção de tal seriedade por parte dos jornais em virtude da concorrência da televisão. De fato, em entrevista concedida ao Jornal do Brasil no ano 2000, ao ser perguntado se o jornalismo da TV era pior do que o da imprensa escrita dita séria, Bourdieu (2000) afirmou o seguinte:
Eu não colocaria a questão nesses termos. É verdade, para simplificar, que o jornalismo da TV (sobretudo nas grandes redes, de grandes espetáculos e grande público) está submetido a pressões (a da urgência, princ ipalmente, ligada ao medo de entediar, isto é,
de perder telespectador), uma coisa da qual o jornalismo escrito, o dos grandes jornais ditos ‘sérios’, está livre. Mas, de fato, a concorrência no campo jornalístico – incluídas todas as mídias – faz com que as pressões e interesses que pesam sobre a televisão pesem també m, por interméd io da televisão, sobre a totalidade dos jornais, mesmo sobre aqueles ma is preocupados com sua autonomia (BOURDIEU, 2000, s/p).
Finalmente, Bourdieu (1997) afirma que os jornalistas ou o campo jornalístico devem sua importância no mundo social ao fato de que eles detêm um monopólio real sobre os instrumentos de produção e a ampla disseminação da informação para o grande público. Este campo, ainda, possui a especificidade de garantir o acesso à notoriedade pública, ou seja, “o poder de se exprimir publicamente, de existir publicamente, de ser conhecido” (BOURDIEU, 1997, p.66). Tal acesso pode ser destinado não apenas aos cidadãos, mas especialmente a outros produtores culturais, tais como cientistas, artistas escritores ou outros jornalistas. Tal fato acaba fazendo com que alguns intelectuais-jornalistas selecionados pelos veículos de mídia sejam legitimados no campo da produção cultural e adquiram reconhecimento social. Tais especialistas acabam por reforçar, entretanto, as exigências dos índices de audiência e frequentemente impõem julgamentos críticos ao público maior, favorecendo a escolha a escolha de bens culturais menos requintados e mais vendáveis por parte de certas categorias de consumidores.
O presente trabalho, ainda que tenha como objeto de análise o estudo de um movimento específico que não pertence ao âmbito da mídia tradicional, leva em consideração as características deste último e as criticas feitas por Bourdieu no que se refere à sua dinâmica. Isto se deve ao fato de que o movimento aqui analisado surgiu justamente como resultado de oportunidades que possibilitaram que parte da sociedade civil colocasse em prática ações que pudessem se contrapor às práticas dominantes de produção e distribuição de notícias adotadas por organizações de mídia tradicional
Em suas obras denominadas Contrafogos e Contrafogos 2, Bourdieu (1998; 2001) reflete sobre formas de atuação que poderiam ser adotadas por parte de intelectuais e ativistas como forma de se combater o neoliberalismo. Para ele, a mídia é um dos grandes aparatos que sustentam tal modelo e, portanto, deve ser combatido. Bourdieu (1998, p.77) afirma, nesse
sentido, que “é preciso inventar novas formas de comunicação entre os pesquisadores e os
militantes, ou seja, uma nova divisão do trabalho entre eles”. Assim, ele convoca os
pesquisadores a lutarem contra o que denomina como sendo o “martelamento da mídia”, ou
que, não sendo inocentes, representa uma visão de mundo específica que possui o poder de
gerar o “fatalismo e a submissão” (BOURDIEU, 1998, p.77). Assim, para ele:
“Pode-se enfrentar esse martelamento criticando as palavras, ajudando os não profissionais a se municia re m de armas de resistência específicas, para combater os efeitos de autoridade, o domínio da televisão, que desempenha um papel absolutamente capital. Ho je, não é mais possível conduzir lutas sociais sem dispor de programas de luta específica com e contra a televisão [...] Nessa luta, o combate contra os intelectuais da mídia é importante [...] Elas têm u m papel e xt re ma mente impo rtante do ponto de vista político, e é desejável que uma fração dos pesquisadores aceite abrir mão de uma parte de seu tempo e de sua energia, à maneira militante, para contra-atacá-las [...] Evidente mente, não se trata de lutar contra os jornalistas, também eles estão submetidos às coacções da precarização, com todos os efeitos de censura que ela gera em todas as profissões da produção cultural. Mas é capital saber que uma parte enorme do que podemos dizer ou faze r será filtrado, isto é, muitas vezes aniquilado, por aquilo que os jornalistas dirão (BOURDIEU, 1998, p. 78).
O trecho acima parece deixar evidente que, longe de possuir uma visão que re jeite a possibilidade dos agentes atuarem com vistas a combater uma determinada ordem dominante, Bourdieu, ao analisar as práticas da mídia corporativa de sua época, convoca pesquisadores e também movimentos sociais para que juntos elaborem um projeto que tenham o poder de se
constituir no que ele denomina como sendo “armas de resistência específicas”.
Bourdieu (1998, p. 113) afirma também que, sendo a sociologia uma forma de “judô simbólico contra as formas modernas de opressão simbólica”, é necessário que a imprensa
escrita também atue no sentido de difundir armas de combate às práticas adotadas pela televisão que está, em sua visão, mais próxima das forças de mercado. Nesse sentido, ele
convoca jornalistas a um “combate comum, chegando assim à definição ideal de sua profissão, como condição indispensável do exercício da democracia”. Tal combate se daria
especialmente pela reprodução desses agentes de mensagens de inconformismo com o atual sistema.
Ainda que as duas obras anteriormente citadas sejam coletâneas de textos que estejam mais relacionadas à atuação de Bourdieu como militante político, considera-se aqui que não se pode estabelecer uma separação entre sua visão política e a teoria por ele desenvolvida, uma vez que nenhuma abordagem teórica é neutra ou desprovida de viés político. Além disso, parece ser possível afirmar que aquilo que Bourdieu (1998) denomina como sendo armas de
resistência vai ao encontro do conceito por ele desenvolvido de “estratégias de subversão”,
que são justamente o conjunto de táticas dos quais os agentes de um campo lançam mão com o intuito de alterar a ordem do campo.
É com base no que foi exposto acima, ou seja, a percepção de que a perspectiva de Bourdieu concede margem de liberdade aos agentes para que, por meio de ações coletivas, eles consigam promover mudanças em um campo social (ainda que tais mudanças sejam naturalmente demoradas e limitadas pela estrutura do próprio campo e pelo próprio habitus dos agentes), que é realizado um esforço de complementar, no presente trabalho de tese, as abordagens de Bourdieu com a abordagem sobre ativismo de mídia advinda dos estudos críticos de comunicação.
Isto não significa dizer que as diferenças existentes entre ambas as abordagens, inclusive no que tange a suas respectivas bases epistemológicas, não sejam aqui consideradas. De fato, não se trata de promover uma combinação das duas abordagens, mas tão somente um esforço de visualizar uma outra perspectiva que, considerando também o elemento poder e as dificuldades existentes no âmbito da comunicação relacionadas à promoção de mudanças em seu interior, enxerga na utilização das novas tecnologia de informação e comunicação por parte de grupos à margem das práticas tradicionais de produção e difusão de notícias uma oportunidade para expressar uma outra visão de mundo que foge daquela defendida pelas grandes organizações do campo. Nesse sentido, defende-se aqui que o uso de tais tecnologias para a defesa de um projeto distinto daquele que é amplamente difundido pelas grandes corporações midiáticas, fenômeno surgido em temos recentes, vai justamente ao encontro das inquietações expostas por Bourdieu em sua época quando este analisou a problemática envolvendo o campo jornalístico.