Diante de todo o exposto, nota-se que há um esforço internacional no sentido de ampliar cada vez mais a proteção aos refugiados, e que o Brasil tem adotado – ao menos nos textos legais – uma postura humanitária, possibilitando atender a demandas mais recentes, como os refugiados econômicos e as vítimas de violência generalizada. Recentemente o número de mulheres que chegam ao Brasil em busca de refúgio tem aumentado42. Elas viajam com a família, com os filhos e também sozinhas. Escolhem o país por razões como as informações internacionais de que encontrarão uma legislação solidária e o amparo de inúmeras organizações governamentais e ONG’s fixadas no território brasileiro.
42AGÊNCIA BRASIL. É cada vez maior o número de mulheres refugiadas no Brasil, aponta Cáritas. Disponível em: <http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2017-03/e-cada-vez-maior-o-numero-de-mulheres-refugiadas-no-brasil-aponta>. Acesso em: 19 mar. 2019.
Segundo Souza e Smith (2018), o processo de feminização das migrações, consequência do processo de feminização da pobreza, faz com que as pesquisas sobre migrações femininas foquem apenas na questão econômica ou política, ignorando casos de violência de gênero (p. 345).
No entanto, uma das dimensões da perseguição baseada no gênero mais ignorada é a violência doméstica e familiar. Comumente considerada uma questão meramente privada, o tema da violência contra a mulher no espaço doméstico tem ganhado espaço no cenário internacional com o avanço na temática dos direitos humanos e por meio de convenções específicas sobre o tema, como a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher e a Declaração sobre a Eliminação da Violência contra as Mulheres, a qual admitiu a vulnerabilidade das mulheres refugiadas (POST, 2016, p. 11).
Em 2006, em ocasião do Dia Internacional para Eliminação da Violência contra as mulheres (25 de novembro), Kofi Annan, Ex-Secretário-Geral da ONU declarou que
a violência contra as mulheres causa enorme sofrimento, deixa marcas nas famílias, afetando as várias gerações, e empobrece as comunidades. Impede que as mulheres realizem as suas potencialidades, limita o crescimento econômico e compromete o desenvolvimento. No que se refere à violência contra as mulheres, não há sociedades civilizadas43.
O Canadá tem se destacado na acolhida de mulheres vítimas de perseguição de gênero. De acordo com a CBC News44 a perseguição de gênero é a razão mais comum pela qual mulheres pediram refúgio no Canadá nos últimos 5 anos. Metade desses pedidos são em razão de violência doméstica.
O órgão de imigração canadense “Immigration and Refugee Board” (IRB) julgou entre os anos de 2013 e 2017 quase 3.000 pedidos de refúgio baseados em alegações de violência doméstica, sendo que 58% destes foram aceitos.
43UNRIC. Mensagem do secretário-geral da ONU, Kofi Annan, por ocasião do dia internacional para eliminação da violência contra as mulheres (25 de novembro de 2006). Disponível em:
<https://www.unric.org/pt/actualidade/7453>. Acesso em: 04 abr. 2019.
44 CBC NEWS. Refugees come to Canada to escape gender persecution. Disponível em: <https://www.cbc.ca/news/thenational/refugees-come-to-canada-to-escape-gender-persecution-1.4525746 >. Acesso em: 01 abr. 2019.
Segundo Catherine Dauvergne45, em casos de violência doméstica ou qualquer outro ato persecutório ocorrido dentro da esfera privada, a análise do pedido de status de refugiado acaba sendo baseada principalmente na existência ou não de proteção estatal no país de origem. Para Dauvergne, esse alto número de pedidos reflete a falta de mecanismos efetivos de proteção à mulher ao redor do mundo. Dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) apontam que 49 países não possuem leis de proteção para mulheres em situação de violência doméstica46.
O Brasil conta desde 2006 com a Lei 11.340, mais conhecida como Lei Maria da Penha e que foi eleita pela ONU como uma das três melhores legislações no mundo em matéria de proteção às mulheres (SOUZA; SMITH, 2018, p. 348). A lei segue as diretrizes da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher realizada em Belém do Pará em 1994, e que declara que “a violência contra a mulher constitui violação dos direitos humanos e liberdades fundamentais e limita total ou parcialmente a observância, gozo e exercício de tais direitos e liberdades”47.
O artigo 6° da Lei Maria da Penha também atesta que a violência doméstica e familiar contra a mulher constitui uma violação de direitos humanos (CUNHA; PINTO, 2008, p. 59). A violência doméstica é uma das dimensões da violência de gênero e se difere da “violência contra as mulheres”. A violência doméstica abrange os atos violentos ocorridos no âmbito domiciliar ou residencial. Dá-se ênfase, portanto, no aspecto espacial no qual a violência ocorre, sendo que não só as mulheres podem ser o alvo dessas agressões, mas qualquer membro do núcleo familiar (geralmente os mais vulneráveis, como crianças e idosos). Nesse sentido, esse conceito não traz uma abordagem voltada diretamente à discriminação contra a mulher. Já no caso da violência contra a mulher, o viés de gênero é o foco principal, ou seja, parte-se do princípio de que as mulheres enquanto seres humanos são mais vulneráveis e suscetíveis às mais diversas formas de violências. Não abarca
45 CBC NEWS. Gender persecution the top reason women seek asylum in Canada. Disponível em: <https://www.cbc.ca/news/canada/asylum-seekers-data-gender-persecution-1.4506245 >. Acesso em: 01 abr. 2019.
46ONU-BR. Mais de 200 milhões de mulheres no mundo não têm acesso à saúde sexual e reprodutiva, alerta UNFPA. Disponível em: < https://nacoesunidas.org/mais-de-200-milhoes-de-mulheres-no-mundo-nao-tem-acesso-a-saude-sexual-e-reprodutiva-alerta-unfpa/>. Acesso em: 01 abr. 2019. 47ORGANIZAÇÃO DOS ESTADOS AMERICANOS. Convenção Interamericana para prevenir, punir e erradicar a violência contra a mulher, “Convenção de Belém do Pará”. Disponível em:
somente as relações intrafamiliares, mas todas as relações sociais, não importando o espaço onde a violência ocorra, que pode ser público ou privado. Essa é a acepção contida no texto da Convenção de Belém do Pará, que, porém, não foi adotada pela Lei Maria da Penha, legislação que vai operar apenas no âmbito da violência doméstica (SOUZA, 2009, p. 29).
Segundo Parodi (2009, p. 224), apesar do senso comum, a Lei Maria da Penha não tem apenas o escopo de tipificação da conduta e punição pelo ato ilícito penal. Também consta nos objetivos da lei a prevenção e a erradicação da violência contra a mulher no seio da família. A prevenção inclui a previsão de uma série de mecanismos de assistência que devem ser efetivados pelos poderes executivo e judiciário, incluindo a implementação de um tratamento multidisciplinar no atendimento às famílias, o que exploraremos mais adiante. A seguir, será feita uma análise do caso que inspirou este trabalho.