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2.1 VIOLÊNCIA CONTRA CRIANÇA

2.1.1 Breve histórico

Ao longo da história da humanidade o abuso na infância sempre existiu. Observa-se uma diversidade de tratamentos oferecidos às crianças, segundo as épocas e civilizações. Na época dos fenícios, em Tiro e Sidon, moravitas e amonitas sacrificavam crianças para acalmar os deuses. Esses povos adoravam o deus Moloch, cuja imagem era construída em bronze e com o interior vazio, oco, no qual colocava-se combustível. Quando estava bem aquecido, colocavam-se aí as crianças vivas para pedir clemência. No Egito, todo ano uma jovem era afogada no rio Nilo para que ele transbordasse e fertilizasse as terras. Na Palestina acreditava- se que a fumaça da combustão das crianças acalmava a ira dos deuses, razão pela qual os reis de Judá sacrificavam seus filhos. Não obstante, a violência perpetrada contra as crianças na China quase chegou aos nossos dias. As meninas eram levadas ao anoitecer às portas das cidades para saciar os lobos famintos (FERRARI; VENCINA, 2002, p. 46).

Por muito tempo, o uso de crianças em práticas sexuais também esteve intensamente presente na China. As crianças eram vendidas para a prostituição, usadas como escravas ou servas sexuais. Era comum o concubinato infantil, bem como a pederastia de garotos. Relata ainda a autora que garotos eram castrados para se tornarem eunucos sexuais. As garotas tinham os pés atados, os quais eram moldados de modo que representassem a flor de lótus, e ao mesmo tempo, tivessem a aparência de um pênis substituto que seria utilizado como fetiche durante o abuso sexual (SANDERSON, 2005, p. 9).

No Oriente Médio aconteciam casamentos de crianças, incluindo casamentos entre irmãos (no Egito), concubinato infantil, escravidão sexual e prostituição nos templos, tanto de garotos quanto de garotas. Em muitos países, a masturbação é decretada como necessária para aumentar o tamanho do pênis, havendo incentivo para os irmãos mais velhos estimularem as genitais de bebês, e que as crianças maiores juntem-se às menores para masturbação mútua, felação e coito anal. As mulheres eram mais sexualmente abusadas do que os homens, o que reflete a falta de valor e de status delas nessas culturas (SANDERSON, op cit, p. 9).

Cezar (2007, p. 22) ensina que, no Direito Romano a “pátria potestas” (poder do pai sobre a prole) permitia ao chefe de família vender e matar sua prole, que constituía sua propriedade.

Mause (apud SANDERSON, op cit. p. 6) relata que na Grécia e em Roma, durante o século IV, as filhas eram comumente estupradas e raramente havia garotas com o hímen intacto. Os meninos eram entregues a homens mais velhos a partir de 7 anos até a puberdade, o que ocorria com 21 anos. Crianças eram vendidas para escravidão sexual em bordéis de crianças ou crianças do sexo masculino que ganhavam a vida como garotos de aluguel.

Badinter (apud CEZAR, 2007, p. 24) criticou a realidade de sua época:

Tratais vossos filhos como esses tratam suas bonecas. Diverti-vos com eles enquanto são engraçados, ingênuos e dizem coisinhas divertidas. Mas quando têm idade e se tornam sérios, não vos interessam mais. Vós os abandonais como se abandonam as bonecas

Relata ainda Cezar (op cit. p. 23) que de uma forma geral, não se reconhecia a existência da infância e da adolescência como momentos importantes do desenvolvimento de cada pessoa. A infância durava até o seu período mais frágil. Assim que a criança adquiria um desenvolvimento físico, era colocada entre os

adultos como se fosse um deles, partilhando de seus trabalhos e jogos. “De criancinha pequena, ele se transformava imediatamente em homem jovem, sem passar pelas etapas da juventude”.

Foi no final do século XVII, com as reformas humanísticas, religiosas e políticas, as quais precederam as mudanças de atitude em relação ao abuso sexual em crianças, que a violência contra as crianças passou a não ser mais tolerada pela sociedade. A família começou a se organizar em torno da criança e lhe dar a importância necessária. Limitou-se o número de filhos para que fossem melhores cuidados. Com a escolarização, surgiu uma preocupação com as diferentes etapas da vida do ser humano, entretanto não significou o fim dos maus-tratos e abusos sexuais contra crianças, tendo em vista que diferentes práticas culturais os consideram normais e totalmente aceitos na educação das crianças (ARIES apud CEZAR, 2007, p. 22-23).

Relata Mause (apud SANDERSON, 2005, p. 8-10) que ainda há práticas culturais do abuso sexual em crianças. Segundo o autor, em muitas partes da Índia, meninas e meninos são masturbados, para que elas “durmam bem” e eles se tornem mais másculos. Há naquele país o seguinte provérbio: “Se uma garota ainda é virgem aos 10 anos, é porque ela não tem nem irmãos, nem primos, nem pais”, revelando que o incesto é a regra e não a exceção. Casamentos de crianças são considerados pela grande maioria como perfeitamente normais. Crianças são vendidas como noivas para homens bem mais velhos, o que caracteriza uma forma de escravidão sexual. No Oriente Médio é comum a mutilação genital feminina (excisão genital feminina), a qual é considerada um rito de iniciação, com fortes significados religiosos e culturais. Acredita-se que cerca de dois milhões de mulheres por ano são submetidas à excisão genital. Essa prática também acontece nos Estados Unidos e na Europa, porém é considerada ilegal. Na África é difundida a prática de abuso sexual em crianças ainda virgens, pois acredita-se que o ato sexual com uma criança impede o contágio pelo vírus da AIDS.

Como se observa, o abuso sexual é difundido em todo mundo e este atentado contra as crianças tem acontecido diariamente de diversas formas. Diante do todo exposto, seguem no próximo tópico algumas concepções quanto ao abuso sexual.

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