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A conjuntura político-social da década de 1970 era marcada por ditaduras repressoras e movimentos de libertação popular. Em Florianópolis, segundo Scherer-Warren e Rossiaud (1999:36), somente a partir de 1978, é que a sociedade civil se revitaliza. Novas formas de associativismo civil serão implementadas, através do novo sindicalismo, da nova esquerda e da igreja progressista.

A partir dos anos 70, a Igreja Católica começa um período de grande apoio às lutas e aos direitos populares, centralizando maior atenção no campo dos direitos humanos. Na década de 70, a Igreja brasileira mostrou-se como uma das mais progressistas de toda a América Latina. Conforme Pe. José Oscar Beozzo (1985:136-141), nesta época a Igreja iniciou um compromisso crescente com as lutas populares que ocuparam o centro das suas preocupações, principalmente no vasto campo dos direitos humanos contra a tortura e os abusos contra a ordem jurídica. Os regionais da CNBB, em número de treze, ganharam maior autonomia, enraizando uma ação de Igreja mais adaptada aos problemas de cada região. Por exemplo, no nordeste, a crítica da Igreja dirigiu-se às condições de miséria da população, agravada pela industrialização forçada e pelo descaso com o campo, à concentração da renda e aos desequilíbrios regionais. Em 1973, o CIMI (Conselho Indigenista Missionário) veio dar grande alento à luta pelo índio, pela sua cultura e sobretudo por sua terra. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) estendeu a luta pelas terras indígenas à luta por um pedaço de chão por parte de todos os deserdados da terra: camponeses e posseiros, bóias-frias, peões e favelados da cidade.

Ainda segundo Beozzo, a partir de 1977 a questão dos trabalhadores e seus direitos encontraram uma Igreja aberta e solidária com a classe operária. Mas nos mesmos anos em que boa parte da Igreja empenhou-se por uma pastoral popular, pela atuação social e política da Igreja, não deixaram também de crescer dentro da Igreja Católica, principalmente nos setores de classe média, movimentos e grupos voltados para um mais ou menos radical espiritualismo. A visita de João Paulo II, em 1980, confirmou de um lado as opções da Igreja

Escrito a partir de entrevistas com as irmãs da Fraternidade Esperança, mais especialmente com a Irmã Emília e consulta ao texto Novos Estilos de Vida Religiosa Comunitária, produzido pelas irmãs da Fraternidade Esperança para um encontro de religiosas no México em abril de 2000.

do Brasil, através de seu nítido apoio à atuação da CNBB e de seus discursos aos camponeses em Recife e aos trabalhadores em São Paulo, mas por outro lado abriu também uma tensão latente ao longo destes anos onde se fazia o questionamento se não teria a Igreja no Brasil deixado de lado sua missão estritamente religiosa, dedicando-se em demasia às questões de ordem temporal. Na sua terceira visita ao Brasil em 1991, o propósito era envolver os fiéis

mais profiindamente na vida religiosa para transformar a Igreja numa sólida organização teológica, deixando claro que o clero não deveria se envolver em lutas sociais (R e v is ta M a n c h e te 04/10/1997:26).

Esta mudança acentuada no posicionamento do Papa João Paulo II começa a partir dos anos 80, quando afirma que: a Igreja não deve se envolver em questões sociais em detrimento de sua missão especificamente religiosa.^^ O Papa começou de fato a tomar muitas medidas no sentido contrário ao movimento das Igrejas populares como a dividir dioceses, fechar seminários e punir muitos teólogos. Toda essa tendência passa a se radicalizar muito rapidamente nos anos 90, quando o alto clero da Igreja Católica marca uma volta atrás em nome da contenção do excesso de racionalismo nas CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) e passa a adotar uma linha que era considerada mais voltada para a espiritualidade.

A Igreja Católica começa à retrair-se em relação a Teologia da Libertação, sua opção preferencial pelos pobres e seu intenso e amplo trabalho nas Comunidades Eclesiais de Base, nas décadas de 70 e 80, voltando-se para a evangelização e para o espiritual. O Pe. José Oscar Beozzo, em entrevista ao Jornal Folha de São Paulo (26/07/1995 - Cademo 1:10) faz o balanço dos últimos 50 anos da Igreja, apontando quatro principais marcas neste período: 1°) Quebra do monopólio da Igreja Católica e a emergência do pluralismo religioso; 2“) As igrejas tomaram consciência da injustiça e da pobreza. Entraram nisso não só para denunciar como para procurar saídas. Tivemos essa onda de ditaduras militares em todo o continente, onde a igreja acabou por tomar uma posição frontal contra esses regimes e de apoio a um processo de redemocratização. Antes, os sujeitos religiosos eram o bispo, o padre, o cardeal, e a partir dos últimos 50 anos que se passaram houve uma emergência popular; 3°) a maior participação das mulheres nos movimentos da Igreja, principalmente nos populares; e, 4°) a aculturação da Igreja: ao se enraizar no popular ela (a Igreja) renasce com novos valores. Com a Conferência Episcopal Latino-americana em Puebla no México de 1979, foi confirmada na

No entanto, conforme Gari Bernstein (1996), em seu livro 'Sua Santidade - João Paulo II e a História Oculta de Nosso Tempo', afirma que houve uma aliança entre a CIA na administração de Ronald Regan nos anos 80 e o Vaticano, para ajudar o sindicato polonês Solidariedade, o que precipitou o fim ou mudanças dos regimes socialistas fortes.

Teologia da Libertação a opção pelos pobres e vários setores da igreja optam por viver essa teologia.

E nessa conjuntura que surge a Fraternidade Esperança. Um grupo de religiosas que em 03 de setembro de 1978 optou por separar-se da congregação de origem: a Congregação das Irmãs da Divina Providência - Província do Coração de Jesus, com sede em Florianópolis. A ruptura ocorreu em virtude de divergências irreconciliáveis sobre o estilo de vida religiosa a ser adotado. Durante vinte anos, nas décadas de 60 e 70, houve uma evolução constante, gradativa e acentuada, na mente de grande número de religiosas sobre a maneira de conceber e viver a vida consagrada. Porém, a congregação de origem optava pela linha tradicional, enquanto que a nova congregação optava pela encarnação na realidade, que significava opção pelos pobres, baseada na Teologia da Libertação.^'* Essa encarnação acontece literalmente. Estas irmãs passam a residir nos meios populares - favelas, morros, bairros mais pobres - vivenciando a vida das pessoas mais necessitadas e buscando soluções junto com as mesmas. Fantin (1997:168) considera, que neste caso, a igreja viveu uma das formas mais radicais de opção pelos pobres. Ribeiro salienta a importância dessas religiosas, inseridas nos meios populares:

A presença inserida destas jovens e senhoras, que radicalizaram suas vidas por Deus, começa a falar de modo novo aos cristãos pobres, que passaram a ver nelas a solidariedade de Deus em seus caminhos de forma palpável. A presença delas nesses meios populares - além da ação pastoral desenvolvida com gratuidade - já é eloquente evangelização (Ribeiro, 1988:191).

As irmãs da Fraternidade Esperança tentam desencadear um processo de desenvolvimento, apoiando e integrando iniciativas e organizações populares: caminhar com

o povo, colaborando para acordar e desenvolver em cada uma e cada um o seu próprio potencial (Documento Novos Estilosde Vida Religiosa, 2000:03). Na ótica da Fraternidade

Esperança, sua missão evangelizadora se faz a partir da missão de Jesus Cristo.

Segundo as irmãs, as fontes de espiritualidade foram: a Bíblia; o Concilio Vaticano II (1962-1965); o documento de Medellin (1968); a Teologia da Libertação e a opção pelos pobres que se clareava às vésperas da conferência de Puebla (1979).0 Concilio Vaticano II acarretou mudanças profundas, tanto na doutrina como na organização e atitudes da Igreja Católica, marcando sua atualização em relação à chamada sociedade moderna e sua abertura para uma estrutura menos centralizada e mais colegial no governo da igreja, com evidentes repercussões no Brasil (Arnse Beozzo, 1985:133).

A Irmã Emília, em entrevista, informou-nos que já antes da ruptura algumas irmãs da futura Fraternidade Esperança procuraram trabalhar a questão da socialização da educação no Colégio Coração de Jesus, onde atuavam. Algumas irmãs já trabalhavam com comunidades carentes como por exemplo a Irmã Bete no Morro do Mocotó, Irmã Flávia na Caeira do Saco dos Limões e Irmã Neves na Ponte do Imaruí.

As Irmãs Emília, Benilda e Lídia decidiram (1978) atuar na localidade chamada Covanca, hoje Vila Aparecida.^^ Quando formaram a Fraternidade Esperança, mudaram-se para esses locais trabalhando com o povo. Visitando famílias faziam o levantamento das necessidades. Era o tempo da ditadura militar, não haviam creches, postos de saúde para os pobres e desassistidos. Iniciaram o trabalho com o apoio de amigos (ex-professores e professores do Colégio Coração de Jesus).

Na Vila Aparecida as irmãs iniciaram os trabalhos com o apoio da sociedade Alfa- Gente,^*’ com uma creche que atendia aproximadamente 150 crianças de dois a seis anos. Nesse local uma pessoa da comunidade já auxiliava os trabalhos e após cinco anos já haviam várias pessoas da própria comunidade atuando em prol da mesma. O trabalho não se restringia à creche. Também buscavam a conscientização da comunidade, trabalhando com esta e orientando vários temas como: saúde em geral e infantil (havia muita mortalidade infantil), higiene pessoal (cuidados com piolho, bicho-do-pé...), educação ambiental e a questão da evasão escolar. Enfim procuraram atuar em vários pontos para a melhoria da comunidade com o auxílio de voluntários, pais e professores. As irmãs se inseriram em várias comunidades, assumindo e participando em tarefas concretas tais como: grupos de saúde - mulheres e crianças; apoio aos indígenas, assentados e posseiros; educação popular - alfabetização de adultos; pastoral da juventude, catequese e grupos de liturgia, escola bíblica e Comunidades Eclesiais de Base; assessorias para formação de lideranças; assistência ao povo de rua, catadores de papelão, menores em liberdade assistida. As irmãs passaram a desenvolver trabalhos em várias comunidades como Mont Serrat, Saco dos Limões, Morro do Mocotó, Morro da Caixa - continente. Morro do Flamengo, Vila Aparecida, e Ponte do Imaruí em Palhoça. Procuravam mobilizar a população em trabalhos comunitários, como creches, postos de saúde, conselhos comunitários, participação em movimentos de educação popular. Nestas

- Depois de levarem à Prefeitura muitos pedidos e abaixo assinados, conseguiram a obtenção de melhorias e mudar o nome do local para Vila Aparecida.

A sociedade Alfa-Gente foi uma importante entidade que contribuiu nos anos 70 e 80 de forma diferenciada, com muitos trabalhos realizados nos bairros mais pobres da cidade (Fantin, 1997:166).

tarefas, as irmãs contavam com o trabalho voluntário de alguns profissionais, estudantes e pessoas das próprias comunidades, tendo contribuído significativamente para a organização das mesmas, nas lutas por suas necessidades básicas. Atualmente, além de outras cidades e estados, atuam em Florianópolis no Morro do Mocotó, no Morro da Caixa, na Vila Aparecida e no Chico Mendes. E na grande Florianópolis em Forquilhinhas - São José; na Ponte de Imaruí - Palhoça; e em Biguaçú.

Pouco tempo após a formação da congregação, espalharam-se por outras comunidades. Em 1979, pelas dioceses de Tubarão, Florianópolis e Joinville (SC); Bragança Paulista (SP) e Crateús (CE), além da participação no Projeto Igrejas Irmãs^’ entre Santa Catarina e Bahia. Em 1980, iniciaram as comunidades na periferia de São Paulo. Em 1989, abriram uma nova frente missionária na diocese de Ji-Paraná (RO e MT). Em 1993 iniciaram a primeira participação em uma comunidade na periferia de Belo Horizonte. Em 1999, iniciaram os trabalhos em uma comunidade de João Pessoa, na Paraíba. A coordenação central da Fraternidade Esperança está atualmente em Forquilhinhas, São José (SC).^*

Faz vinte anos que estas irmãs abnegadas, vivem no meio popular, de maneira simples, sem acúmulo de bens materiais, ensinando e aprendendo com o povo. Sendo presença de gratuidade e escuta, em uma nova expressão de espiritualidade e consagração. Na avaliação dos dez anos de caminhada, as irmãs da Fraternidade Esperança, presentes em Crateús - CE, expressaram essa vivência:

A partir desta convivência, Deus e o povo passaram a ser duas forças permanentes em nossa vida. Quanto mais fomos mergulhando no povo, mais o povo nos ajudou a buscar Deus, mais sentimos a necessidade de carregar o povo dentro de nós. Nesta experiência de povo e de Deus, fo i acontecendo uma gestação nova de Vida Religiosa e de Espiritualidade. A vida religiosa significava para nós um processo de identificação progressiva entre nossa vida e a vida de Jesus que se fa z presente na vida e na pessoa dos pobres. Neste contexto, o chamado ao seguimento de Jesus é sempre uma resposta de serviço fraterno e solidário com os mais empobrecidos (Do c u m e n t o Novos Es t il o s DE Vid a Re l ig io s a, 2 0 0 0 :8 ).

Consistia em ajuda econômica e preparação de irmãs voluntárias para atuarem na Bahia

A intenção é mudar a casa central para São Paulo, pois atualmente o maior número de vocações se dá no norte e nordeste.

A experiência religiosa da comunidade Chico Mendes e