3. Panorama Educacional do Século XIX no Brasil
3.1 Educação no cenário das transformações políticas e sociais dos Oitocentos
3.1.1 Brasil e Portugal e suas relações com a Inglaterra
As relações comerciais entre Portugal e Inglaterra tiveram início há longo tempo, provavelmente no século XIV, a partir da assinatura do primeiro Tratado de Aliança entre os dois países, por volta de 1373. Outros fatos históricos estreitaram ainda mais a aliança luso-britânica naquele período, entre os quais se destacam o estabelecimento do Tratado de Windsor em 1366, e o casamento de Filipa de Lancastre com Dom João I em 13864.
Já as relações diplomáticas entre Portugal e Espanha foram atingidas pelas rivalidades entre a França e a Inglaterra. Em razão do vínculo econômico com os ingleses, Portugal firmou sua oposição à Espanha, acirrando a disputa sobre o controle de territórios no Sul do Brasil e da região do Rio da Prata. Nesse sentido, a relação com a França ficou cada vez mais tensa, até que, movido pela decisão de Napoleão invadir Portugal, D João VI transfere a Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro, contando com o apoio da Inglaterra, que tinha interesses comerciais no Brasil.5
4Portugal e a Inglaterra (D. João I e Ricardo II, respectivamente) assinaram o Tratado de Windsor, confirmando
formalmente a aliança que haveria de servir de alicerce às relações bilaterais entre ambos durantes mais de 600 anos. O último ato a firmar esta aliança foi o casamento real entre Filipa de Lencastre, filha de João de Gante, Duque de Lencastre, e D. João I, realizado em 1387. (WIKIPEDIA, 2017)
5 “Com a mudança da Corte Portuguesa para o Brasil, os ingleses tiveram permissão para aqui estabelecer casas comerciais, onde tamanho se tornou o poderio econômico da Inglaterra naquela época, que naqueles anos, muito mais influentes e poderosos que a esquadra britânica eram os escritórios comerciais dos ingleses.” (ALMEIDA, 2000, p. 42).
A relação de dependência entre Portugal e Inglaterra, que forçou a abertura dos portos brasileiros às nações amigas em 1808, influenciou sobremaneira a estruturação política e social do Brasil.
Para citar um fato de grande relevância nesse cenário, temos a criação, no Brasil, da Real Junta de Comércio, em substituição à Mesa de Inspeção do Rio de Janeiro, estendendo sua jurisdição a todas as capitanias. Entre as atribuições dessa instituição, que teve como primeiro presidente o Conde de Aguar, Fernando José de Portugal e Castro em 1809, encontravam-se matricular os negociantes de grosso trato e seus caixeiros, regular a instalação de manufaturas e fábricas e cuidar do registro de patente e invenções.
Além disso, a Real Junta de Comércio representou um importante papel nos litígios entre negociantes, nas dissoluções de sociedades mercantis, na administração de bens de negociantes falecidos ou de firmas falidas ou em concordata, garantindo aos credores a quitação das dívidas, quando fossem aquelas as circunstâncias.
A abertura dos portos do Brasil ao comércio das nações amigas propiciou a assinatura do Tratado de Comércio e Navegação entre Portugal e Inglaterra em 1810. O acordo visava, principalmente, o estreitamento dos laços de amizade entre as duas nações e ampliação das vantagens de seus vassalos diante de um novo sistema livre de comércio entre os envolvidos e seus domínios, que no caso de Portugal era a nova sede do Império português, o Brasil.
Entre outros assuntos, foram acertadas no Tratado questões relativas ao comércio entre os países envolvidos, como o texto do seu artigo 8.º, que terminou com monopólios que pudessem limitar o comércio entre Portugal e Inglaterra e seus respectivos domínios.
O principal ponto desse acordo era o artigo 15, que regulava as novas tarifas alfandegárias, estabelecendo que todos os gêneros ingleses, à exceção dos estancos a certos produtos - tecidos de lã ingleses, vinhos portugueses e o pau-brasil -, pagariam direitos de 15% ao serem admitidos livremente nos domínios portugueses enquanto o artigo 18 determinava restrições na via oposta do comércio. O Tratado favorecia diretamente os produtos ingleses em prejuízo dos próprios gêneros portugueses, que pagariam 16% de impostos, e dos estrangeiros de outras nações amigas, taxados em 24%.
Sendo assim, o acordo dificultava em grande escala o comércio com as outras nações que não tinham condições de competir com os preços, a variedade e a qualidade dos produtos
ingleses, o que resultou em grande insatisfação entre os produtores e negociantes portugueses, que se sentiram lesados na exclusividade com a qual outrora controlavam o comércio colonial.
Como consequência, Almeida (1989, p. 58-59) aponta a forte influência que Inglaterra passou a exercer sob o Brasil no decorrer do século XIX, promovendo mudanças de grande porte, entre elas o desenvolvimento da imprensa local, chamada Imprensa Régia6, o uso do telégrafo, do trem de ferro e da iluminação a gás. Foram criados mais de 30 estabelecimentos comerciais ingleses no início do século XIX e aos ingleses se atribuía o controle do comércio; a supremacia técnica, e sobretudo o capital financeiro que garantiu o início do progresso industrial (ALMEIDA, 1989, p. 58-59).
Nesse período, o Brasil vivia em um contexto de submissão que era visível em todos os níveis. Externamente, em relação a Portugal; internamente, nas relações de trabalho escravo, com a submissão da maioria negra e mestiça à minoria branca (colonizadores). No entanto, tal submissão era menos cordata do que podia aparentar.
Alimentada pela revolta diante do poder repressivo que mantinha a dinâmica dessas relações, havia uma crescente vontade de emancipação geral, a qual, de certa forma, representou um campo fértil para a aplicação das ideias do liberalismo europeu trazidas pelo Príncipe Regente de Portugal à época da translação da Corte ao Brasil.
Cabe ressaltar que apesar da sua enorme importância, as mudanças implantadas por D. João VI favoreceram somente a elite, visando formar uma casta dirigente brasileira. Algo que, contraditoriamente e, em certa medida, acirrou as divergências sociais e políticas em torno de ideais emancipacionistas no país, fomentando a luta em prol da independência.