NÃO PROLIFERAÇÃO E DESARMAMENTO NUCLEAR
1 O INÍCIO DA ERA NUCLEAR
2 O TRATADO DE NÃO PROLIFERAÇÃO DE ARMAS NUCLEARES
2.2 Breve descrição dos artigos que compõem o TNP
O Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares foi aberto para assinatura em Londres, Moscou e Washington, no dia 1o de julho de 1968, tendo entrado em vigor em 5 de março de 1970, depois de observadas as condições estabelecidas no artigo IX.3, com a ratificação por todos os Estados nuclearmente armados e mais 40 Estados não nucleares. Esse artigo é relevante porque é nele que se verifica o critério estabelecido para identificar
17
LAFER, Celso. Comércio, Desarmamento e Direitos Humanos – reflexões sobre uma experiência diplomática. 2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2006, p. 118-119.
18 MELLO, Celso D. de Albuquerque.. Curso de Direito Internacional Público. 15. ed. São Paulo: Renovar,
2004, p. 1486. v.2.
19
FERREIRA JÚNIOR, Geraldo Miniuci. O acordo nuclear Brasil-Alemanha. In: DANESE, Sergio França (Org.). Ensaios de História Diplomática do Brasil. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão/Ipri, 1989, p. 157. (Cadernos do IPRI, n. 2.)
uma nação nuclearmente armada como “aquela que tenha fabricado e provado uma arma nuclear ou qualquer outro engenho nuclear explosivo antes de 1o de janeiro de 1967”20.
Atualmente, o tratado conta com o expressivo número de 190 Estados partes21, uma das razões para que seja reconhecido como o mais bem sucedido acordo de controle de armamentos da história mundial 22.
Ele não é muito extenso, composto de apenas onze artigos, sendo que sua essência é uma barganha entre os Estados nucleares e os Estados não nucleares. Estes assumem a obrigação de não se armarem nuclearmente, enquanto aqueles se obrigam a se desarmar e a cooperar com iniciativas do uso da energia nuclear para fins civis. É o que se depreende de seus onze artigos23.
Enquanto o artigo I estabelece que os Estados nuclearmente armados não transferirão armas ou explosivos nucleares aos Estados não nucleares, nem cooperarão para que estes as fabriquem ou adquiram, o art. II determina que os Estados não nucleares não poderão receber armas ou explosivos nucleares, nem fabricá-los ou adquiri-los.
O artigo III é de relevância fundamental para a funcionalidade do tratado, estabelecendo que todos os Estados não nucleares deverão submeter seus materiais e atividades nucleares ao regime de salvaguardas imposto pela Agência Internacional de Energia Atômica. Como será analisado no próximo capítulo, as salvaguardas e as inspeções realizadas para verificar o respeito dos Estados a elas constituem elemento central no controle da proliferação nuclear.
O artigo IV é relevante porque nele se prevê a obrigação de todos os Estados partes de facilitarem e integrarem o intercâmbio de equipamentos, materiais e informações tecnológicas e científicas para o uso pacífico da energia nuclear. Essa previsão é importante incentivo para a adesão de Estados não nuclearmente armados, que poderiam, ainda assim, desenvolver programas civis de uso da energia nuclear. Contudo, por não possuir um caráter mandatório, também essa obrigação foi interpretada pelas potências
20 RANGEL, Vicente Marotta. Direito e Relações Internacionais, 7. ed. São Paulo: RT, 2002, p. 229. 21 UNODA (United Nations Office for disarmament affairs). Treaty on the Non-Proliferation of Nuclear
Weapons. Opened for signature at London, Moscow and Washington: 1 July 1968. Disponível em: http://disarmament.un.org/treaties/t/npt. Acesso em: 9 dez. 2014.
22 THAKUR, Ramesh. India’s nukes pose paradox. In:_____. War in our time – reflections on Iraq,
terrorism and weapons of mass destruction. Tokyo: United Nations University, 2007, p. 100.
nucleares, que selecionam subjetivamente os Estados com quem aceitam cooperar nessa área. Essa seletividade, assim como o caráter discriminatório essencial do tratado e a relutância das nações nucleares de se desarmarem, constituem fatores de fragilidade e enfraquecimento do tratado, como será analisado mais à frente.
O artigo V refere-se às aplicações pacíficas de explosões nucleares, previsão sem maior utilidade porque, pelos efeitos deletérios causados por qualquer detonação, não se trata de uma prática comum, tanto que não foi possível obter referências de sua realização.
O artigo VI, diferentemente, é altamente polêmico e objeto de intenso debate internacional, à medida que nele se determina que todas as partes deverão estabelecer negociações em boa-fé para as medidas efetivas relacionadas com a cessação da corrida às armas nucleares e com o desarmamento nuclear, bem como negociações para um tratado relativo ao desarmamento nuclear geral e completo, sob o estrito e efetivo controle internacional.
Como se sabe, até hoje não houve qualquer avanço significativo no que toca ao cumprimento dessas obrigações. A relutância nisso, especialmente a dos Estados nuclearmente armados, acaba apenas reforçando as críticas contra o TNP, assim como elevando a ameaça de aumento da proliferação nuclear.
O artigo VII não impõe obrigações, mas representa um incentivo a que sejam estabelecidos acordos regionais para a criação de zonas livres de armas nucleares, acordos que se colocam como relevantes instrumentos para o desarmamento nuclear, conforme será analisado no capítulo 4, desta segunda parte do trabalho.
O artigo VIII merece destaque porque nele foi estabelecido mecanismo de revisões periódicas do TNP, que ocorrem por meios das conferências de revisão realizadas a cada cinco anos. Esse mecanismo representa ferramenta muito importante quando se pensa no desarmamento nuclear como um ideal a ser buscado por meio de conquistas graduais. Como se verá um pouco mais à frente, a partir dele é que se tornaram propostas concretas os tratados de proibição completa de testes nucleares e o tratado que estabelece o corte na produção de combustíveis físseis, iniciativas muito importantes para complementar o TNP em sua função contra a proliferação nuclear.
O artigo IX, afora a definição do critério discriminatório do tratado ao descrever quem são os Estados aceitos como nuclearmente armados, ou seja, os que realizaram
explosões nucleares até 01/01/1967, não merece destaque, referindo-se apenas às formalidades de adesão e ratificação, mas o art. X é muito importante porque nele se prevê o mecanismo de denúncia do tratado, por meio do qual um país se retira dele.
Especialmente a partir da experiência com a Coreia do Norte, nação que não teve dificuldades em denunciar o TNP, os Estados partes identificaram nesse artigo um dos pontos de fragilidade do regime de não proliferação, o que também será objeto de análise mais à frente.
O artigo X ainda deve ser lembrado pelo seu segundo item, que previu que no prazo de vinte e cinco anos após a entrada em vigor do tratado, seria convocada uma conferência para decidir sobre a continuidade da sua vigência, e por qual período. Os Estados nuclearmente armados pretendiam, nessa ocasião, que ocorresse extensão por período indefinido, o que somente foi obtido com a aceitação de medidas concretas exigidas pelos Estados não nucleares relacionadas ao cumprimento da obrigação assumida pelos Estados nucleares em relação ao seu próprio desarmamento.
Vê-se que tanto o item X.2, quanto o item VIII.3, constantes de um tratado criticado por refletir os interesses das nações mais poderosas, acabaram se tornando ferramentas muito importantes para a obtenção de avanços concretos no sentido do desarmamento nuclear.
Mesmo se tratando de uma norma que cria uma realidade desequilibrada e imperfeita, ainda assim permanece plenamente válida a proposição de que toda conquista nessa longa evolução construtiva em prol do desarmamento deve ser celebrada, para que um dia não seja mais utópico considerá-lo em termos efetivos.
Observadas as linhas gerais do tratado, é interessante compreender algumas das principais polêmicas que o cercam.