3.3 O caso mais recente de desjudicialização: o processamento do
3.3.1 Breve panorama sobre o direito material da usucapião
Para estudar a usucapião, antes, se faz necessário verificar a ideia de propriedade, considerando que essa é o objeto de aquisição por meio da usucapião. De acordo com Caio Mário da Silva Pereira,
Não existe um conceito inflexível do direito de propriedade. Muito erra o profissional que põe os olhos no direito positivo e supõe que os lineamentos legais do instituto constituem a cristalização dos princípios em termos permanentes, ou que o estágio atual da propriedade é a derradeira, definitiva fase de seu desenvolvimento. Ao revés, evolve sempre, modifica-se ao sabor das injunções econômicas, políticas sociais e religiosas. Nem se pode falar, a rigor, que a estrutura jurídica da propriedade, tal como se reflete no nosso Código, é a determinação de sua realidade sociológica, pois que aos nossos olhos e sem que alguém possa impedi-lo, ela está passando por transformações tão substanciais quanto aquelas que caracterizaram a criação da propriedade individual, ou que inspiraram a sua concepção feudal.
(...)
Fixando a noção em termos analíticos, e mais sucintos, dizemos, como tantos outros, que a propriedade é o direito de usar, gozar e dispor da coisa,
45 Termo que advém do latim usu + capio, que significa ―tomada pelo uso‖, a qual também é intitulada ―prescrição aquisitiva‖.
e reivindicá-la de quem injustamente a detenha. E ao mesmo tempo nos reportamos ao conceito romano, igualmente analítico: dominium est ius utendi et abutendi, quatenus iuris ratio patitur.46 (2014, p. 67 e 75)
A partir do conceito supracolacionado, é possível compreender o instituto da usucapião como aquisição originária de propriedade, ou seja, não há aquisição de um bem por meio de uma transação (PEREIRA, 2014). A aquisição por usucapião pode ser de um bem sem proprietário anterior ou de ―[...] bens que ainda têm dono. No que se refere aos bens que ainda têm dono, o prazo para usucapião corre até que se complete. Completando-se, nasce o direito do usucapiente e desaparece o direito do que até esse momento foi dono‖ (MIRANDA, 1999, p.151), pois não há de se considerar a propriedade em condomínio entre o usucapiente e o proprietário anterior. Deve-se entender, portanto, que a usucapião é uma aquisição originária de propriedade, pois não há sucessão, nem um direito nasce do outro. Um direito [do usucapiente] nasce após o outro [do antigo proprietário], sem continuidade. Temporalmente, um começa onde o outro acaba, exatamente porque aquele nasceu.‖ (MIRANDA, 1999, p. 151).
O ordenamento jurídico prevê alguns requisitos gerais para que seja configurada a aquisição da propriedade por meio da usucapião, haja vista que essa é uma aquisição originária, onde o usucapiente, aquele que irá pleitear o reconhecimento da usucapião, será reconhecido como o proprietário do bem, sem que haja uma transmissão de propriedade, ou seja, o objeto terá uma propriedade original, livre e sem quaisquer ônus.
A usucapião poderá ser um direito material reivindicado pelo proprietário de bem móvel ou imóvel, no entanto, para esta investigação acadêmica, limitam-se os estudos apenas no que tange à usucapião de bem imóvel, uma vez que a desjudicialização ocorreu por meio do CPC/2015 para reconhecer especificamente o direito sobre esse tipo de bem.
Consoante leciona Pontes de Miranda, os pressupostos comuns às espécies de usucapião devem existir na coisa que deve ser usucapível, posse própria e tempo (MIRANDA, 1999, p. 154). No entanto, é preferível adotar como os
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Em sua obra, o autor não traz a tradução da expressão em latim, a qual se consigna apenas a título de informação como sendo ―O domínio é o direito de usar, fruir e dispor do que é seu, quanto o permite a razão do direito.‖ (Tradução livre).
requisitos gerais para a aquisição de propriedade pela usucapião: i) Posse; ii) Período; e, iii) Coisa hábil (PEREIRA, 2014), pois, a posse não precisa, necessariamente, ser própria, visto que há o instituto da accesio possessionis, o qual permite a união do tempo de posse entre antecessor e sucessor (PEREIRA, 2014, p. 124).
É indispensável que a posse seja contínua, mansa, pacífica e caracterizada pela intenção de agir como se proprietário fosse do imóvel objeto da usucapião, o que a doutrina chama de animus domini. No tocante ao tempo, esse dependerá da espécie pleiteada pelo usucapiente, sendo sempre necessário para consolidar a usucapião. O último requisito essencial para reconhecer a usucapião é que o bem possa ser apropriado, ou seja, esteja inserido nas práticas comerciais47.
O ordenamento jurídico brasileiro divide a usucapião em ordinária, extraordinária, como defesa em Ação Reivindicatória, indígena, familiar, coletiva e especial (ou constitucional), haja vista sua previsão na Constituição Federal de 1988, sendo esta última subdivida, ainda, em rural (pro labore) e urbana (pro misero). Apesar de várias modalidades existentes da usucapião, não se faz necessária a análise pormenorizada para compreender o processamento pelo Poder Judiciário e pelas serventias judiciais, motivo pelo qual a investigação sob relatório irá se abster de analisar cada espécie. É importante notar, entretanto, que a usucapião é um direito material que se obtém com o preenchimento dos requisitos legais previstos no Código Civil de 2002 e na legislação extravagante, sendo a via processual necessária apenas para reconhecer a existência desse direito, ou seja, o provimento será meramente declaratório da propriedade por meio da prescrição aquisitiva.
Este conjunto de regras e princípios processuais, no tocante à esfera cível, foi concebido pela Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015 (BRASIL, 2015), a qual entrou em vigor no dia 18 de março de 2016, momento esse em que o Código de Processo Civil antecessor perdeu sua vigência (Lei nº 5.869/1973) e foi substituído por um instrumento que modificou diversos institutos até então consolidados na prática forense. Dentre as alterações e inovações do CPC/2015, ocorreu a
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É certo que os direitos de personalidade, bens gravados com cláusula de inalienabilidade, bens públicos, bens de incapazes ou proibidos por lei não poderão ser objeto da usucapião (GONÇALVES, 2018).
desjudicialização do reconhecimento48 da usucapião de bem imóvel, direito material esse que era processado e reconhecido por uma ação de rito especial no Código anterior.
Para melhor aferir a necessidade de implementar a desjudicialização da usucapião de bem imóvel, faz-se imperioso verificar o tratamento dado às demandas judiciais que tratavam dessa matéria durante a vigência do Código de Processo Civil de 1973, tal qual verificar como é o processamento desse mesmo item desde o Código de 2015. Com base, então, nas modalidades de usucapião acima referidas, as usucapiões extrajudiciais e a judiciais não podem ser vistas como uma espécie, mas, tão somente, um meio de reconhecimento e declaração do direito material do usucapiente.