4. Considerações finais
2.2 Brasil-paisagem: reflexos na moda
Se fitinhas, balangandãs, fuxicos, rendas rústicas e chitas são elementos por demais folclóricos para representarem a “alta costura” nacional – como também aponta Moherdaui –, o mesmo não se pode dizer dos elementos naturais – representados pela fauna e flora, especialmente – do Brasil. A matéria de Veja, por exemplo, não economiza nas explicações relativas ao clima e à vegetação nacionais para justificar as “linhas mestras” de trabalho dos estilistas brasileiros. A criatividade tupiniquim passa, segundo Moherdaui, por uma
(8) intimidade natural com a luz, a cor e a exuberância que fazem parte do
patrimônio visual nacional.106 (grifamos).
A imagem de uma paisagem típica nacional (“patrimônio visual”) é apontada como responsável por características da moda brasileira. Esses elementos naturais serão mencionados diversas vezes pelos estilistas nacionais como aquilo que influencia o trabalho deles: do “colorido” das paisagens para o colorido nas roupas; da “exuberância” para o “exagero” (over) nas peças e nas estampas. As declarações de estilistas entrevistados por Veja dão a dimensão desse aspecto:
(9) Muitas pessoas nem sabem que sou brasileira. Mas sei que se fosse sueca minhas
roupas nunca teriam esse colorido, esse bordado, esse tempero.107 (Isabela Capeto; grifamos).
(10) Uma pessoa que cresceu na Amazônia, com aquelas árvores gigantes, não tem como
não ser over.108 (André Lima; grifamos)
A “exuberância” da natureza – um pré-construído que, como mostram Holanda
([1959]2010) e Chauí (2006), remonta à época do descobrimento do Brasil109 – não é o único
106MOHERDAUI, Bel. Alegres trópicos. Veja, n. 1980, 1º nov. 2006, p. 128. 107In: MOHERDAUI, Bel. Alegres trópicos. Veja, n. 1980, 1º nov. 2006, p. 130. 108MOHERDAUI, Bel. Alegres trópicos. Veja, n. 1980, 1º nov. 2006, p. 130. 109Vide capítulo 2.
aspecto relacionado ao espaço nacional “genuíno” que justifica outras escolhas aparentemente aleatórias. Além deste, também se pode detectar a presença de um outro tema apontado por Holanda ([1959]2010) em seus estudos e profundamente imbricado com a “exuberância” das paisagens: o aspecto climático.
Como dito antes, Holanda ([1959]2010) observa que a temperança dos ares do novo continente era fator frequentemente utilizado como evidência de que no Brasil encontrava-se o paraíso terreal. A diferença é que o clima retratado na moda não é ameno; ao contrário, a representação do Brasil nesse campo é mais próxima da ideia de “Rio 40 graus” que da temperança. Adriana Degreas, estilista brasileira de moda praia, também toca essa questão, como mostra o recorte a seguir:
(11) Consigo enxergar, com mais clareza, uma identidade brasileira muito forte na moda
praia. Acredito que faça parte do universo brasileiro, pelo comportamento, pela situação
climática que nos é favorável, pelo corpo da mulher brasileira, pela riqueza tropical.110 (grifamos).
O que parece interessante é que o clima aqui é atrelado à ideia de praia, numa passagem quase “evidente” – que é, aliás, muito revelador do funcionamento dos discursos. No mesmo sentido, o já citado estilista Walter Rodrigues revela:
(12) Eu acredito muito na questão do entorno, como eu sempre falo. O calor que atinge a gente por oito meses nesse país, isso nos faz diferentes dos europeus. Só isso já é
um ponto, independente se a gente vai por periquito, papagaio... essa diferença já está embutida no nosso DNA.111 (grifamos).
A declaração acima permite notar, mais uma vez, que são esses motivos naturais os responsáveis pelo tipo de moda que é feita no Brasil: a moda europeia é diferente da nossa porque não é o clima dos trópicos que os estilistas de lá vivenciam. Glória Kalil, consultora de moda, também retoma a questão climática:
110Qual é a identidade da moda brasileira, 9 jun. 2010. Disponível em: <http://vilamulher.terra.com.br/qual-e-a-
identidade-da-moda-brasileira-14-1-35-305.html>. Acesso em: 15 jul. 2011.
(13) Quando a gente fala em Brasil, todo mundo lembra de sol, lembra de uma coisa
mais leve, mais alegre [...] sobretudo menos formal: uma grande informalidade. Eu acho que isso tudo se transmite na nossa moda. (grifamos).
Também o renomado editor de moda da revista Vanity Fair, Michael Roberts, credita a identidade da moda brasileira ao fator climático. Segundo ele, as edições mais recentes das semanas de moda brasileiras têm apresentado uma moda mais brasileira porque deixaram de fazer “cópias do que acontece lá fora” e passaram a criar
(14) muitas coisas que têm a ver com o clima do Brasil. (Michael Roberts; grifamos).
Além de ser o “entorno” responsável pela criação dos estilistas, a natureza é também responsável por manifestações mais “diretas” nas coleções, por exemplo, nas estampas, como afirma Leitão (2007):
(15) A natureza exuberante, quase arrebatadora, que germina e impregna-se por toda
parte, é uma sedutora representação do Brasil em nossa moda de vestir, assim como é metáfora do país fora de suas fronteiras. Fauna e flora inspiram diretamente
motivos figurativos em nossas estampas e padronagens. Ao mesmo tempo, a natureza
percebida como molde para um caráter nacional brasileiro (ou como sua segunda natureza), serve de linha mestra para coser nossa moda. (LEITÃO, 2007, p. 130; grifamos).
A declaração de Tufi Duek abaixo marca uma passagem igualmente interessante: a questão tropical, que já havia aparecido com Adriana Degreas (11):
(16) Eu ponho samba, Carnaval, Maria Bonita e Lampião, o cangaço, a cultura do
Pantanal, das nossas praias. Eu tenho orgulho de dizer que eu já fiz todas essas buscas inspiracionais no nosso Brasil. Hoje todo mundo fala da nossa tropicalidade, do
nosso colorido, nossa sensualidade. Eu me sinto bastante orgulhoso em dizer [...] que
eu sou pioneiro nisso.112 (grifamos).
A “tropicalidade” é, como se verá no próximo tópico, uma espécie de “liga” entre os diversos temas que são costumeiramente associados a uma moda brasileira: o clima (não mais ameno, mas quente) que influencia uma paisagem exuberante se reflete, por sua vez, na exuberância das peças das coleções de estilistas brasileiros. Essa exuberância é representada por meio do colorido; pela leveza ou pela nudez do corpo, evidencia-se a sensualidade – que também
decorre do clima, que, por seu turno, leva os brasileiros à praia: uma de nossas paisagens
“típicas”113.
Todos esses elementos encontram-se altamente imbricados, numa relação que leva – como dito mais acima, de forma quase “evidente” – de um a outro e sustenta o funcionamento dos discursos de construção/legitimação de um espaço nacional “genuíno” nesse campo.
Por ser bastante emblemático de todas as discussões que foram apresentadas até aqui por meio de recortes, o texto a seguir será analisado integralmente, destacando-se, especialmente, as relações estabelecidas entre os temas acima tratados. As caixas com setas indicam os tópicos de cada parágrafo.
A identidade brasileira na moda114 Por Bruno Ost
Em 1960, Alceu Penna, ilustrador da revista Cruzeiro, refletindo sobre a identidade da moda nacional, disse: “Na estação em curso, a moda está se inspirando em trajes de Espanha, nas listras indianas e nas de Marrocos. Em grande evidência, o bordado Inglês. Ora, por que o bordado Inglês? E por que não o do Ceará? Por que Espanha, Índia, Marrocos e não o Brasil?”
Acredito que esta questão é excelente para pensar o que poderia ser uma identidade brasileira na moda. Quais características estilísticas ou materiais identificariam a moda brasileira como original? É possível limitar esses elementos para identificar-se uma moda com a cara do Brasil?
A moda brasileira é recente. Apesar de grandes nomes surgirem desde a década de 30, a preocupação com uma identidade brasileira começou apenas na segunda metade do século XX. Somente com a organização da indústria têxtil e da criação de eventos para os desfiles é que a moda tornou-se parte da cultura brasileira e deu início à busca pelos estilistas da diferenciação de suas criações das estrangeiras.
Designers brasileiros parecem divergir sobre o que seria uma moda à brasileira. Enquanto uns buscam diferenciar suas roupas com elementos da nossa cultura popular, outros buscam uma moda sem rótulos. De um lado Carlos Miele e suas criações com fuxicos e búzios, de outro Alexandre Herchcovitch e suas criações sem rótulos regionais. Porém, Carlos Miele reclamou à revista Exame, de 16 de outubro de 2002, que foi somente após os críticos verem cocares no desfile de Galliano e fuxicos na coleção de Jean-Paul Gaultier, que a crítica aceitou suas criações.
Cocares, fuxicos, rendas, penas e plumas, texturas e cores brasileiras. A questão da identidade não deve caracterizar uma busca por quais elementos devem fantasiar as roupas do país. Deve-se (sic) trazer os elementos de nossa cultura popular à vanguarda da moda. É o modo como usa-se a renda que faz da peça de roupa um item de moda. Voltando para Alceu Penna, por que a renda inglesa e não a do Ceará? Essa questão é fundamental para que os profissionais de moda prestem atenção que no Brasil existem
113Vide item 3 deste capítulo.
114OST, Bruno. A identidade brasileira na moda, 2006. Disponível em: <http://www.modamanifesto.com/index.php?
local=detalhes_moda&id=134>. Acesso em: 22 mar. 2011. A relação com o elemento estrangeiro Introdução da questão identitária Início da preocupação com uma identidade para a moda nacional Diferentes opiniões sobre o que é uma moda “genuína” brasileira Os elementos em si não caracterizam a moda nacional “típica”
materiais, cores, texturas e técnicas similares às diversas culturas do mundo. As rendas são apenas um exemplo, mas podemos citar o bordado, o couro, o algodão, o jeans, a moda praia e tantas outras criações e apropriações que receberam um toque brasileiro.
Deve-se preocupar em refletir não só a riqueza natural, mas também nossa riqueza cultural. O Brasil é um país tropical cujas capitais, em sua maioria, estão na costa. Também, os diferentes climas, as diferentes misturas étnicas com a Europa e a África sugerem uma moda plural, sensual, vibrante, rica em texturas, cores, materiais e imagens. Elementos que ao longo dos séculos foram trazidos pelos estrangeiros para o país e refletem, não somente nossa arte popular e nossa natureza exuberante, mas nossas cidades, nossas mazelas sociais, nossos luxos e exageros, nosso lifestyle.
O Brasil é um país de diversidade cultural e natural. A busca por uma identidade na moda deve abranger essa pluralidade. Dessa forma, o que identificaria as criações do Brasil seriam os elementos que representassem a cultura brasileira em todos os seus aspectos, e não aqueles que transformassem as roupas em fantasias étnicas.
O Brasil está na moda, vê-se isso nas inúmeras exposições sobre o país nas mais diferentes lojas do mundo, mas são exposições de características estereotipadas. É a praia com mulheres de biquíni, o futebol e tantas outras imagens que não são o reflexo de nossa cultura como um todo. Isso não caracteriza uma identidade na moda, mas uma imagem de como vêem o país. Por isso a busca de uma identidade brasileira parece estar apenas começando, pois ela precisa se apresentar ao mundo com sua face plural, que vai do campo à cidade, da floresta à praia.
O título já indica que o tema central a ser abordado diz respeito à identidade na moda: uma identidade pressuposta, i.e., inquestionável do ponto de vista de sua existência, como indica o artigo definido (“A identidade brasileira na moda”); trata-se, portanto, de investigar o que constrói essa identidade. As perguntas que introduzem essa questão apontam para dois elementos que poderiam representá-la: características estilísticas, de um lado, e materiais, de outro (2º parágrafo).
As características estilísticas que fariam com que a moda fosse feita “à brasileira”, como aponta o autor, aparecem como sendo aquilo que diferenciaria as criações nacionais das de estilistas estrangeiros; há, assim, estilistas que querem fazer uma moda “com a cara do Brasil” e outros que, por oposição, desejam uma moda “sem rótulos”. No entanto, mesmo quando fala em “características estilísticas”, o autor acaba por elencar uma série de “materiais” (fuxicos, búzios, cocares) que, em sendo utilizados pelos estilistas, representariam o país.
A imagem externa do Brasil é estereotipada e não dá conta da diversidade do país Se o Brasil é um país plural, sua moda também deve ser
Como deve ser a moda brasileira para que reflita as características do país
Esses materiais, como foi possível detectar nos excertos apresentados anteriormente, são um ponto de grande polêmica e sobre eles costuma incidir a negação, como mostram os recortes 2 a 4, reapresentados a seguir:
(2) Não preciso incluir ícones e temas folclóricos para dizer que ela [a moda que eu
faço] é brasileira. Mesmo porque lá fora ninguém sabe quem é o Saci Pererê. (Alexandre Herchcovitch; grifamos)
(3) A moda brasileira vai existir porque ela é feita por brasileiros, não porque ela usa
elementos folclóricos e culturais. Não há necessidade disso. (Walter Rodrigues; grifamos)
(4) Não é verdade que quem faça uma roupa cheia de fuxico, de rendinha, de bordado
está fazendo uma moda lindamente brasileira e que isso é a nossa cara. (Paulo Borges; grifamos)
A polêmica entre os dois posicionamentos está colocada nos seguintes termos: para os que acreditam que se perguntar sobre uma identidade brasileira na moda é uma questão superada, a busca por ela acaba produzindo “fantasias”, uma vez que, para esse posicionamento, isso levaria à utilização de elementos “folclóricos”; para o outro posicionamento, uma moda “com a cara do Brasil” não significa necessariamente usar determinados materiais – embora eles também possam ser utilizados (a leitura deve ser feita, portanto, num enquadre concessivo). Essa questão materializa-se no texto de Ost – representante do segundo posicionamento – de modo exemplar:
(17) A questão da identidade não deve caracterizar uma busca por quais elementos
devem fantasiar as roupas do país. Deve-se (sic) trazer os elementos de nossa cultura popular à vanguarda da moda.
O excerto acima recusa a “busca” por elementos característicos, mas isso não significa abandoná-los: é preciso apropriar-se deles para torná-los objetos de moda. Trata-se de uma visão que se poderia chamar “antropofágica”, i.e., é o artista, no caso o estilista, que irá transformar elementos originários da cultura popular em “obras de arte”. O que temos em (17) é, então, uma denegação, pois, como define Indursky (1990), a denegação discursiva é um tipo de negação em que aquilo que é negado só o é por razões conjunturais, ou seja, poderia mesmo ser
afirmado. Assim, o posicionamento representado no texto acima poderia até mesmo defender uma busca por materiais considerados típicos brasileiros, mas não o faz – ou melhor, não o faz sem concessões – para não ser tachado de folclorista na polêmica instaurada. Daí também a utilização do verbo “fantasiar” em (17): a acusação de que, ao utilizar elementos “típicos” nacionais, tornam-se as roupas “arremedos de fantasias”, como veremos mais adiante, é contestada. Nesse contexto aparecem as concessões: fazer peças “tipicamente” brasileiras sem que sejam “folclóricas”.
A “pluralidade” considerada um traço característico do Brasil é defendida – como também se viu no turismo – e almejada para a construção de uma identidade nacional na moda. E também aqui essa “ampliação” de uma imagem que vá além do “estereótipo” nacional deixa rastros na sintaxe:
(18) Deve-se preocupar em refletir não só a riqueza natural, mas também nossa riqueza
cultural. O Brasil é um país tropical cujas capitais, em sua maioria, estão na costa. Também, os diferentes climas, as diferentes misturas étnicas com a Europa e a África sugerem uma moda plural, sensual, vibrante, rica em texturas, cores, materiais e imagens. Elementos que ao longo dos séculos foram trazidos pelos estrangeiros para o país e refletem, não somente nossa arte popular e nossa natureza exuberante, mas nossas cidades, nossas mazelas sociais, nossos luxos e exageros, nosso lifestyle.
O uso das estruturas correlativas do tipo não só X mas também Y obedece também aqui ao mesmo funcionamento mostrado no capítulo anterior: em X pousa o pré-construído e em Y o deslocamento. Assim, a “riqueza natural” do Brasil que se reflete nas coleções é assumida como elemento “dado” e até certo ponto “inquestionável”, mas é preciso refletir também a “riqueza cultural”, que aqui guarda relação com os materiais, por exemplo (vide recortes 2 a 4 acima). Da mesma forma, esses elementos que representariam o Brasil em sua “pluralidade” são relacionados, em X, à “arte popular” e à “natureza exuberante” para depois (na posição de Y) serem chamados a representar também “nossas cidades, nossas mazelas sociais, nossos luxos e exageros, nosso lifestyle”.
Aí reside o ponto que parece crucial para o que interessa nesta pesquisa: na discussão em torno da questão identitária no universo da moda nacional, o que é questionado é o uso de determinados materiais (fuxicos, rendas etc.) como sendo representativos da moda brasileira. Por outro lado, o tema da “exuberância” natural e sua representação (por exemplo nas estampas) não é posto em causa; ao contrário, é assumido como algo válido e que, de fato, representa o Brasil. Em outras palavras, parece-nos que o “aqui” que o Brasil representa não é ponto de “disputa”. As representações do Brasil na moda envolvem, então, em boa medida, certas cenas validadas (MAINGUENEAU, 2006) que evocam uma “tropicalidade” considerada característica do espaço nacional brasileiro. E sobre isso se falará no tópico seguinte.