Uma das características do Facebook é diminuir os custos para a manutenção de laços sociais, inclusive daqueles que se perderiam no tempo e no espaço (ELLISSON et al., 2011). A plataforma permite a recuperação de contatos do passado e transpassa barreiras geográficas, facilitando a busca direta por nome ou o acesso a grupos e páginas que reúnem a comunidade de uma escola, de uma empresa ou de uma cidade. E vai além quando transforma esses contatos em conexões permanentes, sem limites quantitativos, viabilizando sua retomada e aprofundamento com apenas um click, quando se curte a atualização de status de alguém, por exemplo.
Ao discutir o que define uma identidade, Serres (1997) a relaciona com uma intersecção de vários
pertencimentos que se alteram com o passar do tempo. E é justamente por permitir a condensação em rede de diferentes vínculos e afinidades coletados por toda uma vida que o Facebook cria um percalço para a performance identitária de seus atores. Para fins de análise de como isso impacta no éthos discursivo, discutiremos os desdobramentos dessa problemática a partir das considerações de diferentes autores e seus estudos.
Goffman (2001) sugere que os atores priorizem uma plateia delimitada e homogênea, para a qual possam apresentar uma fachada precisa e uma atuação contextualizada, coerente com sua intencionalidade. Por conta disso, propõe um gerenciamento de faces, uma vez que seria impossível performar da mesma forma para todos os tipos de pessoas com que se interage em diferentes situações sociais. Reunindo em uma mesma rede amigos oriundos de universos diversos (família, escola, trabalho, jovens, adultos, idosos, chefes, colegas, empregados), o ator pode perder o controle de para quem está se apresentando no Facebook. Essa dificuldade não diz respeito apenas ao gerenciamento de quem já faz parte de sua rede social, mas permeia a decisão sobre quem será incluído e excluído dela.
Ellisson et al. (2001), em pesquisa com jovens estudantes, identificam, por exemplo, que os entrevistados preferem conectar-se com pessoas que já têm algum tipo de relacionamento offline. Entretanto, dentre elas, experimentam desconforto ao se sentirem coagidos a incluir em suas redes sociais parentes e professores. De acordo com eles, os riscos de tê-los como amigos seriam maiores que os ganhos gerados pela conexão. Primeiro, propomos, porque estes dois grupos podem se sentir íntimos o suficiente ou mesmo no direito de criticar suas performances publicamente. E segundo, porque podem
comprometer suas performances confrontando-as com informações que os atores prefeririam manter ocultas de sua fachada no Facebook. Desta forma, parentes e professores representariam potencialmente para este grupo de jovens os "papéis de delatores", definidos como aqueles que podem colocar a performance de um ator em xeque ao revelarem informações fora da fachada às quais eles têm acesso privilegiado (GOFFMAN, 2001).
Boyd (2011) também reitera que estruturas com públicos conectados, como é o caso do Facebook, forçam as pessoas a conciliarem em um mesmo ambiente contextos que se mostram incompatíveis ou excludentes. E aponta que, ainda que uma audiência imediata seja conhecida, a audiência potencial pode atingir alcance e diversidade impensados, traduzindo-se em uma audiência invisível.
Esta invisibilidade, propomos, é dupla. Primeiro porque a audiência inclui amigos de amigos sobre os quais não se tem total conhecimento. Segundo porque, como consequência do algoritmo do Facebook que não mostra no feed de notícias todas as representações de todos os usuários conectados em uma rede social, o próprio ator não tem como mensurar para que amigos sua performance será eleita visível. Outro ponto levantado por este autor diz respeito à descontextualização da própria performance discursiva. Visto que o Facebook efetua seu armazenamento na Linha do Tempo e que a torna passível de busca, um enunciado pode ser mal interpretado quando acessado em um contexto que não foi exatamente o de sua produção.
Essa questão colabora para a necessidade de coerência entre performances atuais, passadas, concomitantes e entre os éthos decorrentes delas. Os impactos da exposição e do vazamento de performances destinadas a diferentes contextos e plataformas podem ser vistos em casos extremos como, por exemplo, na lista
divulgada pelo site Catraca Livre que reúne desde um criminoso que curtiu o post da polícia americana no qual aparecia como procurado (o que permitiu que ele fosse rastreado e preso) até a professora que foi demitida após postar uma foto sua fumando maconha41. Na mesma direção, instituições financeiras norte-americanas já consideram as performances coletadas nos perfis de redes sociais para decidirem sobre a concessão ou não de empréstimos42 para seus usuários.
O Facebook, como vimos, posiciona-se institucionalmente como um lugar seguro para troca de informações "reais" e socialização. Para validar-se como tal, promove um discurso de empoderamento dos usuários no que diz respeito à sua privacidade, principalmente a quem tem acesso a cada performance (o que não significa para quem ela será efetivamente visível) a fim de deixá-los confortáveis para o compartilhamento de informações pessoais. Foram criadas, neste sentido, listas para segmentação dos amigos que podem ter acesso restrito, total, parcial ou personalizado por post ao conteúdo compartilhado pelos atores, como vimos no capítulo 4,
"Éthos prévio e o credenciamento dos atores". Entretanto, como consequência da diversificação dos recursos de privacidade, seu gerenciamento tornou-se mais complexo, levando muitos usuários a não configurá-los de forma adequada ou frequente (VITAK, 2012). Ainda que o fizessem, acreditamos que a adequação performance-público nesta rede social extrapola a administração da privacidade tal como é estruturada pela plataforma,
41CATRACA LIVRE. Riscos de publicar imagens na rede. Disponível em:
<https://catracalivre.com.br/geral/inusitado/indicacao/7-demissoes-causadas-por-fotos-nas-redes-sociais/>. Acesso em: 19 set. 2015.
42ESTADÃO. Redes sociais são usadas para traçar perfil de crédito.
Disponível em: http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,redes-sociais-sao-usadas-para-tracar-perfil-de-credito-imp-,1131924. Acesso em: 19 set. 2015.
porque engloba contextos além de todos aqueles trazidos individualmente por cada amigo conectado.
Nesta perspectiva, no Facebook, a imagem de si inscrita no discurso para o outro tem o difícil desafio de conciliar os diferentes pertencimentos de que trata Serres (1997), mas também seus registros e consultas deslocadas nos contextos temporais e sociais, online e offline. E, por conseguinte, trará desdobramentos para a identidade performada em rede e para o éthos discursivo decorrente dela.