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Breve cronologia da vida e obra de Feyerabend

No documento Filosofia da Ciência III (páginas 162-167)

1924 – Nasceu em Viena. Filho de um funcionário público e de uma costureira.

1940 – Convocado para o Arbeitsdienst (o serviço obrigatório do partido nazista).

1943 – Toma conhecimento do suicídio de sua mãe.

1944 – Condecorado com a Cruz de Ferro. Chegou à patente de Tenente. Proferiu  palestras para a Escola de Oficiais.

1945 – Baleado na mão e na barriga durante uma retirada das tropas russas. O  projétil lesionou nervos na coluna vertebral.

1946 – Recebeu uma bolsa para estudar canto e direção teatral em Weimar. Juntou­

se à “Cultural Association for the Democratic Reform of Germany” (Associação  Cultural para a Reforma Democrática da Alemanha).

1947 – Retornou a Viena para estudar História e Sociologia na Universidade de  Viena. Logo em seguida, transferiu­se para o curso de Física. Publicou seu primeiro  artigo, sobre o conceito de inteligibilidade na física moderna. Na época, Feyerabend  era “um positivista ferrenho”.

1948 – Primeira visita ao seminário da Sociedade do Colégio Austríaco em Alpbach. 

Trabalhou como secretário dos seminários. Conheceu Karl Popper e Walter Hollitscher. 

Casou­se com a primeira esposa, Edeltrud.

1949 – Tornou­se líder estudantil do “Círculo Kraft”, um clube de estudantes de  filosofia formado em torno de Viktor Kraft, orientador da dissertação de Feyerabend  e membro fundador do Círculo de Viena. Ludwig Wittgenstein visitou o Círculo Kraft  para dar uma palestra. Feyerabend também conheceu Bertolt Brecht.

1951 – Obteve o doutorado em filosofia com uma tese sobre “sentenças de base”. 

Se candidatou a uma bolsa do Conselho Britânico a fim de estudar sob a orientação  de Wittgenstein em Cambridge. Mas Wittgenstein faleceu antes que Feyerabend  chegasse à Inglaterra. Assim, escolheu Popper como orientador.

1952 – Viajou à Inglaterra para estudar com Popper na London School of Economics­

LSE (Escola de Economia de Londres). Focou em teoria quântica e Wittgenstein. Estudou  os manuscritos do livro Philosophical investigations45  de Wittgenstein e elaborou  um  resumo do livro. Aproximou­se de outro dos orientados de Popper, Joseph Agassi.

46 N.T.:  Edição  brasileira:  POPPER,  K. A Sociedade Aberta E Seus Inimigos.  2  vols. 

Belo Horizonte: Itatiaia, 1998.

47 N.T.:  Edição  castelhana:  Paul  Feyerabend.  El  problema  de  la  existencia  de  las  entidades  teóricas. Tradução de Fernando Tula Molina. Scientiæ Studia, vol. 3, n. 2, 2005. p. 277­312.

1953 – Feyerabend retornou para Viena. Popper sugeriu uma extensão da sua  bolsa de pesquisa, mas Feyerabend preferiu permanecer em Viena. Traduziu o livro  de Popper The Open Society and its Enemies46  para o alemão. Recusou a oferta  para ser assistente de pesquisa de Popper. Agassi assumiu a vaga. Feyerabend  se tornou assistente de pesquisa de Arthur Pap, em Viena.

1954 – Publicou seus primeiros artigos sobre mecânica quântica e sobre Wittgenstein. 

Pap apresentou Feyerabend a Herbert Feigl.

1955 – Assumiu seu primeiro trabalho de dedicação exclusiva como professor de  Filosofia na University of Bristol (Universidade de Bristol), na Inglaterra. Publicou  sua síntese do livro Philosophical investigations de Wittgenstein no periódico The  Philosophical Review.

1956 – Casou­se com a segunda esposa, Mary O’Neill. Publicou um artigo sobre 

“O paradoxo da análise”. Feyerabend conheceu o físico quântico David Bohm, cujas  ideias o influenciaram profundamente.

1957 – Submeteu um artigo sobre medições na teoria quântica ao Colston Research  Symposium na Universidade de Bristol.

1958 – Assumiu um posto de professor visitante na University of California (Universidade  da Califórnia), Berkeley. Dois de seus mais importantes artigos, deste período inicial  da  carreira, foram  An  Attempt  at  a  Realistic  Interpretation  of  Experience  e  Complementarity, publicados nos Anais da Aristotelian Society. Neles, Feyerabend  argumentou contra o positivismo e defendeu uma descrição realista da ciência  quanto à relação entre teoria e experiência, partindo amplamente das concepções  falseacionistas de Karl Popper.

1959 – Aceitou um emprego permanente em Berkeley e tentou o visto americano  permanente para trabalhar nos EUA.

1960 –  Como  resultado  de  discussões  iniciais  com  Herbert  Feigl,  Feyerabend  publicou “Das Problem der existenz theoretischer Entitäten”47 , no qual argumentou  que não existe um “problema” especial das entidades teóricas, e que todas as  entidades são hipotéticas. Proferiu duas palestras no Oberlin College, Ohio, onde  ornamentou a visão popperiana sobre os pensadores pré­socráticos.

48 N.T.:  Edição  castelhana:  FEYERABEND,  P.  Límites de la ciencia:  Explicación,  reducción  y  empirismo.  Traducción  de  Ana  Carmen  Pérez  Salvador  y  Maria  del  Mar  Seguí. Barcelona/Buenos Aires/México: Ediciones Paidós, 1989.

49 N.T.: Edição castelhana: FEYERABEND, P. Cómo ser em buen empirista: Defensa de la  tolerancia em cuestiones epistemológicas. Traducción de Diego Ribes e Maria Rosario de  Madaria. Cuadernos Teorema,  7,  Universidad  de  Valencia,  Departamento  de  lógica  y  filosofía de la ciencia: Valencia 1976, 62 p.

50 N.T.: Edição castelhana: FEYERABEND, P. Problemas del empirismo. In: OLIVÉ, L., RANSANZ,  A. P. Filosofía de la ciencia: teoría y observación. México: Siglo XXI, 1989, p. 279­311.

51 N.T.:  Edição  brasileira:  POPPER,  K.  R. Conjecturas e refutações.  Brasília:  Editora  Universidade de Brasília, 1982.

1962 – Publicação do artigo Explanation, Reduction, and Empiricism48 . Na ocasião,  criticou as descrições empiristas da explicação científica e reduções teóricas (Hempel,  Nagel) e  no lugar introduziu o conceito de incomensurabilidade baseado na “teoria  contextual de significado” o qual Feyerabend afirmou encontrar no Philosophical  investigations de Wittgenstein.

1963 – Publicou How to be a good empiricist49 , um artigo que resumiu seu ponto  de vista, juntamente com dois outros artigos sobre o problema mente­corpo nos  quais ele introduziu a posição atualmente conhecida como “materialismo eliminativista”.

1965 – Publicação da primeira parte do ensaio Problems of empiricism50 , e de Reply  to criticism, onde Feyerabend fez sua última tentativa séria de edificar um empirismo 

“tolerante”, “desinfetado”. Embora já tenha começado a se distanciar de Popper,  Feyerabend ainda escreveu uma revisão brilhante de Conjectures and Refutations51   de Popper.

1967­1968 – Muda o foco de seus textos publicados para o “pluralismo teórico”, a  concepção de que os cientistas deveriam construir e defender tantas alternativas  teóricas quanto possível para maximizar as chances de falsear teorias existentes. 

Em On a Recent Critique of Complementary defendeu a visão de Niels Bohr contra  a crítica de Popper, que não gostou das críticas feyerabendianas.

1969 – Em um pequeno artigo, Science without experience, Feyerabend finalmente  desistiu da tentativa de ser um empirista, argumentando que em princípio a experiencia  não é necessária em nenhum ponto para a construção, a compreensão ou o teste  de teorias científicas empíricas.

52 N.T.: Edição brasileira: FEYERABEND, P. Consolando o especialista. In: LAKATOS, I.; 

MUSGRAVE, A. (org.). A Crítica e o Desenvolvimento do Conhecimento. Tradução de  Octávio Mendes Cajado. Cultrix/EDUSP: São Paulo 1979, p. 244­284.

53 N.T.: Edição castelhana: FEYERABEND, P. Contra el Método: esquema de una teoría  anarquista del conocimiento. Traducción de Francisco Hernán. Barcelona: Ariel, 1974.

54 N.T.: Edição brasileira: MILL, J. S. Sobre a Liberdade. Petrópolis: Vozes, 1991.

55 N.T.: Edição brasileira: POPPER, K. Conhecimento objetivo. Belo Horizonte: Itatiaia; 

São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1975.

56 N.T.: Edição brasileira: FEYERABEND, P. Contra o Método. Tradução de Octanny S. 

da Mota e Leônidas Hegenberg. Rio de janeiro: F. Alvez, 1977.

57 N.T.:  Edição  brasileira:  FEYERABEND,  P. A Ciência em uma Sociedade Livre. 

Tradução de Vera Joscelyne. São Paulo: Editora UNESP, 2011.

1970 – Publicação de Consolations for the Specialist52  no qual Feyerabend atacou  Popper a partir de um ponto de vista kuhniano. Publicou também a versão ensaísta  de Against  Method:  Outline  of  an Anarchistic  Theory  of  Knowledge53   na  qual  apresentou o “o anarquismo epistemológico” pela primeira vez. Feyerabend afirmou  se tratar da aplicação do liberalismo de John Stuart Mill, em On Liberty54  ao campo  da metodologia científica. Feyerabend publicou pouco nos anos seguintes.

1974 – Morre Imre Lakatos, amigo de Feyerabend, interrompendo os seus planos  de produzir um volume de diálogos intitulado For and Against Method. Feyerabend,  também  doente,  lecionou  na  Universidade  de  Sussex.  Publicou  uma  resenha  devastadora do livro Objective Knowledge55  do Popper.

1975 – Sai o primeiro livro de Feyerabend Against Method56 , estabelecendo o 

“anarquismo epistemológico” cuja tese principal era a inexistência de uma tal coisa  como O método científico. Grandes cientistas seriam oportunistas metodológicos  que se viram com o que têm em mãos, ainda que isso signifique violar os cânones  da metodologia empirista.

1976­1977 – Feyerabend responde à maioria dos grandes revisores do livro Against  Method. Adoece  de  depressão.  Publicou  seu  primeiro  grande  artigo  sobre  o  relativismo: a primeira vez que ele o endossou explicitamente.

1978 – Publicou o livro Science in a free society57 , incluindo respostas aos revisores  de Against Method. Alguns esclarecimentos sobre o anarquismo epistemológico, e  muito poucas retratações em relação às posições adotadas no Against Method,  levando adiante o debate sobre as implicações políticas do anarquismo epistemológico. 

58 N.T.:  Edição  espanhola:  FEYERABEND,  P.  Ciencia  como  arte.  In:  FEYERABEND,  P. 

Adiós a la Razón. 3. ed. Traducción de José R. de Rivera. Madrid: Editorial Tecno, 2005.

59 N.T.:  Edição  brasileira:  FEYERABEND,  P.  Adeus à Razão.  Tradução  de  Vera  Joscelyne. São Paulo: Editora UNESP, 2010.

60 N.T.:  Edição  portuguesa:  FEYERABEND,  P. Contra o Método.  Tradução  de  Miguel  Serras Pereira. Lisboa: Relógio D’Água, 1993.

61 N.T.:  Edição  portuguesa:  FEYERABEND,  P. Diálogo sobre o Método.  Tradução  de  Antônio Guerreiro. Lisboa: Editorial Presença, 1991.

62 N.T.: Edição brasileira: FEYERABEND, P. Diálogos sobre o Conhecimento. Tradução  e notas de Gita K. Guinsburg. São Paulo: Editora Perspectiva, 2001.

O livro também incluiu um dos seus maiores endossos ao relativismo, uma das  concepções pelas quais veio a ser mais conhecido. Aparece o primeiro volume da  edição alemã do seu livro Philosophical Papers. (Feyerabend publicou cada vez  mais em alemão a partir de então).

1981 – Publicação em inglês dos dois primeiros volumes da série Philosophical  Papers de Feyerabend, incluindo um material inédito nos capítulos introdutórios.

1983 – Conheceu Grazia Borrini em suas conferências em Berkeley.

1984 – Publica “Science as an Art”58  e defende uma concepção explicitamente  relativista da história das ciências. Nessa perspectiva, há apenas mudanças, mas  não “progresso”. Segue na campanha de reabilitar o trabalho de Ernst Mach.

1987 –  Publica o livro Farewell to Reason59 , coletânea de alguns artigos que  Feyerabend havia publicado entre 1981 e 1987. Outra vez o relativismo assume da  obra, especialmente em sua versão “Protagórica”.

1988 – Aparece a segunda edição (revisada) do livro Against Method60 , onde omite  o longo capítulo sobre a história das artes visuais mas incorpora partes do livro  Science in a free society.

1989 ­ Paul e Grazia se casam em janeiro. No outono, em parte devido aos efeitos  do terremoto em outubro na California, mudam­se para a Itália e a Suíça.

1990 – Oficialmente se demite de Berkeley em março.

1991 – Aposentou­se da universidade de Zurique. Publicados os livros Three dialogues  on Knowledge61  e Beyond Reason62 , coletânea de ensaios editada por antigo pupilo,  Gonzalo Munévar. Também publicou vários pequenos textos, muitos na Common  Knowledge. As publicações de Feyerabend nessa época dão sinais de uma crescente  desilusão com o relativismo. Ainda assim se opõe radicalmente ao “objetivismo”.     

63 N.T.:  Edição  brasileira:  FEYERABEND,  P. Contra o Método.  Tradução  de  Cezar  Augusto Mortari. São Paulo: Editora UNESP, 2007. 

64 N.T.:  Edição  brasileira:  FEYERABEND,  P. Matando o Tempo:  uma  autobiografia. 

Tradução de Raul Fiker. São Paulo: Editora Unesp, 1996. 

65 N.T.:  Edição  brasileira:  FEYERABEND,  P. A Conquista da Abundância.  Organizado  por Bert Terpstra; tradução de Cecília Prada e Marcelo Rouanet. São Leopoldo: Editora  UNISINOS, 2005.

1993 –  Publicação  da  terceira  edição  do  livro Against  Method63 .  Feyerabend  desenvolveu um tumor cerebral inoperável e foi hospitalizado.

1994 – Em 11 de fevereiro, Feyerabend falece na Clínica Genolier (Genolier, Canton  de Vaud, Suíça). Diversos simpósios e colóquios importantes ocorreram nos dois  anos seguintes.

1995 – Publicação da sua autobiografia Killing Time: The autobiography of Paul  Feyerabend64 .

1999 – Publicação do livro Conquest of abundance65 .

No documento Filosofia da Ciência III (páginas 162-167)