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Brasil: Produto Interno Bruto por setor da economia 2013

Através destes dados se tem a dimensão da polarização de São Paulo em relação ao país e a importância da região sul e sudeste para a economia nacional. Observa-se, também, que em cada região um Estado se destaca, sendo no norte o Pará, no nordeste a Bahia, no sudeste São Paulo, no sul o Paraná e no centro-oeste o Distrito Federal, tornando-se o ponto de referência para os demais. E, à medida que o agronegócio avança no território brasileiro devido ao quadro econômico nacional exposto e ao desenvolvimento geográfico desigual do capitalismo, ocorre o aprofundamento das desigualdades.

1R SUy[LPR FDStWXOR ³2 DJURQHJyFLR HP *RLiV JOREDOL]DomR WUDQVIRUPDo}HV H GHVLJXDOGDGHVHVSDFLDLV´DDQiOLVHVHJXHDPHVPDPHWRGRORJLDXWLOL]DGDQHVWHFDStWXORFRPD pretensão de mostrar a inserção do agronegócio no território goiano e o modo como este agravou a produção das desigualdades espaciais. O propósito é tecer uma compreensão sobre as principais dinâmicas territoriais presentes no território que sirva como base para o entendimento do município de Rio Verde.

CAPÍTULO III

O AGRONEGÓCIO EM GOIÁS: GLOBALIZAÇÃO E

MODERNIZAÇÃO DO TERRITÓRIO

Neste capítulo o agronegócio é discutido no contexto da globalização econômica em uma escala estadual, analisando-se as transformações e as desigualdades socioespaciais seguindo a mesma metodologia de análise do capítulo II, em que se estabelecem os pontos importantes desde o período da colonização até o atual, no intuito de se compreender o que já existia e o que é novo no território. No primeiro tópico, o agronegócio e a estruturação do território goiano foram analisados desde a colonização para explicar os usos da terra no bioma cerrado, indo até o século XX com a construção de Goiânia e da Capital Federal Brasília. No segundo tópico, o histórico e as transformações recentes do agronegócio foram analisados por meio dos investimentos do Governo Federal através dos Planos de Desenvolvimento que visavam tornar a agricultura científica e sua inserção no território goiano, que é caracterizada por uma cisão entre o norte, com poucas atividades econômicas ligadas à extração de minerais e à produção agropecuária, e o sul, mais desenvolvido e abrigo do agronegócio. No último tópico, discutiu-se sobre o agronegócio e o aprofundamento das desigualdades socioespaciais por meio dos dados de população de Goiás e PIB per capita para se compreender a forma como ocorreu este processo de desenvolvimento e sua materialidade no território.

3.1 O agronegócio e a estruturação do território goiano

Bem ou mal, ou melhor, quer queiram quer não, mesmo carcomida pelos anacronismos que a marcaram, e a marcam hoje tanto ou mais que no passado, SRUTXH FDVWLJDGD SHOR PRQRSyOLR GD WHUUD SHORV ³FRURQpLV´ H SHORV ROLJRSyOLRV modernos, foi do campo, parafraseando Braudel, que surgiram os setores modernos da indústria, dos serviços urbanos, dos transportes e as mil formas novas da vida nacional e principalmente goiana.

Esse conceito de Antônio Teixeira Neto (2006a, p. 09) mostra como é primordial o estudo das raízes goianas no campo para compreender o atual Estado de Goiás em sua totalidade. O agronegócio, produto de um processo de globalização da economia responsável por criar uma demanda de consumo global que impulsiona o espraiar da produção de mercadorias pelos mais diversos continentes, reformulou este Estado mediante sua estrutura territorial pré-existente. Ressalte-se que, historicamente, a ocupação do território goiano se deu a partir de 1722, período do Brasil Colônia, com a descoberta pelos bandeirantes de ouro de aluvião às margens do Rio Vermelho na atual Cidade de Goiás. A produção aurífera tinha como destino a Metrópole Portugal, detentora e regulamentadora do uso do solo por meio de leis rígidas. Como o ouro se esgotou rapidamente restou à população que não migrou da região a agricultura e a pecuária, que já vinham sendo desenvolvidas para subsistência em

torno das minas. Dentre as barreiras encontradas estava a localização de Goiás na área central do Brasil, longe da parte povoada, no litoral, e o acesso ao uso e posse da terra devido à Lei de Sesmarias, possuidora de formalidades difíceis de serem cumpridas pelo camponês.

Teixeira Neto (2006b, p. 3, destaques do autor) explica que a Lei de Sesmarias8 foi criada em 1375 em Portugal por conta dos estragos provocados pela peste negra na Europa, tendo como objetivo fixar o trabalhador na terra, combater a fome e diminuir as propriedades despovoadas. Como este sistema deu certo foi trazido para o Brasil, mas

Na verdade, o que mais dificultou a sua aplicação na colônia brasileira foi o seu caráter seletivo, excludente: as sesmarias só seriam concedidas a pessoas de posse, que, teoricamente, pudessem cumprir com todas as formalidades que ela exigia - encargos e ônus pesados demais. Como não havia um camponês sequer que reunisse as condições jurídicas e materiais para requerer e confirmar uma sesmaria, a lei, então, em vez de facilitar o acesso à terra por parte de quem necessitava dela para produzir, nem que fosse para o seu próprio sustento e o de sua família, ao contrário, concentrou a propriedade nas mãos de quem nada sabia fazer com ela - a burguesia colonial. Disto resultou o surgimento de tipos sociais que povoaram o campo e a cidade em regiões pouco habitadas, como os nossos sertões, e dominaram a vida política nacional por muito tempo: os coronéis - símbolo do poder oligárquico e do latifúndio improdutivo em nossa terra - e os posseiros e a imensa massa de FDPSRQHVHVSDXODWLQDPHQWHWUDQVIRUPDGRVHP³FDWLYHLURVGDWHUUD´

Mesmo com uma clara e bem definida função social a lei teve efeito contrário, restringindo o acesso à terra e permitindo a criação de grandes latifúndios. Também fez surgir duas classes sociais, a dos coronéis detentores de uma grande quantidade de terras e a dos camponeses excluídos dela, ambas permaneceram em constante conflito.

A figura do coronel é muito importante para esse contexto de Goiás - embora bastante controversa já que sobre ele recai a culpa pelo atraso no desenvolvimento do Estado -, pois, além deste deter a propriedade da terra, é o articulador político da região. Ferreira e Mendes (2009, p. 8) acreditam que nesse período o atraso era uma forma privilegiada de controle e afirmam que:

A política coronelística envolvia os diversos níveis de poder (federal, estadual e municipal). O coronel colocava-se, enquanto mediador, entre as instituições políticas e a população interiorana. [...] De um modo geral, supõe-se que as características essenciais do coronelismo em Goiás se estruturavam no predomínio da vida rural sobre a urbana, na grande propriedade auto-suficiente, na produção de subsistência, na falta de meios de comunicação e na dispersão e isolamento da população goiana.

8

Para maiores informações sobre as sesmarias no Brasil ver: ABREU, Maurício de Almeida. A apropriação do Território no Brasil Colonial. In: CASTRO, Iná Elias de; GOMES, Paulo Cesar da Costa; CORRÊA, Roberto Lobato (Orgs.). Explorações geográficas: percursos no fim do século. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997. p. 197-245.

Esta conjuntura em que a vida no território goiano se dava no ambiente rural sobrepujando o urbano, por meio das grandes propriedades autossuficientes baseadas em uma produção de subsistência administrada pelos coronéis, tornou-se uma característica de Goiás por séculos, e ainda hoje se encontram resquícios dela.

Retornando à problemática da Lei de Sesmaria, Teixeira Neto (2006b, p. 4-6) relata que as dificuldades de obtê-las era tão grande que em Goiás, de 1726 a 1770, foram requeridas 1052 e confirmadas apenas 09, e explica:

A concessão vigoraria por cinco anos, mas os obstáculos (degredo, tributos elevados, pensões e obrigações de serviços, o caráter de privilégio das concessões) deturparam o espírito maior da lei, que era o de povoar o campo, contendo o êxodo rural, e melhorar a agricultura. [...] chama a atenção para a burocracia e para a quase impraticabilidade de certas obrigações a serem cumpridas por parte do sesmeiro de parcos recursos, como, dentre outros, a obrigação de, no decorrer de dois anos, lavrar a terra. Isto não acontecendo, ele era obrigado a transferi-la a outrem, arrendando-a. O não cumprimento dessas duas obrigações (cultivar ou arrendar) implicaria em confisco da propriedade, fazendo-D UHWRUQDU DR ³EHP FRPXP´ RX PDLVSUHFLVDPHQWHDRGRPtQLRGRUHLDGYLQGRGDtRWHUPR³WHUUDGHYROXWD´ TXHIRL devolvida à origem dominial). (TEIXEIRA NETO, 2006b, p. 4-6, destaques do autor)

Esta Lei deu origem a outro problema no Brasil, que diz respeito às terras devolutas, aquelas que, em tese, pertencem ao Estado, mas são ocupadas por grandes latifundiários aumentando o conflito pela posse e pela propriedade da terra. Teixeira Neto (2006a, p. 1) conclui seu raciocínio afirmando que:

Passados dois séculos, a situação em nada mudou: o Brasil é um dos países em que o acesso à propriedade da terra é difícil para quem mais necessita dela para produzir e os tributos que incidem sobre tudo o que se faz e o que se consome são os mais pesados em todo o mundo.

Portanto, os principais parâmetros para se compreender Goiás até o século XX são: a) o povoamento que se inicia com a descoberta do ouro no século XVIII, que teve um ciclo curto; b) a localização na região central no Brasil, longe do povoamento principal concentrado na parte litorânea; c) um vasto e rico território que não pôde ser ocupado pelos camponeses para produção de sua subsistência devido à Lei de Sesmarias; e d) o surgimento de duas classes sociais, a dos coronéis donos das terras e comandantes políticos e a dos camponeses, que são os trabalhadores rurais.

É a estrutura de classes, formada desde a colonização, que vai - sob novas roupagens (atualmente: latifundiário, bancário, assentado, Sem-Terra, ribeirinho, Sem-Teto etc.) - delinear o paradoxo no qual o Cerrado está imerso: por um lado, assiste-se à degradação do mesmo enquanto bioma (destruição de seus rios, flora, fauna, solo), por outro, valoriza-o

enquanto território produtor de riquezas. Ambos os processos são conteúdo do próximo tópico.

3.1.1 O Cerrado Goiano

O desafio para estudiosos do Cerrado, professores/pesquisadores lotados em universidades no Distrito Federal e nos Estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Matogrosso do Sul e São Paulo, é situá-lo no cenário geopolítico contemporâneo. Para isso, um conjunto de docentes do Instituto de Estudos Socioambientais desenvolveu a denominada ³$ERUGDJHP 7HUULWRULDO GR &HUUDGR´ TXH p HP VtQWHVH XPD SURSRVWD PHWRGROyJLFD TXH supõe ler o Cerrado a partir da categoria território, ou seja, do conflito.

O conteúdo de método enuncia a indisposição desses estudiosos contra uma leitura ambientalista do Cerrado, pautada, por exemplo, no conceito de Bioma. Estabelecem-se também contraposições aos estudos que obliteram a importância metodológica da noção de escala, e veiculam abordagens que separam o Cerrado do país, e este do mundo.

Chaveiro e Marques (2015, p. 1, destaques dos autores) se posicionam a respeito do WHRUSROtWLFRGDFKDPDGD³OHLWXUDDPELHQWDOLVWDGR&HUUDGR´

Junto ao crivo do método se coloca a leitura política deste tipo de interpretação: a tendência da leitura ambientalista, quando fundada na separação entre o conceito de Bioma e Território, ou seja, na separação de natureza e sociedade, é redundar numa concepção de bairrismo provinciano. Ou seja, ao enaltacer o Cerrado a partir de H[SUHVV}HV FRPR ³FDL[D GiJXD GD $PpULFD /DWLQD´ ³0XQGR GDV iJXDV´ H correlatas, é como se o Cerrado, visto na perspectiva do bioma, fosse superior a outros biomas como a Mata Atlântica, o Pantanal, o Amazônico etc.

Por outro lado, os autores reiteram que a proposta não é desconsiderar a análise ambiental, independente da categoria de análise elencada - bioma, domínio morfoclimático, sistema biogeográfico -, mas avançar no desvendamento das relações de poder que desencadeiam transformações de uso e significação de seus territórios. O Cerrado enquanto território é, assim, o Cerrado visto a partir do conflito de interesses arquitetados e expressos de forma particular nos lugares.

Pautar os conflitos é, antes de tudo, amarrar as múltiplas frentes de apropriação dos componentes naturais e humanos do Cerrado: conflitos por solo, água, minérios, relevo, vegetação, trabalho e cultura. Se no Brasil se evidenciou uma forte relação entre a posição do Sudeste na divisão regional do trabalho - a exemplo da centralidade desempenhada por São Paulo na indústria brasileira, herança de uma política colonial -, em Goiás o modelo se

reproduz. Para compreender as bases de tal estrutura regional e a formação de polos econômicos, partiu-se de uma breve explicação sobre o sistema natural do bioma Cerrado, que abrange uma área de mais de 2.000.000 quilômetros quadrados, e é possuidor de características geomorfológicas, paisagísticas, hídricas e climáticas bem peculiares (mapa 07). Com relação à geomorfologia, $E¶6iEHU S-118) o descreve como

O domínio dos chapadões recoberto por cerrado e penetrados por florestas-galeria ± de diversas composições ± constitui-se em um espaço físico ecológico e biótico, de primeira ordem de grande, possuindo de 1,7 a 1,9 milhão de quilômetros quadrados de extensão. [...] O domínio dos cerrados, em sua região nuclear, ocupa predominantemente maciços planaltos de estrutura complexa, dotados de superfícies de cimeira, e um conjunto significativo de planaltos sedimentares compartimentados, situados em níveis que variam entre 300 e 1700 m de altitude. As formas de terrenos são, grosso modo, similares tanto nas áreas de terrenos cristalinos aplainados como nas áreas sedimentares sobrelevadas e transformadas em planaltos típicos. No detalhe, entrementes, as feições morfológicas são muito mais diversificadas, fato bem testemunhado pelo caráter compósito dos padrões de drenagem das sub-bacias hidrográficas, ainda que, em conjunto, chapadões sedimentares e chapadões de estrutura complexa e de velhos terrenos tenha o mesmo comportamento na estruturação de paisagens físicas e ecológicas no domínio dos cerrados.

Esses conceitos estão ligados à formação geológica do Brasil, que se encontra no centro da Placa Tectônica Sul-Americana, e de Goiás, situado no centro do país em uma área chamada de escudo cristalino, formada por uma estrutura geológica antiga e por isso possuidora de uma grande quantidade de recursos minerais.

O autor concebe planalto e planície a partir de sua altitude e do processo de erosão e sedimentação, sendo que o planalto possui superfícies acima de 200m (nível do mar), predominando o desgaste erosivo, e, a planície, abaixo de 200m (nível do mar), prevalecendo o processo de acumulação dos sedimentos. Os chapadões são áreas elevadas e de grande extensão, propícias à mecanização da agricultura.