O marco histórico legal de maior relevância na progressiva e constante proteção do consumidor constituiu-se na promulgação, em 1990, da Lei 8.072 – o Código de Defesa do Consumidor (CDC). Configurou-se, na ocasião, no
ápice de um processo histórico-social, cujos principais passos serão, a seguir, legislativamente destacados.
À semelhança do que ocorreu no resto do Mundo, identificam-se no passado da Sociedade brasileira ensaios dessa tutela legal das relações de consumo, sem a conotação que o Direito atual lhe dá.
Talento (2000 apud FILOMENO, 2005, p. 3-4) reporta a existência de normas no Brasil dos idos de 1625, em Salvador. Na legislação decorrente das posturas municipais daquela época vê-se a regulação de inúmeras condutas comerciais, inclusive estabelecendo penas ao comerciante infrator; tais normas destinavam-se à proteção do consumidor, seja obrigando a mostra ostensiva dos preços dos produtos a serem comercializados, seja proibindo práticas abusivas.24
A produção legislativa e a criação de organismos governamentais e privados voltados para a regulação das relações de consumo, como no resto do mundo, vieram a se desenvolver com mais pujança e especialização a partir do século XX. Uma síntese histórico-legislativa leva a que se vislumbrem as principais
normas protetivas do consumidor – algumas ainda em vigor – desde seus
primórdios até o advento da Lei n. 8.078 de 11 de setembro de 1990. A relação a seguir apresentará, de forma objetiva e em ordem cronológica crescente, tais normas:
- o Decreto n. 22.626 de 7 de abril de 1933 – a Lei da Usura – reprimia o crime de usura; a Constituição Federal de 1934, nos artigos 115 e 117 estabeleceu normas de proteção à economia popular;
- os Decretos-lei n. 869 e 9.840, respectivamente, de 18 de novembro de 1938 e de 11 de setembro de 1946, tipificaram e estabeleceram as penalidades para os crimes contra a economia popular;
24
O jornalista Biaggio Talento, tomando por fonte o Arquivo Histórico de Salvador, publicou no jornal “O Estado de São Paulo” matéria onde, com maiores detalhes, demonstrou a preocupação das autoridades coloniais de Salvador, no século XVII, em regular o comércio vigente. (FILOMENO, 2005, p. 3-4).
- a Lei n. 1.521, de 26 de dezembro de 1951, alterou dispositivos da legislação vigente sobre crimes contra a economia popular;
- adiante, a Lei n. 4.137, de 10 de setembro de 1962 – Lei Antitruste – regulou
a repressão ao abuso do Poder Econômico, e criou o então Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) no Ministério da Justiça (MJ);
- facultando ao jurisdicionado, e por ato reflexo, aos consumidores, instrumento processual mais consentâneo com demandas de pequeno valor, foi sancionada a Lei n. 7.244 de 7 de novembro de 1984, que dispunha sobre a criação e o
funcionamento do Juizado Especial de Pequenas Causas – mais tarde
revogada pela Lei n. 9.099 de 26 de setembro de 1995;
- disciplinando a ação civil pública de responsabilidade por danos causados ao meio-ambiente, ao consumidor, a bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico, adveio a Lei n. 7.347, de 24 de julho de 1985, poderoso instrumento de tutela dos interesses difusos, como os do consumidor;
- o decreto n. 91.469, de 24 de julho de 1985, sucessivamente alterado pelos decretos n. 92.396, de 12 de fevereiro de 1986, e n. 94.508, de junho de 1987,
criou o Conselho Nacional de Defesa do Consumidor (CNDC) – substituído,
mais tarde, pelo Departamento Nacional de Proteção e Defesa do Consumidor
(DNPDC) – órgão integrante da estrutura básica do MJ e com jurisdição em
todo o território nacional, com a finalidade de assessorar o Presidente da República na formulação e condução da política nacional de defesa do consumidor, bem como zelar pelos direitos e interesses dos consumidores;
- encerrando este histórico legislativo da defesa do consumidor, tem-se a constituição Federal de 1988. O art. 5º, XXXII, estabeleceu ao Estado o dever da “defesa do consumidor”; o art. 24, VIII, atribuiu competência concorrente para legislar sobre “responsabilidade por danos [...] ao consumidor [...]”; o art. 170, V, fixou a defesa do consumidor como um dos princípios da ordem econômica; o art. 48 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias determinou que se elaborasse codificação destinada à defesa do consumidor
no prazo de cento e vinte dias a partir da promulgação da Constituição. (ALMEIDA, 2006, p. 9-10).
Como se pode deduzir da produção legislativa brasileira, a Sociedade, de forma tímida, somente a partir dos anos 1970 despertou para uma tutela
consumerista mais efetiva. Ao mesmo tempo em que ampliava
progressivamente o aparato legal de defesa do consumidor, desenvolveu
organismos, sejam públicos – como os já citados CADE, CNDC, e DNPDC,
sejam privados. Na esfera privada e estadual é desejável que se destaque, além dos já referidos: a criação do Conselho de Defesa do Consumidor, no Rio de Janeiro, em 1974; em 1976, a constituição da Associação de Defesa e Orientação do Consumidor, em Curitiba, a organização da Associação de Proteção do Consumidor, em Porto Alegre, RS, e a criação, pelo Governo de São Paulo, do Sistema Estadual de Proteção ao Consumidor. (CAVALIERI FILHO, 2008b, p. 7).
O Plano Cruzado, plano econômico governamental instituído em 1º de março de 1988 e destinado a corrigir, com instrumentos heterodoxos, o desarranjo da economia daqueles tempos, alterou a moeda, congelou os preços e os salários, subordinando-os a um gatilho. O fracasso do plano e suas conseqüências econômicas alcançaram os consumidores, abalando-os, levando a que desenvolvessem clamor por seus direitos lesados e aguçassem seus interesses pela solução das eventuais lesões decorrentes desses desarranjos da Economia.
Comparando a gênese do consumerismo pátrio com a alienígena, vê-se que a defesa do consumidor aportou com tardança no Brasil, visto que tomou corpo somente a partir da sua codificação em 1990. Os legisladores, instigados pela Constituição Federal de 1988, com a Lei n. 8.078/90 – o CDC – cumpriram, em mora, a determinação da Lei maior nesse sentido. Todavia, a inspiração no direito comparado, a atividade criadora dos juristas autores do anteprojeto, e o processo legislativo que culminou com a promulgação do CDC, promoveram um instrumento legal dotado de elevada qualidade e completude.
O Direito Consumerista Brasileiro que se consolidou no texto da Norma Maior no art. 5º, como resultado da evolução doutrinária nacional, passou a compor o sistema jurídico pátrio, também na legislação infraconstitucional. Por sua importância, topografia e em conformidade com a classificação adotada, deve
ser entendido como “direito fundamental”. É sob essa perspectiva que serão
abordados o seu conteúdo legal, os conflitos derivados das relações de consumo, os óbices ao exercício desses direitos e os contributos para uma melhor solução das lides.