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3. A AUTONOMIA INDIVIDUAL EM SITUAÇÕES DE TERMINALIDADE E ABREVIAMENTO DE VIDA.

3.1 BREVE ANÁLISE DO CONCEITO DE TERMINALIDADE

Antes de adentrar no mérito relativo ao respeito à autonomia individual nas situações de terminalidade de vida, de ocorrência de doença grave irreversível e de estado vegetativo persistente, é necessário, ainda que de forma breve, analisar o conceito de terminalidade.

Conceituar terminalidade não é tarefa fácil, inexistindo uma fórmula objetiva, precisa e universal do que corresponda uma doença terminal. Numa definição mais simplória, terminalidade resume-se à doença crônica para a qual a medicina não oferece nenhuma chance de cura92. Maria Elisa Villas-Bôas

afirma que o paciente terminal é aquele que “encontrando-se já em fase tal de sua patologia, evoluirá inexoravelmente para o óbito, sem que haja nenhum recurso médico capaz de evitar esse desfecho e ‘independentemente dos

esforços empregados’”93.

Na tentativa de elucidar o tema, Laura Scalldaferri Pessoa aduz que “paciente terminal é aquele que se aproxima do fim, para o qual já foram atingidos os limites dos processos curativos, não havendo nenhuma esperança de salvá-lo. Vale dizer que o processo de morte está instalado e é inevitável”94.

A definição adotada pelo American College of Physicians, considera como paciente terminal aquele que se encontra em situação irreversível, apresentando alta probabilidade de morrer num prazo curto de tempo, entre três e seis meses.95

A Sociedade Espanhola de Cuidados Paliativos (SECPAL) utiliza cinco critérios para indicar a situação de “enfermedad terminal”. São eles:

1. Presença de doença grave, progressiva e incurável;

2. Falta de possibilidades razoáveis de resposta a tratamento específico;

3. Presença de numerosos problemas ou sintomas intensos, múltiplos, multifatoriais e variáveis;

4. Grande impacto emocional no paciente, família e equipe terapêutica, fortemente relacionado com a presença explícita ou não da morte;

92 GARCIA, Iberê Anselmo. Aspectos médicos e jurídicos da eutanásia. In: FRANCO, Alberto

Silva; NUCCI, Guilherme de Souza (Orgs). Doutrinas essenciais: direito penal. Volume V. São Paulo: Revistas dos Tribunais, 2011, p. 464.

93VILLAS-BÔAS, Maria Elisa. op. cit., p. 36-37. 94PESSOA, Laura Scalldaferri. op. cit., p.40. 95VILLAS-BÔAS, Maria Elisa. op. cit. p. 37.

5. Prognóstico de vida inferior a seis meses96.

Nessa mesma linha, Gisele Mendes de Carvalho, elenca algumas características que ajudam a identificar a ocorrência de doença terminal: a) presença de enfermidade avançada e incurável pelos meios técnicos existentes; impossibilidade de resposta a tratamentos específicos; c) presença de sintomas múltiplos, multifatoriais, e cambiantes que condicionam a instabilidade evolutiva do paciente; d) impacto emocional (devido à iminência da morte) no paciente, família e equipe terapêutica; e) prognóstico de vida breve (inferior a seis meses).97

Fala-se em terminalidade de vida, desta forma, quando a cura da doença já não for mais possível, quando os recursos tecnológicos a disposição da medicina, os medicamentos e tratamentos já não forem adequados e suficientes para reverter a situação que se apresenta. A morte passa a ser evento certo e infalível, que ocorrerá em curto espaço de tempo.

Não se pode confundir, contudo, a doença terminal com a doença irreversível. A doença terminal se baseia em dois pontos: a irreversibilidade e a ocorrência da morte no prazo de 3 (três) a 6 (seis) meses. Já a doença irreversível, embora insuscetível de cura, não necessariamente é terminal, podendo ocorrer em prazo muito superir àquele mencionado para doença terminal.98

Neste diapasão, resta evidente que toda doença terminal é irreversível, mas nem toda doença irreversível é terminal. Assim, apenas a título exemplificativo pode-se citar a situação do tetraplégico, cuja condição de paralisia é irreversível, mas não enseja a ocorrência da morte em um curto espaço de tempo, não sendo, deste modo, terminal.

Além disso, também não se pode confundir o paciente terminal com o paciente sem prognóstico ou com o prognóstico ruim, pois nesta circunstância

96 Tradução livre do original: “Presencia de una enfermedad avanzada, progresiva, incurable; 2. Falta de posibilidades razonables de respuesta al tratamiento específico; 3. Presencia de numerosos problemas o síntomas intensos, múltiples, multifactoriales y cambiantes; 4. Gran impacto emocional en paciente, familia y equipo terapéutico, muy relacionado con la presencia, explícita o no, de la muerte; 5. Pronóstico de vida inferior a 6 meses”. Disponível em:

<http://www.secpal.com/guiacp/index.php?acc=dos>. Acesso em: 20 jan. 2015.

97CARVALHO, Gisele Mendes de. Aspectos Jurídicos-Penais da Eutanásia. São Paulo:

IBCCRIM. 2001, p.125

o agente, embora portador de uma patologia sem perspectiva de cura ou cujo prognóstico seja negativo, não se encontra em situação de morte próxima. Nesses casos, o agente possui uma doença crônica99, mas que é possível de

ser controlada, tornando possível a convivência com as limitações por anos. É o caso, por exemplo, do Alzheimer e a Esclerose lateral amiotrófica (ELA).100

São os pacientes sem prognóstico ou com prognóstico ruim que mais suscitam polêmica nas discussões sobre eutanásia. Esses pacientes, sabendo das consequências que a sua doença gera, podem não desejar mais viver, evitando, com isso, o sofrimento que a enfermidade causará. A eutanásia e suas implicações, principalmente no Brasil, serão analisadas em tópico próprio.

Confirmada o estágio da doença e classificando-a como terminal, três condutas se tornam possíveis para resolver a situação: a) prolongar a vida do paciente por meio de drogas e aparelhos, mesmo isso prolongando também o sofrimento (distanásia); b) antecipar o fim, interrompendo a vida do paciente (eutanásia); c) promover cuidados paliativos para aliviar o sofrimento do paciente, sem tentar preservar a vida para além do tempo natural (ortotanásia).101 As três situações serão analisas a seguir, podendo-se

antecipar que a terceira é a que melhor se coaduna com a dignidade humana. Por fim, conclui-se que só é possível falar em terminalidade de vida quando se estiver diante de uma doença irreversível, que acarretará a morte do paciente no prazo curto de três a seis meses. Outras doenças graves, ainda que irreversíveis, não poderão ser taxadas de terminais se ausentes esse requisito temporal para a ocorrência da morte.