Neste tópico, trabalhamos a temática do Trotskismo na Argentina, abordamos o surgimento e o desenvolvimento dessa corrente de pensamento político e apresentamos, a partir de suas principais tendências (morenismo, pousadismo, socialismo-nacional), ainda que brevemente, seus principais partidos, seus líderes e os eixos políticos – luta de classes, revolução, IV Internacional, oposição de esquerda, partido comunista, stalinismo, eleições, movimento obreiro, libertação nacional, imperialismo – relacionando-os com os acontecimentos mais destacados da conjuntura político-social internacional e argentina (peronismo, ditadura militar, redemocratização política) ao longo desse período de participação trotskista na luta de classes.
Na elaboração deste tópico, apoiamo-nos nos escritos57 de Coggiola (2006), Rojo (2002, 2010, 2012), Gabriela Liszt (2006), Herrera (2006) e Rojas (2006). As décadas de 1930 a 1950 são marcadas, no que se refere à política econômica nacional argentina, pelo modelo de substituição de importações que culminaria com sua crise e a ascensão do neoliberalismo a partir de meados da década de 1970. Foi nesse contexto histórico, político e econômico em que se desenvolveram as primeiras organizações trotskistas argentinas.
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Parte do material bibliográfico importante sobre o surgimento e o desenvolvimento do trotskismo na Argentina não foi colocada neste trabalho por questões de acesso às obras, algumas restritas à Argentina de maneira impressa. Dentre elas, mencionamos: El trotskismo obrero e internacionalista en la Argentina, de Ernesto González (1995); El trotskismo en la Argentina (1929-1960), de Osvaldo Coggiola (1985); Liberación nacional, socialismo y clase trabajadora, de Norberto Galasso (1991); El marxismo olvidado en la Argentina, de Horácio Tarcus (1996), entre os mais destacados escritos sobre a temática.
Em 1928, na América do Sul, os trotskistas argentinos foram o primeiro grupo político ligado à Oposição de Izquierda Internacional (OII). Surgiram da cisão no interior do Partido Comunista Argentino (PCA), de onde nasceu o Partido Comunista da Região Argentina (PC- RA), que, posteriormente, seria transformado no Partido Comunista da República Argentina (PC-RA) e, finalmente, no Concentração Operária (CO), cujo principal dirigente foi José Penelón (ROJAS, 2006).
Os trotskistas argentinos se dispuseram como alternativa revolucionária ao stalinismo – o PCA era a seção argentina da III Internacional – e criticavam o PCA e suas posições stalinistas e as alianças com setores da burguesia local:
En respuesta a los virajes políticos implementados por la Internacional Comunista y su expresión en el PC argentino, los trotskistas discutieron contra la política sectária de los comunistas hacia las organizaciones sindicales de masas, planteando la necesidad del frente único de los trabajadores. Posteriormente, cuando la IC imponga a los partidos nacionales la política de alianzas con sectores burgueses a través de los frentes populares, los trotskistas defenderán una posición de independencia de clase. (ROJO, 2012, p.109).
Em seu surgimento, as agremiações trotskistas argentinas emergiram de cisões no interior dos partidos de esquerda socialista e comunista, muitas das quais são produtos da tática entrista articulada pelos trotskistas nesses partidos. Em 1929, surgiu o primeiro grupo trotskista na Argentina, cujos dirigentes mais destacados foram Antônio Galo, Pedro Milesi, Libório Justo e Mateo Fossa. Em 1930, formou-se o Comitê Comunista de Oposição (CCO), dirigido pelo inglês, Roberto Guiney, que capitaneou a ruptura com o PCA (dirigido por José Penelós); depois, surgiu o Partido Comunista-República Argentina (PC-RA), que editou o primeiro periódico “La verdad”. Em 1932, foi criada a Izquierda Comunista Argentina (ICA), que tem como jornal-panfleto o “Boletim de Oposição”, que difundia as posições políticas da Oposição Internacional e as críticas à teoria estalinista do socialismo em um só país. No plano nacional, a ICA se opunha ao PCA. Em 1935, veio o Grupo IV Internacional (GIVI). Em 1936, um setor trotskista, encabeçado por Liacho, decidiu fazer entrismo no Partido Socialista (PS) e organizou frações no interior dele, que se fissurou e transformou-se no Partido Socialista Operário (PSO). Posteriormente, os trotskistas foram expulsos do PSO e estabeleceram uma diferenciação política para o plano eleitoral em oposição ao PSO e ao PCA (ROJAS, 2006).
No fim da década de 1930, foram consolidadas as já demarcadas diferenciação e ruptura entre Trotsky e Stálin, com a mudança de rumos dentro da URSS – já apresentadas ao
longo do primeiro e do segundo capítulos desta tese – e Trotsky rompeu com o Partido Comunista Soviético e com a III Internacional. Assim, surgiram a Oposição de Esquerda e a IV Internacional. Esse fato impulsionaria as ideias trotskistas na Argentina, onde se iniciou o Peronismo e surgiram vários grupos trotskistas, entre eles, o Grupo Obrero Marxista (GOM), em 1943, com Nahuel Moreno, que, em 1948, fundaria o Partido Operário Revolucionário (POR). Pousadas fundou o Grupo Quarta Internacional (GCI) e publico a “A Voz Operária” em 1947.
Em 1941, Libório Justo rompeu com a IV Internacional e fundou o Partido Operário da Revolução Socialista (PORS), que seria a primeira seção argentina da IV Internacional (ROJAS, 2006; ROJO, 2012). E, 1944, Nahuel Moreno fundou o Grupo Obrero Marxista (GOM) e passou a publicar a “Frente Proletária” em 1946. O GOM, sob a liderança de Moreno, rechaçou a contradição entre o processo de industrialização e a estrutura econômica existente, assim como a inexistência de contradição entre a burguesia industrial e a oligarquia argentina nos anos 1940. Esse partido defendia a relação estreita entre ambos os setores nacionais com o imperialismo e a impossibilidade de haver uma revolução democrático- burguesa liderada pela burguesia industrial nacional. Assim, as tarefas democráticas, como a revolução agrária, por exemplo, estariam sob a liderança do proletariado e em aliança com o campesinato em oposição à burguesia nacional e ao imperialismo. Quanto ao peronismo, é representante do imperialismo inglês e dos setores mais concentrados da economia nacional. É definido pelo GOM como bonapartista sui generes – levando em consideração as particularidades locais e a conjuntura internacional de meados do Século XX – em que se apoia na Igreja, no Exército e na burocracia, atuando em nome das classes dominantes locais e do imperialismo inglês. Sobre a burguesia industrial argentina, considera-a estreitamente vinculada aos interesses do imperialismo, assim como a burguesia agrária nacional (ROJO, 2002).
O morenismo caracteriza a classe operária e os sindicatos em conjuntura peronista como passivos e apáticos e que, somados com a falta de direção revolucionária do proletariado, confluíram para o sucesso do peronismo no campo trabalhista. A estatização de sindicatos pelo peronismo demonstra que tanto ele quanto as direções sindicais “entreguistas” são instrumentos do imperialismo. Assim, a postura do GOM (“Frente Proletário”) foi de atuar nos sindicatos peronistas, onde a maioria dos trabalhadores pretendia retirar esses sindicatos do peronismo e vislumbrava a construção de novos sindicatos e uma nova Central Sindical, autônomas do Estado e do Imperialismo, com a finalidade de acelerar o movimento
revolucionário por meio de sindicatos que lutassem pelo programa da IV Internacional (ROJO, 2002).
Na Argentina, o fato de o caráter e as tarefas da revolução, por ser predominantemente agrária e semicolonial, e o capitalismo nacional (setores agrário e industrial) estarem intimamente ligados entre si e ao imperialismo não possibilita a aliança entre o proletariado nacional e a burguesia nacional, no sentido de mobilizar um movimento nacionalista. Assim, a luta contra o imperialismo acaba também se transformando na luta contra o capitalismo em nível nacional.
Sobre o entrismo no peronismo, realizado pelo GOM e, posteriormente, pelo POR, González (1995 apud ROJO, 2002) assevera que o GOM e sua inserção no âmbito dos obreiros peronistas (sindicatos) em 1945 argumentava que esse tipo de postura se deu em respeito às decisões tomadas pelas bases, que deveria ter autonomia em sua decisão, e essa postura do partido, que fortalece a democracia operária e a independência de classe em relação aos patrões e aos governos.
José Posadas fundou o Grupo Quarta Internacional (GCI) e publicou a Voz Proletária em 194758. Compreende a Argentina como um país de base econômica primário-exportadora dependente do imperialismo e defende que a ascensão da burguesia industrial, produto do processo de industrialização, é uma nova classe em oposição à velha oligarquia agrária. Assim, a burguesia industrial nacional teria conflito de interesses com o imperialismo (inglês e estadunidense). Porém o GCI (“Voz Proletária”) não concorda que a revolução de caráter democrático-burguês estaria nas mãos da burguesia nacional, e o proletariado, aproveitando- se desse conflito entre a burguesia nacional e o imperialismo, impulsionaria a luta revolucionária. Na perspectiva do GCI, o peronismo é um movimento nacionalista burguês, que representa os interesses da burguesia industrial nacionalista, que se apoia no proletariado para impulsionar a política de desenvolvimento industrial, opondo-se ao imperialismo e à oligarquia agrária local. Porém, não acredita que a burguesia argentina seja capaz de lutar contra o imperialismo. O peronismo era o governo da burguesia industrial anti-imperialista. Posteriormente, o pousadismo se converteu em agente ideológico do peronismo (ROJO, 2002).
Para o posadismo e o GCI, o peronismo havia produzido uma pequena transformação social com a substituição, como classe principal, da oligarquia agrária pela burguesia industrial, que era representada pelo peronismo.
Para a Voz Proletária, a burguesia industrial, que domina os sindicatos, usa-os como arma de negociação contra a oligarquia agrária e o imperialismo. Porém a burocratização dos sindicatos também os distanciou da classe operária, que é utilizada contra o imperialismo. Para a Voz Proletária, o caráter e as tarefas do proletariado, para a revolução na Argentina, deveria realizar, de forma combinada, as tarefas nacionais, como a reforma agrária e a socialista, pelo fato de a Argentina ser um país semicolonial, dentro do sistema capitalista em sua fase imperialista (ROJO, 2002).
Jorge Abelardo Ramos (“O Avermelhado”), de linha socialista-nacional, fundou o Grupo Octubre, em 1945, e publicou Octubre a partir de 1946. Ramos afirma que a industrialização nos anos 1930 e 1940 introduziu uma grande transformação na estrutura econômica argentina, que favoreceu a burguesia industrial local, que se desenvolve em contradição com a estrutura existente (agrário-exportadora). O caráter semicolonial da Argentina impõe a tarefa democrático-burguesa para o processo revolucionário tendo como componentes desse movimento nacional o proletariado, o campesinato, a pequena burguesia e a burguesia industrial na luta contra o imperialismo. Ressaltamos que a Octubre de Ramos destaca que a burguesia nacional era incapaz de lutar contra o imperialismo e passou essa tarefa para os trabalhadores. Sobre o peronismo, expressa um movimento nacional que representa os interesses da burguesia nacional em seu enfrentamento contra a oligarquia agrária e o imperialismo no processo de desenvolvimento da industrialização e da burguesia industrial. Enxergava que as massas deveriam apoiar o desenvolvimento burguês liderado pelo peronismo para acelerar a luta de classes. Sobre a burguesia nacional e o imperialismo, a Argentina é um país semicolonial, com uma economia agrária fundamentalmente capitalista e um proletariado industrial altamente concentrado (ROJO, 2002).
Segundo a análise do Octubre, a classe operária e os sindicatos, em conjuntura peronista, apesar de conter elementos burocráticos e estatais (como a CGT), sua sindicalização foi vantajosa para a consecução de uma unidade de classe. Ressalta, também, a necessidade de criar um partido revolucionário dos trabalhadores, o caráter e as tarefas da revolução na Argentina inicialmente são a revolução democrático-burguesa (libertação nacional do imperialismo, revolução agrária e industrial) liderada pelo proletariado em um movimento de libertação nacional. Esses são características do socialismo nacional. Para Coggiola (2006), o grupo de Ramos, com a defesa do socialismo nacional, faz apologia à burguesia argentina.
Assim, na década de 1930 e, principalmente, na de 1940, a Argentina caracterizava-se, econômica e politicamente, pelo aumento da dependência do imperialismo assumindo de vez
seu caráter semicolonial, com as seguintes características: ser um país produtor de matérias- primas e alimentos, desenvolvimento do parque industrial ainda incompleto, dependência de capital externo – com estabelecimento de pactos e compromissos – através dos quais sua soberania era relativizada. O pacto Roca-Rucinam com a Grã-Bretanha é prova disso (ROJO, 2002). O processo de industrialização doméstico reflete a dependência ao capital imperialista externo na forma de capitais e de tecnologias estrangeiras que produzem relações de subordinação da burguesia agrária e industrial com o Imperialismo inglês e estadunidense. Essa análise é refletida nas correntes que já foram descritas quanto ao caráter do desenvolvimento produtivo econômico da Argentina.
Quanto ao Estado Nacional e sua política econômica, o modelo de industrialização por substituição de importações procurava superar a crise do modelo primário exportador (crise do setor agrário argentino). O peronismo emergiu como um movimento nacionalista burguês que tentava se apoiar no proletariado para governar em beneficio da burguesia industrial, do Exército e da burocracia estatal. O peronismo buscou o apoio das classes trabalhadoras na crise burguesa nacional e a ofensiva imperialista (ROJO, 2002).
O nacional-desenvolvimentismo e as teorias da modernização surgiram da crise da hegemonia britânica e de sua divisão internacional do trabalho, que especializava os países centrais em atividades industriais e os países periféricos na produção de mercadorias primário-exportadoras. Ou seja, os países centrais especializados em produtos industrializados (maior valor agregado) e os países periféricos especializados em produtos primários (agrícolas e matérias primas). Assim, o Estado nacional foi redirecionado para impulsionar a industrialização e a modernização tecnológica do país.
O nacional-desenvolvimentismo apontava a industrialização como solução para o desenvolvimento periférico com liderança do estado nesse processo, já que a burguesia nacional era incapaz de liderar e não havia perspectivas de que essa industrialização ocorresse via capital estrangeiro. Para fazê-lo, o Estado teria que estabelecer as políticas de substituição de importações, que visavam internalizar a produção industrial de mercadorias que se consumiam mediante a importação. Tratava-se, então, de substituí-la pela produção nacional. Para isso, seria necessária uma intervenção ativa do Estado no comércio exterior e no controle das divisas obtidas com a exportação, que redirecionasse seu uso de fonte de importação de produtos de consumo para financiar a industrialização nacional.
A modernização proposta pelo nacional-desenvolvimentismo sempre esteve vinculada à liderança do capital estrangeiro no consórcio que ele estabelece com o capital nacional e o Estado. Em 1961, as influências nacionalistas, peronistas e socialistas se juntaram para
construir o Partido Socialista de la Izquierda Nacional (PSIN), manifestada na tática político- eleitoral com a Frente de Izquierda Popular (FIP) em 1971, que iria se repetir em 1973. Para os trotskistas, as tarefas democráticas pendentes devem ser realizadas no processo revolucionário, e quanto à fase de libertação nacional, são
aquelas que, por la época histórica, la burguesía ya no está en condiciones de concluir quedando su resolución en manos del proletariado hegemonizando la alianza con campesinos y sectores populares. Son tareas democráticas la liberación de la nación de la dominación imperialista y la reforma agraria y también la defensa de libertades elementales de los trabajadores, como el derecho a la organización sindical (ROJO, 2012, p.110).
Em 196359, formou-se o Secretariado Unificado da IV Internacional (SU-CI). Os pilares defendidos para a revolução mundial eram: primeiro, fazer a revolução colonial nos países atrasados; segundo, fazer a revolução proletária nos países capitalistas avançados; e por fim, a revolução política nos países controlados pela burocracia soviética. A posição política do SU-CI, de Pablo, defendeu a guerrilha de influência castrista. Essa tática resultou na destruição das seções do SU-CI na América Latina (ROJAS, 2006).
Em 1965, formou-se o Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT), cujo expoente principal era Mário Roberto Santucho. Em 1968, em seu IV Congresso, o PRT dividiu-se entre os defensores da luta armada (o grupo denominado El Combatient, com Santucho liderando) contra o regime de exceção militar e os contrários (agremiação La Verdad). Entre eles, estava Moreno, que iria sair do PRT e fundar o PST. Em 1969, o PRT adotou como orientação a luta armada contra o regime militar argentino. O PRT foi à seção argentina da IV Internacional e, em 1973, o PRT se separou da IV Internacional alegando que ela teria caráter pequeno burguês e pouco proletário.
Na década de 1970, o PRT (grupo El Combatient) participou da luta armada, com a criação do Exército Revolucionário do Povo (ERP), segundo o qual, a luta contra a ditadura fora, inicialmente, a guerra revolucionária pelo socialismo. Esse partido sucumbiria ante o Estado Militar Argentino e, posteriormente, cindir-se-ia em outras organizações políticas.
O PRT (La Verdad) desaguaria no Partido Socialista dos Trabalhadores (PST), em 1972, que se transformaria no Movimento ao Socialismo (MAS) em 1982.
No plano internacional, a conjuntura que antecedeu e influenciou o surgimento do MAS foi marcada pela guerra do Vietnã (confronto entre uma potência imperialista e um país
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Organização que surgiu na reunificação da IV Internacional no Congresso de 1963, depois de sua cisão em 1953, que se dividiu em dois polos: um liderado por Michel Pablo (Secretariado Internacional) e outro, que teve à frente Moreno e Lambert (Comitê Internacional).
semicolonial); pela revolução dos cravos, em Portugal (1974), um país de segunda ordem no capitalismo mundial; e pelo avanço eleitoral da socialdemocracia europeia. Para Liszt (2006), o imperialismo, principalmente o estadunidense, recorreu à tática defensiva da democracia (direitos humanos, eleições livres etc.) devido ao conflito de classes em que eclodia essa tática defensiva que ela denominou de “contrarrevolução democrática” dos anos 1970, posteriormente transformada em ofensiva neoliberal materializada nos governos Reagan (EUA) e Thatcher, na Grã-Bretaña, na década de 1980. A política de contrarrevolução democrática implantada pelos EUA, pela União Europeia e pelo Japão impediu processos revolucionários e findou ditaduras que não serviam mais ao imperialismo. Ou seja, implantou democracias burguesas relativamente estáveis na periferia do capitalismo e aleijou a perspectiva de revolução proletária (LISZT, 2006). A política de contrarrevolução democrática materializava-se no avanço da socialdemocracia europeia com triunfos eleitorais em diferentes países.
No plano nacional, a Guerra das Malvinas (1982) serviu ao governo militar argentino para despistar o foco da ditadura militar, a ascensão do movimento obreiro na CGT, a crise econômica e a mobilização popular de 30 de março. O PST, ainda que não apoiasse o regime militar local, analisou a guerra como um enfrentamento de uma ditadura semicolonial contra uma democracia imperialista, que deveria derrotar o campo imperialista primeiro, consequentemente, e indiretamente apoiando o regime militar. Para Liszt (2006, p.6), “la política del PST se puede considerar en general principista” para a guerra das Malvinas. É principista, por se manter coerente com a perspectiva política de Trotsky - “1º a luta antiimperialista” - porém inconsequentes por darem apoio indireto ao regime militar doméstico. Ou seja, problemas que a condição de guerra impõe à tática e à estratégia socialista. Para Moreno, o triunfo da política pacifista (socialdemocrata), apoiada em diferentes setores da classe média, favoreceu o imperialismo.
A queda do Governo Galtieri (1982), com a perda da Guerra das Malvinas, abriu caminho para a ascensão da “Multipartidaria” (PJ, UCR, MID, PDC e PI) que, junto com o Partido Comunista Argentino, apoiou o regime de transição (ditadura para democracia) de Bignone, que durararia 15 meses. O MAS surgiu com a volta da democracia institucionalista durante o alfonsinismo (1983-1989), alicerçado nos extratos sociais da classe operária: trabalhadores, estudantes e profissionais dos setores populares.
La construcción del MAS, [foi] centrada en la militancia barrial, las afiliaciones, la apertura de locales, las reuniones asamblearias, el apoyo a las
luchas y la distribución del periódico, todo esto desligado de una construcción estructural en el movimiento obrero y con una baja calidad de cuadros, que en general carecían de formación marxista (LISZT, 2006, p.12).
É fato que também existiram acusações de certa posição centrista contra o MAS em seu surgimento. “El MAS fue concebido desde sus inicios como un proyecto centralmente electoral, que se ubicó como ‘pata izquierda’ del régimen transicional de Bignone apoyado en la Multipartidaria” (LISZT, 2006, p.9). Essa passagem demonstra a análise que o MAS faz da conjuntura nacional que também o influencia, nesse caso, a “defesa” da democracia institucionalista e de um governo burguês depois de período de ditadura militar. É importante colocar a influência desse contexto histórico na vigência de um regime político, social, econômico, cultural e ideológico pensado e teorizado pelas diferentes correntes de esquerda e que passam nesse período inerentemente por valores e instrumentos políticos democráticos, em que, incessantemente, devem-se rechaçar quaisquer aspectos do tipo autoritário e totalitarista de governo. Por isso, o MAS edifica seus alicerces na questão do vínculo entre democracia e socialismo e no valor da democracia como centro da transição para o socialismo.
A respeito do governo de transição, o MAS denunciou a estreita relação entre militares e a Multipartidária, cujos partidos que a constituíram “posaram” de opositores do regime militar para se fortalecer em relação à opinião pública. O MAS foi a expressão da esquerda argentina no fim da década de 1980. Em 1989, transformou-se no maior partido trotskista do mundo (ROJAS, 2006) e com relativa força eleitoral na Argentina – para um partido de caráter revolucionário e socialista – e fez um parlamentar no Poder Legislativo nacional, Luís Zamora. Porém, desde 1988, começou a se fragmentar em outras organizações políticas. Várias divergências auxiliaram essa “diáspora”, dentre elas, destacamos a política de alianças eleitorais, com a coligação com o PCA. Alguns desses grupos que saíram do MAS continuaram se reivindicando morenistas: o Partido dos Trabalhadores pelo Socialismo (PTS)60, a Liga Socialista Revolucionária, a União Socialista dos Trabalhadores (UST), o Partido Revolucionário Socialista (PRS), a Convergência Socialista (CS), o Movimento Socialista dos Trabalhadores (MST), que se mantém unificado mas com duas tendências importantes: a MST-AS (Alternativa Socialista) ou MST-UNITE-NE - e o outro grupo,