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BREVE ANÁLISE SOBRE O PROJETO DE LEI 4.608 DE 2012

No documento Atividade policial (páginas 62-66)

3 NORMAS E PRINCÍPIOS LIMITADORES DA ATIVIDADE POLICIAL

4.3 BREVE ANÁLISE SOBRE O PROJETO DE LEI 4.608 DE 2012

Diante da ausência legislativa e com a soma das constantes denúncias de abuso de poder policial, principalmente veiculadas pela imprensa, surgiu a ideia de estabelecer limites a atuação policial através de lei federal, para dar resposta à sociedade.

Segundo o criador do projeto de lei 4.608 de 2012, o Deputado Federal Edson Pimenta, os maiores registros de abuso de autoridade e constrangimentos desnecessários por parte dos órgãos policiais ocorre no momento da abordagem policial. Portanto torna-se preciso criar mecanismos mais rigorosos para proceder na abordagem (PIMENTA, 2012).

O projeto enfatiza o aprimoramento das técnicas de mediação, conciliação e resolução pacífica de conflitos pelas instituições policiais, inserindo-os como princípios da atividade policial, em seu art. 7º, inciso III:

Art. 7º São princípios fundamentais da abordagem policial: [...].

III – a mediação, a conciliação e a resolução pacífica de conflitos; [...](BRASIL, Projeto de Lei 4.608, 2012).

Para estipular controle sobre as abordagens policiais estão previstos diversos procedimentos a serem adotados pelas instituições policiais, como por exemplo o registro de toda a diligência, destacando principalmente os motivos ensejadores da intervenção policial e os resultados obtidos:

Art. 9º Toda abordagem policial deverá ser registrada, salvo impossibilidade justificada, contendo, no mínimo, as seguintes informações:

I – Data, horário, local, sinalização da via, condições da via e do tempo;

II – a identificação completa das pessoas abordadas, sua condições físicas, as atitudes e o estado de ânimo;

IV – a narrativa sucinta do fato colhida ou presenciada pelo policial, se o fato constituir infração penal, administrativa ou ato infracional;

V – a classificação do fato, se este constitui infração penal ou administrativa; VI – a descrição detalhada dos objetos apreendidos, e;

VII – o croqui com as informações necessárias à realização de exame pericial indireto, nas infrações que deixam vestígio, se o exame não puder ser feito no local; VIII – o croqui com as informações necessárias ao registro de acidentes automobilísticos sem vítima;(BRASIL, Projeto de Lei 4.608, 2012, grifo nosso).

Como nota-se, o legislador pretende dar maior seriedade e controle a este ato policial que acontece rotineiramente, registrando-o para os destinos elencados no parágrafo único do art. 9º:

Parágrafo único. O registro desses dados será utilizado para:

§1º Orientar a confecção do planejamento operacional do policiamento ostensivo preventivo;

§2º Garantir a transparência e o acesso à informação previsto em Lei;

§3º Estabelecer o compartilhamento com os sistemas federais e estaduais de informações de Segurança Pública, previstos em Lei;

4§º Acompanhar o inquérito policial, termo circunstanciado, a ação penal ou o processo penal, sempre que o registro do policial der origem a qualquer um deles (BRASIL, Projeto de Lei I 4.608, 2012).

A inovação que o projeto de lei em tese pretende trazer para atividade policial está descrito no art. 4, que mostra quais são as situações em que se poderá proceder na abordagem policial:

Art. 4º A abordagem policial será realizada:

I – em situações de pontos de bloqueio ou de controle de trânsito, por amostragem ou de forma seletiva, conforme a finalidade da operação;

II – em situações de policiamento, tendo por objeto pessoa ou grupo das quais emanam indícios de estarem em atitude suspeita;

III – em qualquer situação em que se vislumbrem indícios de a pessoa ou grupo terem acabado de cometer, estar cometendo ou na iminência de cometer infração penal ou ato infracional; ou

IV – quando as características da pessoa a ser abordada tiver verossimilhança com as de quem estiver sendo procurada (BRASIL, Projeto de Lei 4.608, 2012).

Nesse mesmo artigo, no parágrafo único, o legislador nos mostra um conceito sobre o que seria uma atitude suspeita merecedora de atenção, separando-a em caráter objetivo e subjetivo, sendo que na junção de ambos é que caracteriza a fundada suspeita:

Parágrafo único. Considera-se em atitude suspeita a pessoa ou grupo que esteja em situação que fuja à normalidade, seja de caráter objetivo, como em relação ao horário, ao ambiente, às condições climáticas, à indumentária e às pessoas com as quais interage, seja de caráter subjetivo, como o comportamento simulado, dissimulado, exaltado, excitado ou por outra forma, emocionalmente instável, que demonstre ameaça ou risco envolvendo a própria pessoa, terceiro, o patrimônio, a incolumidade pública ou o regular desenvolvimento da atividade lícita (BRASIL, Projeto de Lei 4.608, 2012).

As expressões contidas no referido parágrafo como “situação que fuja à normalidade” e “outra forma, emocionalmente instável” deixam margem para interpretações, pois não se trata de um conceito concreto, definido.

Acreditamos que tais expressões possuem esta possibilidade interpretativa justamente pelo fato de ser impossível elencar as condutas humanas que possam despertar o interesse policial em averiguar e, se possível, abordar o indivíduo que é o foco da atenção, pois, a polícia precisa de margem discricionária (dentro dos limites legais), principalmente nas atividades preventivas para poder atuar.

Por dar a abordagem policial conotação burocrática, o projeto de lei pode proporcionar a diminuição de abordagens policias realizadas diariamente, causando óbice ao poder discricionário do agente policial. Outra consequência é que pode ocorrer o aumento de pessoas infratoras portarem materiais ilícitos, como armas e drogas.

Mas, o projeto de lei 4.608 de 2012 se mostra muito útil ao ordenamento jurídico e a atuação das polícias, e atende ao seu objetivo, que é proporcionar maior controle sobre a atuação policial, como registrando os atos decorrentes de uma abordagem, haja vista que é notório o número de denúncias de abuso de autoridade.

A grande maioria dos policiais age dentro dos limites legais, respeitando os direitos dos cidadãos e fazendo estritamente o que a Carta Magna estabelece, que é a segurança pública.

O que ocorre é, infelizmente, uma minoria que integra os quadros das instituições policiais, cientes do poder que possuem, devido ao exercício da função, cometem os abusos e excessos que mancham toda a instituição.

Assim, o assunto sobre a abordagem policial sempre vem à tona quando decorre de uma intervenção negativa, principalmente quando veiculado pela mídia, que possui a capacidade opinativa muito grande.

Em nossa Constituição Federal de 1988, no art. 144, está disposta a previsão da segurança pública como dever do Estado, direito e responsabilidade de todos. Portanto, nos mostra que nesse assunto, toda a sociedade deve caminhar junto aos órgãos policiais para que efetivamente se proporcione segurança pública e o bem estar de todos.

Cabe ressaltar que o projeto de lei 4.608 de 2012, no § 4º, do art. 8º, prevê a autorização para a União, os Estados e o Distrito Federal possam firmar convênio com instituições de nível superior ou outras entidades interessadas para que colaborem com

estudos, pesquisas a fim de diminuir e prevenir a criminalidade. Essa previsão é um grande passo para o auxílio no aprimoramento das instituições policiais e um exemplo de parceria que se pode estabelecer entre as Polícias e a sociedade.

No documento Atividade policial (páginas 62-66)

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