4. PROPOSIÇÕES METODOLÓGICAS
4.2 ETAPA DE TRABALHO UM: JOGOS DE CONSTRUÇÃO DE IMAGENS
4.2.4 Brainstorming de imagens individuais e coletivas
Um terceiro caminho de criação a partir de imagens, usado como procedimento de criação e introdução à dinâmica de produção colaborativa, refere-se à livre produção de uma série de imagens estáticas e dinâmicas em torno de um tema pré-definido. O principal diferencial entre este procedimento e a técnica de Teatro-Imagem é que aqui os jogadores possuem maior espaço para a construção e adaptação das imagens, podendo, inclusive, fazer indicações com palavras.
A dinâmica se inicia com a definição de um tema ou questão. A partir disso, todos os atores contemplam primeiramente o palco vazio, que assim permanecerá até que alguém apresente uma imagem. Esta imagem pode ser parada ou dinâmica, individual ou coletiva,
silenciosa ou com falas. Se o participante precisar de mais integrantes para compor a sua imagem, ele os convoca para um espaço reservado onde explicará, de maneira objetiva, como cada um deve se portar no espaço. Durante o processo de concretização da imagem, recomenda- se que os espectadores fechem os olhos para assim apreciar a criação apenas quando ela estiver finalizada. Após montar e analisar sua imagem, o participante que teve a ideia pede ao público que abra os olhos. Após a apresentação da imagem, o palco torna a ficar vazio até que o próximo jogador tenha uma nova ideia a ser compartilhada.
O exercício se desenvolve, assim, como uma espécie de brainstorming de possibilidades de representação simbólica a partir de um assunto de comum interesse. O objetivo principal é o de estimular a apresentação livre de ideias sem a preocupação de estabelecer algum sentido ou conexão entre as imagens apresentadas. Por este motivo, o instrutor pouco intervém durante o processo, a não ser para chamar a atenção para alguma questão extremamente necessária. É essencial para o jogo construir um espaço de criação convidativo para a experimentação das proposições, sendo, portanto, necessário diminuir o julgamento e a competitividade. Todo o coletivo deve se engajar no desenvolvimento do maior número possível de ideias, seja trazendo uma imagem, ou colaborando na demonstração de uma proposta trazida pelo companheiro.
A esse respeito, destaco aqui a importância do desenvolvimento de habilidades socializantes durante o curso do processo criativo. O jogo de criação de imagens individuais e coletivas ajuda nesse sentido, pois solicita uma atitude propositiva e receptiva durante o processo de produção de imagens. Os jogadores se colocam à disposição para ajudar na produção de conteúdos formulados por outras pessoas, estimulando comportamentos de solidariedade e cooperação.
Num momento mais avançado da dinâmica, os participantes são convocados a pensar em variações e desdobramentos a partir das imagens elaboradas. Tendo como base o acervo já produzido, os integrantes dever construir quadros mais elaborados, articulando duas ou mais imagens numa única representação ou aprimorando alguma ideia anteriormente trazida. Nessa etapa, as imagens ganham contornos mais estruturados e começam a se parecer com uma cena curta. É também uma fase de intensificação do intercâmbio de conteúdos entre os participantes, com a apropriação de referências trazidas pelos colegas no desenvolvimento de novos produtos. A esse respeito, destaco também a relativização das funções tradicionais de ator, diretor e dramaturgo, uma vez que o próprio procedimento solicita o desenvolvimento de atitudes referentes a todas essas funções. O participante do jogo, portanto, se coloca num lugar de polivalência na construção do resultado artístico, atitude que solicita também algum
desprendimento de suas ideias uma vez que a dinâmica se sustenta no exercício “antropofágico” de apropriação das imagens uns dos outros.
A condução do Brainstorming de imagens é inspirada principalmente na metodologia de criação cênica usada pelo grupo boliviano Teatro de los Andes, coletivo que durante muitos anos foi dirigido por César Brie24. Nos procedimentos desenvolvidos pelo Teatro de los Andes,
a escrita do texto dramatúrgico se desenvolve a partir do exercício de propor e interligar imagens tendo em vista um tema central. Ocorre, nesse sentido, uma concepção ideológica que se interessa pelo desenvolvimento de um ator-poeta, ou seja, um artista que não restringe seu aprendizado ao desenvolvimento de habilidades relativas à representação de personagens, mas também se engaja na construção da estética do espetáculo, do discurso cênico e do texto dramatúrgico.
Por privilegiar o aspecto poético das imagens produzidas, Brie frequentemente incita seus atores a construírem imagens incompletas, ou seja, que os participantes se expressem de maneira suspensa, deixando espaços para que o espectador construa também os significados daquilo que assiste. Merece também destaque a valorização das imagens metafóricas, das construções plásticas e das possibilidades de comunicação a partir de recursos simples. Juliana Leal e Raquel Abnadur (2006, p. 135), que realizaram um estudo a respeito da metodologia empregada por Brie, comentam:
A exploração profunda e criativa que realiza de recursos cênicos simples e cotidianos, o que resulta na obtenção de signos visuais ambíguos e polifônicos por esse caráter da complexidade semiótica extraída da simplicidade dos objetos e coisas do dia-a-dia. Cabe esclarecer que essa simplicidade e cotidianidade dos elementos cênicos utilizados nos espetáculos se relacionam muito mais com a facilidade de sua obtenção, utilização e trabalho pelos artistas que por uma errônea ou suposta ingenuidade, pobreza ou simplismo de seu uso na montagem.
Em suma, o procedimento se interessa em incitar os atores a perceberem como imagem uma unidade de cena: a situação, a ação, os elementos a serem utilizados. Dessa proposta, valoriza-se a construção de metáforas, a proposição de construções ambíguas e a dilatação do
24 O Teatro de Los Andes foi fundado em 1991, na Bolívia. Sua sede fica na cidade de Yotala, perto da cidade de Sucre, em uma pequena fazenda onde são realizadas as principais atividades do grupo: criação e apresentação de espetáculos, reuniões, oficinas de teatro e hospedagem de artistas que realizam projetos de residência e intercâmbio com o grupo. O trabalho é caracterizado principalmente pela criação coletiva, na qual diretores e atores contribuem na criação em diferentes elementos: encenação, sonoplastia, cenário e figurino.
sentido da cena, de maneira que os espectadores também possam tomar uma atitude criativa perante a obra.
A esse respeito, considero de grande importância para a condução chamar a atenção dos participantes para as possibilidades de criação para além da representação objetiva de um fato ou um tema. Isso porque observo que nas primeiras experimentações em torno da criação através do Brainstorming de imagens o grupo tende a propor representações baseadas em suas observações da vida real, havendo pouca articulação de recursos simbólicos e a inversão de sentidos. Por essa razão, nos intervalos entre a dinâmica, costumo incentivar o exercício de descoberta de novas formas de representação através da transformação dos elementos de cena, desconstrução da relação espacial, subversão da lógica, dentre outras ações. Na medida em que se torna mais potente a realização do jogo simbólico na proposição das imagens, mais os resultados se afastam de um lugar-comum de criação, cheio de clichês e proposições simplistas. A técnica do Brainstorming de imagens, em suma, possibilita o desenvolvimento de uma atitude cooperativa dentro do jogo, a relativização de funções e a coletivização dos produtos gerados pela dinâmica. Todas as imagens levadas à cena são compreendidas como bens a serviço da criação coletiva, podendo ser transformadas, reduzidas, dilatadas, desdobradas ou usadas integralmente dentro de outro contexto. O exercício é importante também na experimentação da própria poética da cena, uma vez que diferentes imagens tendem a evocar diferentes estéticas.