Segundo o Estatuto da Terra (1964), a reforma agrária tem a finalidade de “atender aos princípios da justiça social e ao aumento da produtividade”. Porém, conforme já abordado, há desafios a serem vencidos para que essa realidade seja posta em prática, visto que os assentados necessitam de orientação técnica, incentivos, estrutura adequada de trabalho e de recursos financeiros que contribuam para viabilizar a apropriação e adoção da nova forma de vida como assentado.
Essa realidade lógica é uma premissa generalista e também já percebida por quem conhece e discute o tema reforma agrária. Mas, ao que se observa, na realidade do PAVTA, há uma quase ausência de medidas efetivas para atender a essas premissas, impactando negativamente na qualidade de vida das famílias assentadas, dado ao caos econômico, social e ambiental a que estão submetidas.
O Censo Demográfico do ano de 2000 confirmou existir no meio rural brasileiro 5 milhões de famílias de agricultores, com renda mensal restrita, abaixo de dois salários-mínimos (II PNRA, 2004), repercutindo para que no meio rural sejam identificados elevados índices de mortalidade infantil, incidência de endemias, insalubridade e de analfabetismo, que tem como causa a ausência de serviços públicos, ou o acesso muito restrito a eles.
Condição ainda pior é facilmente identificada entre as famílias do PAVTA, cuja renda proveniente da atividade agrícola e pecuária quase não existe, e, ainda que seja mínima a renda das famílias, depende dos programas governamentais, relegando-as a uma perspectiva mínima de desenvolvimento e crescimento, onde a renda média per capta/dia no assentamento é de apenas R$ 4,91, que relega o assentado a uma condição de dependente extremo de apoios externos.
De acordo com o último censo (IBGE, 2010), entre 2000 e 2010 a população rural sofreu uma perda de dois milhões de pessoas e, agora possui 29,8 milhões, ou 15,65% da população total do País, que é de 190,8 milhões. O artigo 1º do Estatuto da Terra (1964) estabelece que a Reforma Agrária seja um “conjunto de medidas que visam promover melhor distribuição de terra mediante modificação no regime de posse e uso, a fim de atender aos princípios de justiça social e aumento da produtividade”.
A Reforma Agrária poderia minimizar os problemas apontados no meio rural brasileiro, onde os assentamentos de Reforma Agrária existem desde 1964, instituídos pela Lei nº 4.504, de 30 de novembro daquele ano. Porém, desde então, dificuldades vêm sendo acumuladas no que diz respeito à concretização desses assentamentos como forma de resolução dos problemas das famílias que não tinham terra para trabalhar e que se inscreviam nos programas de Reforma Agrária.
Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA, 2008), em seu V Plano Diretor 2008-2011 e estudos de cenários para 2023, a agricultura possui um sentido amplo e abrange a produção, o beneficiamento e/ou a transformação de produtos agrossilvipastoris, agrícolas e extrativistas, pois compreende desde processos mais simples até os mais complexos, inclusive o artesanato no meio rural e a agroindústria em seu conceito ampliado, que abrange insumos, máquinas, agropecuária, indústria e distribuição.
Em suma, o conceito de agricultura, para a Embrapa, envolve suas relações com a indústria e com os serviços praticados no campo, porque se trata de atividade humana que se amplia além das fronteiras da produção agropecuária até alcançar o consumidor − seja individual, coletivo ou institucional − dos campos e das cidades. Estudos têm mostrado que a agricultura é fundamental para o crescimento da economia, mesmo em países majoritariamente urbanizados, como o Brasil (SOARES, 2001).
Historicamente, o Brasil sempre teve contrastes na distribuição de riquezas, fato que poderia ser diferente se no transcorrer de sua história as terras tivessem sido partilhadas de forma justa.
Por isso, se faz urgente ajustar o foco da reforma agrária para que de fato ela seja aplicada em consonância com as diretrizes e premissas do II PNRA, ora em curso no País, o que pode ser referendado pelos dados mais recentes do relatório do Incra de dezembro de 2010, que expõe o tamanho da reforma agrária do Brasil, a qual apresenta 85,8 milhões de hectares incorporados e a existência de 8.763 assentamentos atendidos pelo Incra, onde vivem 924.263 famílias (INCRA, 2010).
Nesse prisma de crescimento numérico da reforma agrária, é necessário estabelecer uma logística que viabilize a inserção dos assentados no mercado, pois a modernização do setor rural independe do perfil do produtor, seja ele pequeno, médio ou grande; todos devem possuir uma lógica de integração entre as cadeias produtivas de distintos setores (indústria de máquinas e insumos), considerando seu papel relevante para o suprimento da agropecuária e da indústria de processamento, marketing e distribuição.
Nas últimas décadas, a agricultura brasileira deixou de ser um setor relativamente autônomo e independente dos demais, para inserir-se de forma mais profunda no sistema econômico. Em consequência, os limites entre agricultura, indústria e serviços são cada vez menos nítidos e vão, paulatinamente, perdendo relevância analítica.
Faz-se necessário, portanto, que se analise a economia seguindo a lógica das cadeias produtivas, que englobam as diversas etapas do processo produtivo (SEAPRO, 1995). Porém, para que essa transformação seja eficiente, o conhecimento é importante, pois pode assegurar a produtividade dos assentamentos, fixação das famílias na terra, proporcionando-lhes uma renda compatível e capaz de melhorar as suas condições de vida.
Para dar suporte técnico, o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e o Incra, informam ter aplicado R$ 122 milhões em assistência técnica para os agricultores assentados, chegando este atendimento a 450 mil no ano de 2005, investindo, também, na infraestrutura de estradas, saneamento, habitação e abastecimento de água (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2006).
Mesmo com esse volume significativo de recursos aplicados, observa-se que não houve ganhos significativos nos assentamentos em especial, no que diz respeito à assistência técnica, que via de regra é amadora, incompatível e sem projetos que contextualizem a realidade do assentado e as condições de clima e solo do seu território de inserção.
Por isso, ainda há muito a ser feito para se cumprir as metas acordadas no II Plano Nacional de Reforma Agrária, o qual foi elaborado a partir de um diálogo com distintos setores sociais, em particular, com as entidades de representação dos trabalhadores rurais, e corrobora o projeto do I Plano Nacional de Reforma Agrária, elaborado em 1985, buscando retomar a trajetória anunciada por este (II PNRA, 2004).