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1.1 Primeiro Período: Delimitando Fronteiras

1.1.3 Brasil República

No Brasil, com a queda da monarquia, em 1889, instala-se um governo provisório que vai até 1891, quando se decretou, entre outras medidas, o regime republicano federalista, a transformação das antigas províncias em Estados da Federação e naturalização maciça de imigrantes residentes em solo nacional. Ainda como elemento de destaque deste período, aponta-se a medida governamental

conhecida como encilhamento, que se constituiu na autorização federal para que alguns centros – Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul - tivessem os seus bancos emissores de dinheiro a fim de cobrir pagamento de salários, sob a alegação que a máquina pública não tinha outro meio, a fim de suportar o regime de assalariamento que se instalara no país em virtude da supressão do trabalho escravo. Além disso, outro motivo alegado era a expansão do crédito para se abrir e fortalecer empresas, principalmente no mercado de ações. (KOSHIBA, PEREIRA, 1993). Tal política, além de provocar inflação, estimulou aberturas de empresas apenas com o objetivo de especulação na bolsa de valores, além de uma grande circulação de dinheiro desvalorizado. Não obstante, demonstra que a elite econômica e governamental, que acabava por se constituir num mesmo grupo, adotava meios originais para marcar a entrada do país no capitalismo.

Há que se notar, entretanto, que não obstante a formação de um espaço urbano mais complexo, a base de sustentação econômica brasileira continuava a ser a produção para o mercado externo, a grande propriedade e a monocultura. E, com a promulgação da Constituição em 1891, tais características se mantêm e se reforçam a despeito e em razão dos Estados Unidos do Brasil constituir-se de Estados e um Distrito Federal, organizados legalmente em base republicana, representativa, federativa e presidencialista.

Nesse sentido, a República, a despeito e em razão de alguns golpes e contragolpes em seus primeiro anos, mantém-se fortemente apoiada na aliança do exército com os grandes fazendeiros produtores de café, que mantiveram o poder sem maiores sobressaltos até 1930. Tal institucionalização do poder, conhecida como “política dos governadores” sustentava-se da seguinte forma: O presidente da república apoia, com todos os meios ao seu alcance, a oligarquia dominante em cada estado e essa coligação, governo central e oligarquia estadual, traduz-se em forma de votos para os políticos aliados no Congresso. E este sistema repete-se em nível de município.

Assim, em nome da autonomia e sustentabilidade política, a república viu-se dominada, por coronéis-fazendeiros que praticavam toda sorte de desmandos em suas regiões. E tais desmandos às vezes causavam choques de interesses entre a elite, o que acabava por arrastar um grande exército de pobres em brigas de coronéis que muitas vezes tinham como pretexto o aumento de terras.

Em Mato Grosso não foi diferente. Facções políticas, tendo a frente coronéis, que no norte do estado representavam principalmente os usineiros de açúcar e no sul coronéis representando principalmente pecuaristas e comerciantes ligados à exploração da erva-mate e ao capital financeiro internacional, compunham a elite econômica e política do estado que, em sintonia com o que se passava na capital da República, se revezavam no poder tendo como instrumento golpes e contra-golpes sangrentos. E nesta conjuntura, entre 1889 e 1930, Mato Grosso conheceu 34 governantes entre eleitos, golpistas e juntas governamentais nomeadas.

(SIQUEIRA, 1997). Este cenário se agudiza com a Constituição de 1891, que em seu artigo 64, indica que

Pertencem aos Estados as minas e terras devolutas situadas em seus territórios, cabendo a União somente a porção do território que for indispensável para a defesa de fronteiras, fortificações, construções militares e estradas federais.

Parágrafo único: Os próprios nacionais que não forem necessários para o serviço da União, passará ao domínio dos Estados, em cujo território estiverem situados [...]

Artigo 72 § 17. O direito de propriedade mantém-se em toda a sua plenitude. (BRASIL, 1891).

Ora, tais ingredientes, misturados a um alto contingente de miseráveis nas pessoas de índios, negros, brancos pobres e mestiços, serviam em todo território nacional a todo tipo de manobras políticas e legais, além de provocar reações populares que muitas vezes tinham como objetivo apenas ter um espaço para morar e produzir.

Foi assim que, para citar apenas alguns exemplos, apareceu a comunidade de Canudos, destruída pelo exército brasileiro em 1897, a Guerra do Contestado, entre 1912 e 1916, que também se dá tendo como pano de fundo a questão da terra e, o Cangaço, fenômeno típico do nordeste ocorrido entre 1870 e 1940, que também tinha a questão da terra e a miséria como elementos centrais.

E nesse processo de empoderamento do Estado e controle da terra e da renda por parte dos grandes proprietários de terras, principalmente cafeicultores paulistas, ocorria uma transição no mundo do trabalho que não tinha mais volta. O fim da escravidão controlada pela oligarquia rural propicia assim um novo conjunto de relações sociais e de produção que se dissemina pelo país ganhando configurações próprias conforme a região.

No Oeste Paulista, o trabalho assalariado urbano se entrelaça com o regime de colonato vivido no campo. Já no Vale do Paraíba, a parceria se destacava. No Nordeste, a troca de serviços, cambão, quarteação apareciam entre outras formas de serviço. Na região Norte, o sistema de “aviamento” era comum dado a características extrativistas. Já na região Sul, área onde já se estabelecia uma base formada de imigrantes, florescia uma agricultura de base familiar. (GONTIJO, 1998).

No Mato Grosso, por sua vez, muito embora fosse uma constante a exploração cruel do trabalhador praticada nos ramos mais dinâmicos da economia estadual, aonde havia uma engrenagem perversa que, via de regra, tornava o empregado num devedor para a empresa dado ao serviço de dívida que se alimentava a medida que se instituía um assalariamento por produção, mas que obrigava o trabalhador a contrair toda sorte de despesas com seus patrões que iam desde gastos com alimentação, passando por vestuário, instrumento de trabalho, moradia, remédios, entre outras coisas, também se tornou uma constante o fato deste mesmo trabalhador, muitas vezes, em seu tempo de folga, trabalhar em terras alheias através do sistema conhecido como “meia-praça”. Logo, ao produzir em terras que não eram suas, o que era produzido por este trabalhador era dividido ao meio com os proprietários. (SIQUEIRA, 1997).

No entanto, apesar e em razão do domínio que os grandes proprietários exerciam, ancorados principalmente na exportação da monocultura, concentrando poderes e riqueza,

a agricultura de subsistência disseminava-se por todo o país, exceto nas áreas altamente especializadas. [Muito embora] seus excedentes não [fossem] suficientes para caracterizar uma ‘agricultura de mercado interno’, a não ser em regiões restritas. (GONTIJO, 1988, p. 81).

Isto implica em dizer que no mesmo processo de acumulação de capital engendrado pela superexploração do trabalho livre, principalmente na grande lavoura de café, também se desenvolve, de forma tímida é verdade, uma diversificação produtiva regional, sendo que

A expansão dessa agricultura diversificada, tanto em termos setoriais quanto espaciais, constituir-se-ia no fundamento do desenvolvimento capitalista do Brasil, principalmente do desenvolvimento do seu processo de industrialização. Com efeito, a agricultura de cada uma das diferentes regiões brasileiras funcionou como um hinterland para alguns centros urbanos que se industrializaram contando com esta base. (GONTIJO, 1988, p. 81).

E quando eclode a 1ª. Guerra Mundial (1914-1917) e o mercado cafeeiro entra em crise, é a produção agrícola alimentar que dá o dinamismo à agricultura paulista.

É também no interior deste processo, que se por um lado a venda de café estava restrita, por outro lado, também restrita estava a entrada de produtos manufaturados importados, que ocorreu a busca por soluções nacionais para as demandas industriais internas. E é São Paulo que comanda o processo de fortalecimento da indústria brasileira, pois ao encolher-se diante do mercado externo, toda sua vitalidade se direciona para o mercado interno. Assim, a 1ª. Guerra Mundial, ao provocar uma restrição no mercado internacional como um todo, desencadeia um processo de fortalecimento da indústria brasileira, sendo que ao lado de São Paulo, também o Rio Grande do Sul se fortalece com indústrias no ramo da alimentação.

Mato Grosso também se beneficia desse cenário. Exceto a produção da borracha que entrara em decadência, dado a concorrência asiática, no início dos anos de 1910, outras atividades extrativistas continuavam com sua força no Estado, e continuariam assim até mais ou menos os anos de 1940, quando o governo central lançou uma série de medidas que enfraqueceu localmente o poder econômico e político destes setores. Além disso, principalmente o estado de São Paulo passou a demandar alimentos em larga escala, principalmente carne bovina oriunda basicamente do sul de Mato Grosso e sul de Goiás.

Tal necessidade garantiu que a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, chegasse ao Estado mato-grossense a partir de 1914, juntamente com outros incrementos infraestruturais como sistemas viários e de comunicação.

Há que se dizer também que, no bojo desse processo, o preço das terras matogrossenses, principalmente da parte sul, valorizou enormemente, o que deu início a um movimento especulativo em torno de grandes extensões, tornando-as reserva de valor. Exemplos como a da empresa Brazil Land Cattle Packing Company que adquiriu 1.000.000 de hectares em Corumbá, entre outros que conseguiam extensas concessões de terras via governo de Estado, proporcionaram que um estado com 1.477.041Km2 tivesse como problema a concessão de terra para quem nela trabalha e vive. E quando em 1910 se institucionaliza na República o Serviço de Proteção ao Índio, SPI, passando para a unidade federativa a

responsabilidade de demarcar terras e proteger as nações indígenas existentes em seu território, o que se viu foram extermínios, terras devassadas e vendidas a particulares. (SIQUEIRA, 1997).

Ao término da guerra, a oligarquia cafeeira continua a dominar a economia nacional, muito embora se assista no país a implantação de diversas empresas subsidiárias de matrizes estrangeiras, principalmente norte-americanas, o que não impede a formação de uma burguesia nacional, haja vista que

Os grandes lucros acumulados pela indústria paulista durante a Primeira Guerra e o aumento da capacidade de importar, decorrente da extraordinária recuperação das exportações de café entre 1918 e 1919, permitiram que se fizessem vultosas encomendas de máquinas e equipamentos industriais no imediato pós-guerra. (GONTIJO, 1988, p. 84).

Há que se fazer notar, entretanto, que no pós-guerra, principalmente nos países onde o capitalismo já se consolidara, tomou corpo um questionamento que colocava em dúvida a validade do liberalismo radical como norma de conduta para o mercado. Questionava-se seu caráter antropofágico, argumentando-se que a crise que se instalava era devido a falta de planificação da produção e distribuição.

Mesmo porque, a Revolução Russa (1917) propunha um novo modelo de condução da economia.

Nesse contexto, muito embora os inícios dos anos de 1920 tenham sido de prosperidade, principalmente nos Estados Unidos, o desemprego urbano aumentava e a produção rural não dava conta de alcançar os níveis anteriores, sem contar com uma forte especulação financeira que afetava as bolsas de valores. E foi assim que, em 1929, uma crise de superprodução incorporada a crise da bolsa de Nova Iorque, fez o sistema capitalista conhecer uma de suas mais agudas crises estruturais.

(ALENCAR, CAPRI, RIBEIRO, 1985).

Já no Brasil, o governo, desde o início dos anos de 1920, continuava a sua política de valorização do café, o que afetava toda a vida nacional, pois aumentava sobremaneira o custo de vida e o índice inflacionário, afetando também a indústria brasileira que, dado ao seu caráter voltado a produção de bens de consumo, subordinava-se aos resultados obtidos pelo setor agro-exportador. Porém, esta política começava a gerar questionamentos: Greves operárias tornam-se frequentes, motivadas, sobretudo, pelas condições precárias de trabalho; Jovens oficiais do Exército passam cada vez mais e de forma mais contundente a expressar seus

descontentamentos com a prática política da oligarquia cafeeira; a chamada classe média, por sua vez, também aumenta o tom de suas reivindicações, principalmente no tocante a sua exclusão da vida política nacional.

Contudo, tais movimentos não sensibilizavam o poder oligárquico, haja vista que o diálogo só existia entre seus pares. E em razão de uma dissidência entre oligarcas, capitaneada pelos chefes políticos do Rio Grande do Sul, que canalizando as forças dos setores descontentes, pretextando uma não concordância aos resultados eleitorais, que foram construídos pelo então presidente Washington Luiz, que forças opositoras, destituem o governo em 1930, colocando no poder uma junta provisória que logo é substituída por Getúlio Vargas, que muito embora também represente a força da oligarquia, assume o poder como presidente revolucionário e provisório. (ALENCAR, CAPRI, RIBEIRO, 1985). Assim,

A Revolução de 1930 põe fim à hegemonia da burguesia do café, desenlace inscrito na própria forma de inserção do Brasil no sistema capitalista internacional. Sem ser um produto mecânico da dependência externa, o episódio revolucionário expressa a necessidade de reajustar a estrutura do país, cujo funcionamento, voltado essencialmente para um único gênero de exportação, se torna cada vez mais precário. (FAUSTO, 1979, p. 112).

Porém, tais argumentos não invalidam o fato que este episódio, não questiona, pelo contrário, mantém as relações sociais, tanto rurais quanto urbanas, muito embora altere a forma de tratamento. Mesmo porque, se por um lado o setor agrário cafeicultor perde parcela de seu poder, por outro lado, este mesmo setor, numa política de alianças, não chega a sofrer uma derrota decisiva. Ou seja, no conjunto o que há é uma forma alterada de tratamento do aparelho do Estado para com a população, expressada tanto em relações populistas, quanto policialesca, de acordo com as conveniências, e um deslocamento dos donos do poder que se associam a uma nova forma de Estado, o que acaba por possibilitar, num marco de compromisso com as forças hegemônicas nacionais, um desenvolvimento industrial nacional. Desenvolvimento este ancorado nas Forças Armadas, que por sua vez possibilita que este mesmo Estado ganhe cada vez mais autonomia em relação ao conjunto da sociedade. (FAUSTO, 1979).

O Estado se redefine, amplia suas dimensões, e agora como mediador das classes sociais, passa a operar “[...] na formação do sistema, segundo as determinações gerais do sistema e, em particular, da classe dominante, ou suas facções dominantes” (IANNI, 2004, p. 129). Isso implica em dizer que “colocavam-se

em outros termos as tensões e os conflitos entre a civilização agrária, voltada para fora e em crises sucessivas, e a civilização urbana industrial nascente.” (IANNI, 2004, p. 129).

Logo, há tanto uma ruptura como uma recomposição com a cultura agrário-exportadora, e o capitalismo industrial brasileiro se dá, mesmo que muitas vezes em lentas reordenações, mantendo uma relação estreita com este segmento.

“Reintegra-se a economia nacional, mantendo sua diversidade e vinculações com o sistema externo.” (IANNI, 2004, p. 132).

Também se voltando para este período, Fernandes (1979, p. 107) indica que, no Brasil, o modo de produção capitalista, em todos os seus circuitos, se constitui numa manifestação tardia, marcada por uma

[...] satelização permanente e de espoliação sistemática da economia agrária, [sendo que] Os estratos possuidores rurais não se ressentem dessa situação porque eles extraem de ambos os processos o privilegiamento relativo de sua própria condição econômica, sociocultural e política. O mesmo não sucede com as massas despossuídas rurais, que se vêem compelidas ao pauperismo e condenadas à marginalização. (FERNANDES, 1979, p. 107).

Em 1932, a oligarquia paulista tenta retomar o poder exclusivo do Estado, porém é derrotada. E em 1937, numa guinada a direita, Getúlio dá um novo golpe e instaura o Estado Novo, agora descompromissado com uma divisão de poder. Tal episódio é marcante, pois, tendo como pano de fundo referências como nação e povo, que tinham um caráter abstrato, “[...] esse foi o momento em que, através da ditadura, se procurou suprimir os localismos e viabilizar um projeto realmente nacional.” (KOSHIBA, PEREIRA, 1993, p. 311).

Instalou-se um aparelho burocrático racionalizador da administração publica, instituiu-se um sistema de propaganda e de controle das informações propagadas em solo nacional, incrementou-se o aparato repressivo e se controlou sindicatos e organizações populares. Construiu-se também um processo de nacionalização da economia a partir de estatização de setores estratégicos, o que alavancou a industrialização nacional. O Estado tornou-se uma figura concreta, referência da vida nacional.

E assim, o Estado numa prática política que aglutinava tanto objetivos de consolidação e integração nacional quanto de urbanização e industrialização do país, atribui a Mato Grosso o papel de fronteira agrícola produtora de alimentos.

Nesse sentido, num primeiro momento, foi enviado para Mato Grosso, e também para outros estados, interventores que pudessem diminuir a força política dos coronéis regionais. Em seguida, quebrando a força econômica dos usineiros, que em terras mato-grossenses baseavam-se mais nas regiões central e norte, o poder central criou, em 1933, o Instituto do Açúcar e Álcool, IAA, que estabelecia metas anuais de produção que Mato Grosso não conseguia cumprir, o que o deixava de fora dos benefícios estatais. Não obstante, também se passou a exigir cumprimentos de normas trabalhistas. E em alguns casos a força policial se fez presente, invadindo e intervindo no interior das usinas. O resultado foi uma quebradeira generalizada. (SIQUEIRA, COSTA, CARVALHO, 1990).

Na política ainda de enfraquecimento das oligarquias mato-grossenses, Getúlio Vargas fomenta a industrialização da erva-mate nos estados de Santa Catarina e Paraná a partir do extrativismo praticado por pequenos proprietários.

Paralelo a isto, diminuiu o crédito bancário para monopolistas do setor e criou, em 1938, o Instituto Nacional do Mate, INM, a fim de desenvolver a produção dos pequenos agricultores dos estados do Sul.

Dessa forma, o grande monopólio praticado pela empresa Laranjeira, Mendes

& Cia, na região sul do Mato Grosso, que passara a sofrer também uma concorrência argentina, não resistindo à pressão, acabou por entregar as terras arrendadas, propiciando sua ocupação, em sua maioria, por migrantes gaúchos. Já a indústria da borracha, que sofrera com a concorrência asiática, volta a ter um dinamismo entre 1939 a 1945, período da 2ª. Guerra Mundial, haja vista que no país havia dificuldades em importar e exportar produtos manufaturados. Enquanto política pública, foi instalado o Banco do Crédito da Borracha, que comprava e vendia a mercadoria, basicamente para as indústrias nacionais situadas na região centro-sul.

Entretanto, com o fim da guerra, novamente a concorrência asiática ofusca a importância do produto nacional. (SIQUEIRA, COSTA, CARVALHO, 1990).

Restara a Mato Grosso, enquanto base de sustentação econômica, a pecuária e a extração da poaia, que passara a ser consumida pelo mercado interno nacional. Contudo é a pecuária que marca neste contexto. Utilizando-se de grandes extensões de terras, terá sua produção carreada para a região centro-sul, circuito esse que não raro pertencia a um mesmo grupo econômico. E também em nome do gado comprou-se imensos latifúndios que na realidade serviam apenas como moeda

de especulação para donos que, muitas vezes, nem conheciam o Estado, deixando a terra abandonada, propiciando que muitas vezes fossem ocupadas por posseiros que apenas queriam um pedaço de terra para trabalhar. Esta ocupação, entretanto, era questionada em momentos de transação imobiliária gerando violência, pois os supostos donos, não raras vezes, contratavam os chamados grileiros para expulsar o lavrador e sua família, geralmente com requinte de violência.

A partir deste quadro e em prosseguimento a uma política de ordenação nacional, o governo de Getúlio Vargas, entre outras medidas de impacto geral, inicia um projeto de colonização denominado “Marcha para o Oeste”.

Este projeto, que assinalava para um novo modelo de ocupação para o Mato Grosso, passa a ser construído tendo como discurso justificativo “[...] ocupar o

‘grande vazio demográfico’ e unificar política e economicamente o território nacional.” (CASTRILLON FERNÁNDEZ, 2007, p. 146). Discurso esse construído a despeito do Estado abrigar, até os anos de 1950, aproximadamente cinquenta povos indígenas espalhados por todo o território. (CASTRILLON FERNÁNDEZ, 2007).

Sem divergir deste raciocínio, Galindo e Silva (1995, p. 158) afirmam que desde o fim do século XVII, todo o Centro Oeste, bem como a região Norte, são vistos como “vazios nacionais” e que se pode considerar que é a partir da década de 1940 que o Estado passa de fato a intervir decisivamente no processo de ocupação da região, pois a industrialização, via substituição de importações, exigia uma produção excedente de alimentos a custos razoáveis ao mesmo tempo que “[...]

através de exportações de produtos agropecuários necessitava captar divisas para

através de exportações de produtos agropecuários necessitava captar divisas para