• Nenhum resultado encontrado

2.3 Momentos históricos e objetividade

2.3.3 Brasil anos 1950

No Brasil, segundo Luiz Amaral, a separação de notícia e comentário se dá de modo mais sistemático a partir dos anos 1940, após a Segunda Guerra Mundial. O autor interpreta que a tendência não foi muito além da valorização da notícia e de sua construção (p. 75). Importa-se um modelo de relato jornalístico, sem preocupações contínuas na imprensa norte-americana sobre o esforço em ser imparcial ou equânime na cobertura. O lead e o copy-desk são implantados no Diário Carioca e, em seguida, na Tribuna da Imprensa, Última Hora e Jornal do Brasil.

Ana Paula Goulart Ribeiro (2001) prefere identificar essa influência nos anos 1950 e 1960. Afinar-se ao padrão norte-americano sugere uma entrada formal na modernidade, a conquista de um discurso de “fala autorizada”, o reconhecimento como ator social. A autora recorda o dilema da imprensa desses anos, uma divisão historicamente brasileira – entre o formal e o real, entre o indivíduo e a pessoa (em termos antropológicos). Ou como organiza, de um lado, a impessoalidade e a racionalidade das instituições e, de outro, “as práticas oligárquicas, clientelísticas, familiares, patriarcais e patrimonialistas”.

O jornalismo brasileiro enfrenta, no século XX, uma tradição jornalística fortemente literária. No século XIX, imperara “a falta de recursos, a linguagem desabrida, o tribunismo e o sectarismo” (AMARAL, p. 69). Grandes bandeiras tinham sido levantadas em artigos, como a Abolição, o civilismo, a revolução de 1830; em destaque, havia nomes como Joaquim Nabuco e Cipriano Barata. Em termos de personalidades, Gonçalves Dias, Olavo Bilac e Euclides da Cunha exemplificam outra faceta, o beletrismo. A presença dos escritores-redatores por muito tempo supera em número o de repórteres,

função cuja ascensão se acenta com o enfoque na notícia e na reportagem.

Lins da Silva comenta que todos os jornais brasileiros no século XIX eram o contrário dos americanos a partir de 1830. Ele cita Juarez Bahia (em Três fases da imprensa brasileira, 1960), diz que os jornais eram “veículos de plataformas de governo, de opiniões de grupos, de críticas à administração, de programas e sugestões de reformas sociais” (p. 63). Um modelo de imprensa antigo predomina, mesmo no século XX – um jornal contemporâneo ao seu livro, no Rio Grande do Norte, mantém “uma prática comercial semelhante à abolida por Gordon Benett em 1847, a do pagamento anual por anúncios”.

Amaral, em posição menos radical, assinala que no fim do século XIX e começo do XX, os jornais brasileiros se transformam em grandes empresas. Momento comercial que guarda algumas semelhanças com o que acontecera nos EUA e Europa a partir de 1830/1840 quanto ao uso dos veículos como suporte publicitário e ampliação de tiragens. Um dos impulsos é a instalação do telégrafo no Brasil, em 1895, quando se incorporam a propaganda e as relações públicas (id., p. 72). Assis Chateaubriand é um dos pioneiros no sistema de anúncios em seu conglomerado de imprensa, o Diários Associados. Ao voltar de uma viagem da Europa, sugere a publicidade ao industrial Francisco Matarazzo e este responde não ser contemporâneo dessa tal de propaganda.

No trabalho Memória de Jornalista: um estudo sobre o conceito de objetividade nos relatos dos homens de imprensa dos anos 50, Ana Ribeiro observa que, para muitos jornalistas, defender a objetividade (e as novas técnicas daquele meio de século) era lutar pelo profissionalismo. Pesquisa baseada no testemunho de personagens daquele período revela um confronto com o amadorismo, pois uma parcela grande de jornalistas apenas cumpria a função de olhos em outros propósitos, como conseguir um bom cargo público.

Logo, o ideal da objetividade, como ela chama, desenvolve-se no Brasil como uma “estratégia de legitimação”, num contexto de profissionalização da imprensa, para obter autonomia da literatura, da política e dos interesses econômicos. Jânio de Freitas, em entrevista concedida em 2000, diz que o desejo era de fazer “um jornalismo sem compromisso. Agora, se isso ficou sendo chamado de objetividade... Foi uma procura de não ser parcial política e partidariamente” (p. 09). Outro que corrobora com o argumento de que a norma da objetividade no Brasil se afigurou um compromisso com a carreira na imprensa é Alberto Dines, o qual também salienta haver uma aculturação do

modelo norte-americano. Vide tópico arrolado abaixo em que se aborda uma compreensão redutora da objetividade – somente como uma questão de forma.

Apesar das resistências, das oposições e das críticas que lhe faziam alguns profissionais, a teoria da objetividade

reformulou, como um todo, os valores da imprensa brasileira, reforçando noções diversas como a da

imparcialidade da informação, a da responsabilidade social e a da honestidade do profissional. Mas o

jornalismo nacional não assimilou todos os valores que, no ideário norte-americano, eram correlatos à

idéia da objetividade, ou os assimilou em sentidos e graus diferentes (DINES In RIBEIRO, 2002, grifo nosso, p. 14).

No entanto, se eram usuais depoimentos sobre despreparo cultural e ético dos profissionais da imprensa da primeira metade do século, há quem critique o tecnicismo que inspira a adesão à norma da objetividade. Como Mauro Santana (apud ob. cit. p. 12), ele julga negativamente a falta de “envolvimento” do jornalista com sua notícia:

Temo muito que o tecnicismo subtraia da profissão o que ela tem de mais nobre: o inconformismo diante da injustiça, a ânsia da denúncia, o espírito de luta. (...) Daí o meu temor de que o tecnicismo sirva para castrar as nossas qualidades históricas, inclusive na forma de narração. As receitas, em jornalismo, são ineficazes. Não

sou daqueles que pensam deve ser impermeável aos acontecimentos e transmiti-los de forma impessoal aos leitores. Ao contrário, creio que o nosso dever é o de

viver os fatos e levá-los, com sua vida, aos que nos lêem e confiam no nosso depoimento. (...) Para que

comuniquemos com veracidade e exatidão, a matéria de nossa comunicação deve ser trabalhada por nossas usinas interiores: deve integrar-se em nós mesmos. Só

com esta marca de autenticidade, o depoimento será comunicável, humanamente, de um homem a outro homem (grifo nosso).

Uma das distinções entre o modelo originário e a versão brasileira pode se identificar em pontos como o da ausência de um tom paternalista, um entendimento de que o leitor deve desenvolver suas

próprias opiniões a partir das informações oferecidas pela imprensa. Esse foi um dos pontos que a adaptação da norma da objetividade terminou não implantando. Ana Ribeiro cita depoimento de Samuel Wainer quando comenta que seu jornal Última Hora “não deixava a informação solta na cabeça vazia do povo. Dava-lhe a complementação”, o que sugere uma visão elitista de certos produtores de notícia sobre o processo de recepção das mensagens jornalísticas, ao assumir uma postura civilizatória. Talvez um resquício dos modelos de povoamento, cujas profundas marcas históricas ainda persistiam, o que Lins da Silva destaca com o argumento de que enquanto nas colônias ibéricas havia uma missão civilizatória, nas britânicas apenas se queria enriquecer.