CAPÍTULO II- FORMAÇÃO DE PROFESSORES: O CURRÍCULO DO CURSO
2.1 Breve panorama acerca do curso de Pedagogia
Entendemos que Pedagogia é uma práxis que integra, articula e transversaliza conhecimentos e processos de outros campos científicos que contribuem para a produção de novas epistemologias a partir do seu objeto, que é a sua pratica educativa (BRETAS, 2009).
O curso de Pedagogia no Brasil foi instituído através do Decreto nº 1.190 de 1939, com o objetivo de formar bacharéis e licenciandos para diversas áreas inclusive as pedagógicas, num esquema conhecido de “3+1” em que as disciplinas pedagógicas durariam um ano, e as disciplinas de conteúdo três anos. O curso de Pedagogia foi criado com a função prioritária de formar professores das disciplinas especificas do curso normal e o bacharel em pedagogia (técnico em educação), ou seja, nos seus primórdios o currículo estava organizado de modo a manter a dicotomia entre conteúdo e método.
Em sua primeira reformulação em 1962 o currículo do curso sofreu pequenas alterações, por ser considerado pelo relator Valnir Chagas, um curso com fragilidades, assim fixou a duração do curso de Pedagogia e o Currículo mínimo. A época não estava definida o que seria próprio para a formação do bacharel e do licenciando, não havia uma clareza quanto ao profissional que o curso formaria nem o seu campo de trabalho. No período da ditadura militar a escola passou a ser vista como espaço operacional para
preparação para o trabalho, para o desenvolvimento econômico e segurança nacional. Então o foco dos currículos de formação passou a caminhar seguindo essa lógica.
Traços da Reforma Universitária, Lei Federal nº. 5.540, de 28 de novembro de 1968, fizeram- se presentes no Curso de Pedagogia. Por meio do Parecer/CFE nº. 252/69 foi abolido a diferenciação entre bacharelado e licenciando, porém, manteve a formação de especialistas nas várias habilitações específicas como supervisão, orientação, administração e inspeção. O parecer 252/69 trouxe grandes repercussões, inclusive indagações quanto à neutralidade do caráter técnico da educação, das habilitações e da atuação dos especialistas.
Os Pareceres seguintes direcionados pelo mesmo relator Valnir Chagas, de caráter tecnicista, demonstrava que o objetivo era dividir o trabalho em docente e não docente. E em 1970, predominou a teoria do capital humano6, concebendo a educação apenas na dimensão econômica, reforçando a tendência tecnicista da educação.
Com a crescente necessidade de se repensar o curso e definir o perfil do pedagogo, o movimento dos educadores em defesa da escola pública e da reforma universitária realizou o primeiro grande evento que marcou essa nova fase. Em 1978 realizou-se o I Seminário de Educação Brasileira, organizado pela Universidade de Campinas- UNICAMP. Segundo Brzezinski, (2006) nesse seminário afloraram mais o dissenso do que o consenso, muito mais as dúvidas do que as soluções tornando ainda mais frágil a identidade do curso de Pedagogia.
Os anos de 1980 período de grande efervescência e atuação dos movimentos dos educadores foi realizado a I Conferência Brasileira de Educação na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) e nesse evento foi criado o Comitê Nacional de Pró Reformulação dos cursos de formação de Educadores, que posteriormente se transformou na Associação Nacional para a Formação Profissional de Educadores (ANFOPE).
No I Encontro Nacional de Belo Horizonte (1983), que discutiu a “Reformulações dos Cursos de Preparação de Recursos Humanos para Educação”, a discussão central girou em torno de uma base comum nacional (Pedagogos e demais licenciados) para a formação de todos educadores, definida como “todos são professores”, a docência como base da identidade profissional de todo professor. Os encontros seguintes trilharam nessa linha, e finalmente depois do II Encontro Nacional consolidaram-se as propostas de
6 Teoria formalizada pelo professor de Economia da Universidade de Chicago Theodore W. Schultz em
1950. Segundo Shultz (1971) o trabalho humano quando qualificado pela educação, era um dos meios mais importantes para a ampliação da produtividade econômica e consequente elevação das taxas de lucro do capital. Nesse sentido a Educação era vista como pressuposto do desenvolvimento econômico.
estruturação do curso e à docência passou a ser considerada como a base da identidade do Pedagogo. A LDBN reforça essa a identidade do Pedagogo da seguinte maneira:
Art. 62 A formação de docentes para atuar na educação básica far-se- á em nível superior, em curso de licenciatura, de graduação plena, em universidades e institutos superiores de educação, admitida como formação mínima para o exercício do magistério na educação infantil e nas quatro séries do ensino fundamental, a oferecida em nível médio, na modalidade Normal.
Art. 64 A formação de profissionais de educação para administração, planejamento, inspeção, supervisão e orientação educacional para a educação básica será feita em cursos de graduação em pedagogia ou em nível de pós-graduação, a critério da instituição de ensino, garantida, nesta formação, a base comum nacional (LDBN nº. 9394/96).
Assim, foi reafirmada a base da identidade do curso para a docência a ser realizado tanto em Universidades e Institutos superiores, e também as funções do Pedagogo para supervisão, planejamento, orientação educacional, administração. Pós LDB 9.394/96, uma comissão de professores de várias IES espalhadas pelo país juntamente com entidades do campo educacional (ANPEd, ANFOPE, etc) que encaminhou ao CNE a proposta de Diretrizes Curriculares da Comissão de Especialistas de Pedagogia. Muitas foram às resoluções e pareceres quanto a essa questão e somente em 2005 foi aprovada as DCNs para o curso de Pedagogia, reformulada em 2006 na qual consta que:
Art. 4. O Curso de Licenciatura em Pedagogia destina- se à formação de professores para exercer funções de Magistério na Educação Infantil e nos Anos Inicias do Ensino Fundamental, nos cursos de Ensino Médio, na modalidade Normal, de Educação Profissional na área de serviços e apoio escolar e em outras áreas nas quais sejam previstos conhecimentos pedagógicos.
Parágrafo único. As atividades docentes também compreendem participação
na organização e gestão de sistemas e instituições de ensino, englobando:
I planejamento, execução, coordenação, acompanhamento e avaliação de tarefas próprias do setor da Educação;
II planejamento, execução, coordenação, acompanhamento e avaliação de projetos e experiências educativas nãoescolares;
III produção e difusão do conhecimento científico tecnológico do campo educacional, em contextos escolares e não escolares (RESOLUÇÃO CNE/CP nº 1/2006).
Assim, as DCNs tratam o perfil do pedagogo e trazem à questão da docência como base da formação e a carga horária superior às demais licenciaturas – no mínimo 3.200 horas. O Curso de Pedagogia será composto por três núcleos: um núcleo de estudos
básicos, um núcleo de aprofundamento e diversificação de estudos e, por último, um núcleo de estudos integradores.