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4.4 “BRASIL TEM MILHÕES DE ANALFABETOS COM MAIS DE 40 ANOS”

No documento laralinhalisguimaraes (páginas 139-146)

A quarta reportagem por nós analisada foi apresentada na edição do JN do dia 26/09/08 (sexta-feira), esteve alocada no primeiro bloco do telejornal e tem como temática a existência de muitos brasileiros analfabetos com mais de 40 anos, de maneira que enquadramos a matéria na editoria “Cotidiano”. A categoria “estrutura genérica” nos possibilitou vislumbrar a organização da narrativa próxima a que estamos chamando aqui nessa dissertação de “dramaturgia do telejornal”. O conflito acionado na reportagem remete à dicotomia vontade de aprender versus dificuldades em estudar, o que explicaria o alto índice de analfabetismo entre adultos, uma das “preocupações despertadas” pelos “novos números da educação”, que “o Brasil” conheceu “nesta semana”, segundo expressões do âncora William Bonner, em cabeça da reportagem. A referência é à divulgação da pesquisa do IBGE, que alimentou as duas matérias anteriores que fizeram parte de nossa análise, embora não seja retomada a fonte das informações nessa reportagem. Os personagens se movimentam na narrativa de forma a ilustrar a dicotomia citada inicialmente. Também para proferir uma possível solução do conflito, que seria a alfabetização de todos.

A narrativa inicia-se apresentando uma mulher, com um caderno nas mãos, tentando soletrar o nome, empenhada na tarefa. Sem sucesso na empreitada, quem explica a situação da dona-de-casa Elina de Paiva é a repórter Mônica Teixeira, em Off: “Na infância, ela trocou a escola pelo trabalho na roça, mas na cidade descobriu como é difícil viver sem as letras”. Está apresentado o conflito, comum a tantos milhões de brasileiros, analfabetos: a vontade de estudar versus a batalha que isso implica. A repórter, em seguida, nos apresenta os números que funcionam como atestado de uma problemática social: o analfabetismo em pessoas com mais de 40 anos. Vai dizer depois, na sua passagem, que são poucos os adultos em cursos de alfabetização, informação reforçada por arte que apresenta a porcentagem de adultos que tem acesso a esse tipo de ensino.

A repórter está na sala de uma casa, de pé, um pouco à frente de uma mulher que tenta escrever em um caderno. Essa mulher, a dona de casa Vera Lúcia Coelho vai dizer em sonora que, apesar da vontade de aprender, a escola mais próxima fica longe dos olhos. Mas desistir não faz parte do horizonte de Vera. Para outros “brasileiros”, a vontade de aprender é ofuscada pela necessidade de trabalhar. Celso, aluno de uma curso de alfabetização, explica em sonora: “Eu tive sempre que trabalhar, não tinha como me manter e tinha que enfrentar o dia-a-dia”. Na sonora subseqüente, a professora Sandra Maria Guimarães, vai reforçar as dificuldades que os adultos enfrentam para aprender a ler e escrever. No cenário que compõe o Off seguinte está a educadora da UERJ Denise Cordeiro, que está sentada tendo ao fundo uma parede de tijolos com arco de passagem. Ela defende em sua sonora que a escola precisa se adaptar a estes alunos. Quem dá a palavra final em sonora é a Dona Edir, líder comunitária, que quer construir na própria casa um curso de alfabetização para atender a comunidade: “As pessoas precisam ser alfabetizadas, porque através da alfabetização elas ficam libertas”. Antes da sonora de Dona Edir, cobrindo o Off da repórter, a imagem de um cartaz chama atenção. Está escrito: “Nós contamos a nossa história e gostaríamos de conhecer a sua história”. A lição de moral, garantida pela fala de Denise Cordeiro e o exemplo de Dona Edir, recebe aprovação de Fátima Bernardes. De volta para o estúdio do JN, Bernardes deixa transparecer expressão de satisfação, como se a ela coubesse o aval final do episódio.

Tendo como referência a categoria “interdiscursividade”, pudemos perceber que o discurso em prol da alfabetização é garantido pela alocação das vozes dos personagens na narrativa. Sem alfabetização, não há como viver nas cidades, como garantiu a repórter ao utilizar o exemplo de Elina, que rumou do meio rural para o urbano e se viu em meio a problemas por não saber ler nem escrever. As representações dos brasileiros como vítimas (do conflito vontade de estudar x dificuldades), como resignados (a personagem Vera que garante estar na escola assim que houver uma por perto, além de Celso, que parou de estudar cinco

vezes mas ainda persiste) e solidários (a exemplo de Dona Edir, que quer abrir um curso de alfabetização na própria casa) são garantidas no composé narrativo.

No que se refere à categoria “intertextualidade”, os dados alocados em tabela (Apêndice D) nos mostram que as vozes apresentadas em discurso direto são da dona-de-casa Elina de Paiva, da dona-de-casa Vera Lúcia Coelho, de Celso, da professora Sandra Maria Guimarães, da educadora da Uerj Denise Cordeiro e da líder comunitária Edir Teixeira. Em discurso indireto, está o Brasil, feito sujeito; Elina; os brasileiros; a educadora da Uerj e Dona Edir. A primeira personagem, Elina de Paiva, vai justificar em sonora o fato de ser muito difícil viver sem as letras na cidade. Na voz de Elina, em discurso direto: “Para onde você for, tem que ter alguém contigo, igual cego”. Idéia inaugurada pela repórter em Off de apresentação da personagem, quando Elina é apresentada em discurso indireto: “Na infância, ela trocou a escola pelo trabalho na roça, mas na cidade descobriu como é difícil viver sem as letras.” O cenário em que Elina faz ecoar sua voz é a sala de sua casa. Também é nesse cenário que ela tenta soletrar o próprio nome, ação inaugural da reportagem. A voz da personagem é ilustrativa das dificuldades pelas quais passam aqueles que não são alfabetizados. Em seguida, na passagem, a repórter vai inaugurar outro personagem, representado em discurso indireto: o coletivo “brasileiros”, citado na vontade de ser alfabetizado, mas que enfrenta grandes desafios para chegar até a sala de aula. A repórter está na sala da casa de Vera Lúcia Coelho, que vai explicitar, em discurso direto, a vontade de aprender, mesmo com as dificuldades no desempenho da tarefa: “Falta uma escola aqui perto. A hora que tiver escola aqui perto, creio que não vou sair da escola, vou aprender mesmo”. A voz da personagem serve como exemplo daqueles brasileiros citados pela repórter, que nutrem o desejo de serem alfabetizados.

Também a voz do próximo personagem, apresentada em discurso direto, é ilustrativa dessa situação e justificadora de fato de muitos brasileiros, com mais de 40 anos,

não poderem freqüentar a escola. Celso vai dizer, em sonora: “Eu tive sempre que trabalhar, não tinha como me manter e tinha que enfrentar o dia-a-dia”. A voz da professora de Celso, Sandra Maria Guimarães, apresentada em discurso direto, vai complementar e legitimar a fala do aluno: “As dificuldades geralmente são as mesmas: trabalhar o dia todo, falta de tempo, cansaço e vontade de aprender”. Em seguida, a repórter apresenta, em discurso indireto, a educadora da Uerj Denise Cordeiro, a voz especialista na reportagem, que irá sugerir a solução para a problemática revelada pelos “novos números da educação”, tal como está na cabeça da reportagem que os tornou conhecidos ao “Brasil”, feito sujeito em discurso indireto também na cabeça da matéria. A especialista vai dizer que “a linguagem da escola precisa se modificar para atender a esse público” e vai exemplificar as funcionalidades do aprendizado: “Eu preciso ler para poder escrever um bilhete, eu preciso ler que eu quero ter acesso à bíblia”. O cenário da sonora, a forma como a personagem coloca sua voz e expande em gestos, também o modo como a câmera enquadra a personagem (de baixo para cima), confere credibilidade ao posto de “especialista”, aquele que está além do saber comum, em cenário estranho ao cidadão comum, também soberano em suas colocações.

A personagem que finaliza a matéria é apresentada em discurso indireto pela repórter, e, depois, em discurso direto, quando da sua sonora, tendo como cenário a sala de uma casa simples, cheia de livros em estantes, o que possibilita identificação pela familiaridade do cenário e projeta os brasileiros a uma realidade em que todos estarão alfabetizados. Isso em muito pelas “próprias mãos”, como nos indica a sonora da líder comunitária Edir Teixeira, que quer abrir um curso de alfabetização na própria casa porque acredita na alfabetização como meio de libertação para as pessoas; isto funciona como lição de moral da matéria.

A categoria “representação de atores sociais”, com base nos dados dispostos em tabela (Apêndice E), nos fez observar que cinco personagens são nomeados em créditos na

matéria, de acordo com a função/trabalho que executam: a “dona de casa” Elina de Paiva, a

“dona de casa” Vera Lúcia Coelho, a “professora” Sandra Maria Guimarães, a “educadora da Uerj” Denise Cordeiro e a “líder comunitária” Edir Teixeira. Cada um desses

personagens aparece também é nomeado em Off pela repórter: “Elina” (que tem dificuldades para soletrar o nome); “Vera” (que está distante do sonho de ser alfabetizada); “Professora” (em referência à Sandra Maria Guimarães, que tem o desafio de manter os alunos na sala de aula); “Educadora” (em referência à Denise Cordeiro, que acredita na necessidade de a escola se adaptar aos alunos e suas necessidades) e “Dona Edir” (que quer construir em sua casa um curso de alfabetização). Outro personagem aparece ainda nomeado em Off: “Celso”, que interrompeu o estudo cinco vezes.

A utilização da nomeação segundo o primeiro nome, em alguns personagens, e ainda, a utilização do tratamento “Dona”, no caso da última personagem, indica a criação da busca por um vínculo familiar com o telespectador. Mais distante do familiar, a nomeação

“educadora Uerj” confere certo status, legitimidade e soberania à fala de Denise Cordeiro.

Os personagens são ainda nomeados através de agregações e coletivizações. No caso dessa segunda categoria, temos o sujeito “Brasil” (que conheceu os novos números da educação),

“Brasileiros” e “Analfabetos” (que são minoria nos cursos de alfabetização). Esses sujeitos

coletivos, estão ainda agregados nas estatísticas “14 milhões de analfabetos” e “11 milhões de pessoas”, aquelas que, dentro os analfabetos, tem mais de quarenta anos. Estatística que legitima a problemática desenvolvida na narrativa.

No que se refere aos interesses investigativos da categoria “avaliação”, encontramos uma presunção valorativa no seguinte Off da repórter: “Para esta turma de Copacabana, a sala de aula estava próxima. Mesmo assim, Celso interrompeu os estudos cinco vezes”. A ênfase da voz da repórter na expressão “cinco vezes”, antecedida pela expressão “mesmo assim”, nos faz entender o posicionamento da repórter sobre a questão,

avaliando a postura de Celso como não desejável. Também, quando a repórter nos apresenta a personagem Dona Edir, encontramos a presunção de que é desejável nos unirmos em prol do bem coletivo, em ações de voluntariado: “Dona Edir quer construir, na própria casa, o curso de alfabetização que não existe na comunidade. E ela mesma faz questão de ensinar”. Uma avaliação positiva da emissora sobre a postura de Dona Edir é explicitada pela expressão final de Fátima Bernardes, quando ao fim da matéria se volta ao estúdio.

4.5 “BRASILEIROS NÃO ESTÃO CONSEGUINDO

No documento laralinhalisguimaraes (páginas 139-146)