2 MOÇAMBIQUE E CIDADE DE MAPUTO: uma breve
2.2 BREVE PERFIL DA CIDADE DE MAPUTO: Socializando a
A cidade de Maputo está localizada na zona mais ao sul de Moçambique (Cf. Figuras 1 e 2), na margem ocidental da Baía de Maputo. Os seus limites são: a Norte, o distrito de Marracuene; a Noroeste e Oeste, o Município da Matola; a Oeste, o distrito de Boane e, ao Sul, o distrito de Matutuíne, como podemos ver na Figura 3. É a capital e a principal cidade moçambicana, como também é capital de Maputo Cidade39. Tem estatuto especial de entidade municipal separada. Confina com a Província de Maputo40 e com sua capital provincial, Matola, que foi separada da cidade de Maputo em 1987, mas efetivamente faz parte do “grande Maputo”, enfatizam Paulo, Rosário e Tvedten (2008).
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Maputo é chamada de Cidade das Acácias pelo fato de grande parte das suas principais avenidas e ruas terem na calçada acácias para sombra plantadas. 39
Designação usada em termos provinciais e para evitar confusão com a Província de Maputo/Maputo Província.
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Figura 3. Mapa da Província de Maputo
Fonte: http://www.visitmozambique.net/pt/Provincias/Maputo/Mapa
A Cidade constitui administrativamente um município com governo eleito e tem também, desde 1980, o estatuto de província. Não deve ser confundida com a província de Maputo que ocupa a parte meridional do território moçambicano, excetuando a Cidade de Maputo. A Cidade tem uma área de 347,69 km2 e uma população de 1.094.315 habitantes, de acordo com o último RGPH (2007), fato que representa um aumento de 13,2% em 10 anos (CONSELHO MUNICIPAL DE MAPUTO, 2013). O quadro seguinte apresenta resumidamente alguns dados demográficos da Cidade de Maputo, tendo como ano base 2011.
Quadro 2: Dados demográficos resumidos da Cidade de Maputo.
Anos Total Homens Mulheres
2011 1.177.798 573.047 604.751
2012 1.205.358 586.456 618.902
2013 1.233.424 600.111 633.315
2014 1.261.976 614003 647.973
Designação 2011
Taxa anual de crescimento natural (%)
1.30
Taxa bruta de natalidade (por mil) 24.60
Taxa bruta de mortalidade (por mil)
9.60 Taxa de mortalidade infantil (por mil)
55.80
Esperança de vida (em anos) 54.30
Taxa global de fecundidade (nº de filhos)
2.65
Fonte: Elaborado pelo autor. Adaptado de Conselho Municipal de Maputo (2013).
A Cidade de Maputo está dividida em sete distritos municipais, que se encontram, por sua vez, divididos em bairros. Abaixo dos níveis municipais, central e distrital, ainda administrativamente, cada bairro tem um Secretário de Bairro (apontado de fato pelo partido no poder) 41, normalmente com um assistente (Secretário Adjunto) e uma pessoa em funções de apoio. Cada bairro é ainda dividido em quarteirões de 50 a 100 Agregados Familiares (AF) 42. Ao nível dos bairros, os recursos disponíveis para intervenções de desenvolvimento são muito limitados, e a função principal das instituições comunitárias parece ser a mobilização popular (PAULO; ROSÁRIO; TVEDTEN, 2008).
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Este e outros aspectos são apontados como concorrentes para o fato de existir uma partidarização do Estado moçambicano.
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Em Moçambique, se considera AF a pessoa singular ou grupo de pessoas ligadas ou não por laços de parentesco, que vivem na mesma casa, partilham alimentação e maior parte das despesas. No país, o tipo de AF predominante é o alargado, isto é, inclui outros parentes, para além da mãe, pai e filhos (INSTITUTO NACIONAL DE ESTATÍSTICA, 2012).
É nesta ação de mobilização popular que os moradores dos bairros acabam criando Organizações Comunitárias de Base (OCB), procurando, na sua grande maioria, colmatar as insuficiências em nível dos governos Central e Municipal. É neste processo que surge a Associação Hixikanwe (AH), associação na e com a qual tivemos apoio para fazermos as nossas entrevistas. Suas atividades procuram servir como suporte e mitigação dos efeitos do HIV e SIDA em nível dos bairros periféricos de um dos distritos municipais da Cidade de Maputo. Como vimos atrás, a população urbana43 em Moçambique não é mais que 32%, sendo que dos aproximadamente 1.3 milhões de habitantes da Cidade de Maputo, 53% eram definidos como pobres. A grande maioria reside em áreas congestionadas semiformais ou informais, ou bairros periférico-suburbanos. O país assiste uma crescente urbanização que, no entanto, é acompanhada com a urbanização da pobreza, sendo que a redução da taxa de pobreza foi menor nas áreas urbanas do que nas áreas rurais e a pobreza está aumentando na principal cidade do país, a Cidade de Maputo (PAULO; ROSÁRIO; TVEDTEN, 2008). Esse fato ocorre mesmo que, em termos provinciais, a Cidade de Maputo seja das cidades que têm menor taxa de incidência da pobreza (Cf. Figura 2).
De acordo com os dados do IOF (2008/09) para a região Sul do país, Maputo Província e Maputo Cidade, em relação às outras províncias, eram as áreas com maior percentagem de AF que afirmaram que era muito pior a sua condição econômica em cerca de 46,0% e 54,0% de pobreza respectivamente, sendo a Maputo Cidade a mais elevada, nesse sentido, não só da região assim como do país (INSTITUTO NACIONAL DE ESTATÍSTICA, 2011).
Com o estatuto de cidade capital do país, Maputo concentra o Governo Central, todas as instituições ministeriais, instituições do Governo da Cidade de Maputo e do Município com o mesmo nome e, também, as sedes das principais instituições privadas, bem como das embaixadas e consulados estrangeiros. Assim, com o estatuto de capital política e econômica, a Cidade de Maputo, como a maioria das capitais do mundo, pela sua dinâmica urbana, social, econômica e até cultural constitui um centro de atração populacional. Decorrente disso, assistimos hoje uma sobrelotação da cidade, fato que influencia nos focos de pobreza urbana que a caracterizam atualmente.
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A capital do país, Cidade de Maputo, acolhe 17% da população urbana do país (INSTITUTO NACIONAL DE SAÚDE, 2010).
De uma maneira geral, a Cidade de Maputo tem registrado um aumento do fosso entre ricos e pobres, deixando a população mais exposta a situações de risco. O fenômeno de pobreza urbana que se traduz num elevado índice de desemprego, agravado pelo êxodo rural e o aumento do movimento migratório, sobretudo da população jovem à procura de um aparente bem estar, o aumento da criminalidade, de residentes da e na rua, relacionado com a mendicidade, são alguns dos fatores que põem os citadinos numa situação de permanente vulnerabilidade socioeconômica e física (CONSELHO MUNICIPAL DE MAPUTO, 2013), sendo que a maior incidência da vulnerabilidade é sobre as mulheres e crianças órfãs e, na atualidade, o HIV e SIDA vem agravar essa situação.
De acordo com o Programa Mundial da Alimentação (2008), os AF das áreas urbanas estão mais vulneráveis ao aumento dos preços que as áreas rurais, produtoras de alimentos e, mesmo a grande maioria da população sendo rural, a insegurança alimentar urbana é um problema relevante, já que acima de 50% da população urbana é pobre, sendo que a Cidade de Maputo tinha uma incidência de 53,6% de moradores nessa condição.
Portanto, a Cidade de Maputo atualmente apresenta cenários de pobreza urbana e, como acontece no país inteiro, as mulheres são o segmento da população onde essa característica tem maior incidência. E, como veremos no decurso do trabalho, a problemática do HIV e SIDA vem agravar os cenários vividos pelas mulheres, bem como aumentar os custos sociais na procura de melhores condições para si e seus dependentes. Esses fatos servem para criar um entendimento do que é ser mulher em Moçambique e de como as questões de gênero se manifestam no cotidiano.
Chanty (2007), explorando sobre a feminização da pobreza na África, Ásia e América Latina destaca como características comuns da feminização da pobreza os seguintes elementos: as mulheres experimentam maior incidência de pobreza do que os homens; as mulheres experimentam mais profundamente a pobreza do que os homens (por exemplo, mais mulheres são mais prováveis de sofrer pobreza extrema do que os homens); as mulheres são propensas a sofrer pobreza mais persistente do que os homens; os encargos desproporcionais da pobreza das mulheres estão a aumentar mais do que os dos homens; as mulheres enfrentam mais barreiras para elevarem-se da pobreza; a feminização da pobreza está relacionada com a feminização da chefia dos AF; AF chefiados por mulheres são os mais
pobres dos pobres; e AF chefiados por mulheres transmitem pobreza às crianças.
Neste sentido, nos parágrafos que se seguem iremos procurar contextualizar e apresentar o perfil geral das mulheres moçambicanas e como isso influencia nas relações que elas estabelecem para dar sentido às suas vidas. Igualmente, relacionado com a feminização da pobreza, iremos trazer indicadores de como a pobreza e a situação menos privilegiada das mulheres se manifesta. Esses indicadores de pobreza das mulheres e, consequentemente, da feminização da pobreza também influenciam para a feminização do HIV, bem como dos encargos sociais que as mulheres infetadas pelo vírus do HIV têm que enfrentar no cotidiano.