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Breve retomada do conceito foucaultiano de biopoder

2- DEIXAR MORRER: PREVIDÊNCIA, ASSISTÊNCIA E RESISTÊNCIA

2.1 Breve retomada do conceito foucaultiano de biopoder

Foucault (1999, 2004, 2005, 2006, 2008a, 2008b, 2014) cunhou o conceito de poder analisando suas distintas expressões em diferentes tempos históricos. Para o autor, o poder é disseminado em toda a sociedade, enraizado nas relações sociais. Não se trata de dominação exercida de uns sobre os outros, o poder não é circunscrito a algum indivíduo ou grupo, está espalhado e difundido entre os indivíduos e instituições. Desse modo, o Estado não necessariamente é lugar exclusivo do exercício do poder. Contudo, houve o que o autor chamou de contínua estatização das relações de poder, em que as relações de poder foram racionalizadas por e centralizadas no Estado. Neste espaço, nosso foco é analisar as relações dos cortadores de cana com o Estado. Deixamos claro, desde já, que essa escolha não ignora o caráter disseminado do poder, apenas mira em um aspecto específico da circulação do poder. A arte de governar, entendida como o minucioso gerenciamento dos indivíduos, não pertence ao Estado, mas é por meio desse mecanismo que tem se dado sua gestão (FOUCAULT, 2014).

Quando havia um soberano e seus súditos, havia um poder que imperava: o poder de deixar viver e de fazer morrer. Legitimado pela defesa do Estado, o soberano tinha o direito de expor a vida de seus súditos caso julgasse necessário. Tanto a vida quanto a morte dos súditos era atravessada pela vontade do soberano. É precisamente porque pode matar que o soberano exerce seu poder sobre a vida. Mais do que direito de vida e morte, direito de fazer morrer e deixar viver. Esse poder soberano está relacionado diretamente com o período histórico em que a sociedade se encontrava, quando o poder exercido era de apreensão das coisas, do tempo e dos corpos (FOUCAULT, 2006). A arte de governar, nesse período, tinha como princípio as “virtudes

83 tradicionais”, ou “habilidades comuns” (FOUCAULT, 2008a). A partir de meados do século XVII, na Europa, há uma transição para o governo exercido por meio de uma razão de Estado – racionalidade com princípios e domínios de aplicação próprios do Estado (FOUCAULT, 2008).

No decorrer dos séculos XVII e XVIII havia, na Europa, um controle exercido sobre os corpos, uma disciplina que se instaurava. Na segunda metade do século XVIII e no decorrer do século XIX há a emergência de uma nova tecnologia de poder. Não tecnologia disciplinar - apesar de não excluí-la -, mas que se fixa a partir dela. Diferente da disciplina, que se aplica sobre o corpo, esse novo mecanismo de poder se dirige à vida. Com a busca da garantia da produção, do crescimento e da ordenação das forças, o direito não é mais de fazer morrer e deixar viver (como no poder soberano), mas de fazer viver e deixar morrer. O poder se exerce no nível da vida e da população (FOUCAULT, 2005, 2006).

Foi o desenvolvimento de uma ciência de governo – a Estatística – que possibilitou um conhecimento preciso e sistematizado da população. Para a razão de Estado é preciso ter um conhecimento adequado e detalhado da realidade a ser governada. Esse conhecimento deverá ser usado no sentido de moldar a realidade para que determinados fins possam ser atingidos (BAMPI, 2002, p. 131).

A nova tecnologia de poder se desenvolve desde o século XVIII em dois polos que são interligados: um centrado numa anátomo-política do corpo humano - corpo máquina, adestramento, docilização-, outro numa biopolítica da população, centrado no corpo-espécie, não o indivíduo, mas a massa, biopolítica da espécie humana. A organização do poder sobre a vida se desenvolve a partir tanto das disciplinas dos corpos quanto da posterior, e decorrente, regulação da população. “A instalação (...) anatômica e biológica, individualizante e especificante, voltada para os desempenhos do corpo e encarnando os processos da vida - caracteriza um poder cuja função mais elevada já não é mais matar, mas investir sobre a vida, de cima a baixo” (FOUCAULT, 2006, p.152). A tecnologia do biopoder é direcionada não apenas aos corpos, mas à vida, à população.

Uma tecnologia que é mesmo, em ambos os casos tecnologia do corpo, mas, num caso, trata-se de uma tecnologia em que o corpo é individualizado como organismo dotado de capacidades e, no outro, de uma tecnologia em que os corpos são recolocados nos processos biológicos de conjunto (FOUCAULT, 2005, p.297). São, então, duas séries que se articulam: uma corpo - organismo - disciplina - instituições e, outra, população - processos biológicos - mecanismos regulamentadores - Estado. De um lado a organo-disciplina da instituição, do outro a bioregulamentação do Estado. A norma é o elemento que vai circular entre o disciplinar e o regulador. A explosão de numerosas e diversas técnicas de sujeição dos corpos e controle das populações abre a era do biopoder, que foi essencial para o

84 desenvolvimento do capitalismo. Para Foucault (2005, 2006), foi com o controle dos corpos no aparelho de produção e com o ajuste dos fenômenos de população aos processos econômicos que o capitalismo pode se desenvolver. O regime de governo está articulado à racionalidade política; governo não como gestão administrativa, mas como maneira de guiar a conduta dos indivíduos. (FOUCAULT, 2008b). A “articulação do crescimento dos grupos humanos à expansão das forças produtivas e a repartição diferencial do lucro” (FOUCAULT, 2006, p.154) foram efetivadas pelo exercício do biopoder, poder que se dedica à vida, à população e às medições da natalidade, mortalidade e longevidade. As práticas de governo estavam ligadas ao liberalismo, assim como ao neoliberalismo.

Pode-se dizer que numa sociedade regida sob o capitalismo, uma norma que opera é a do trabalho. O trabalho como algo que dignifica o homem, mais do que como relação de troca forçada desigual. Esquece-se a imposição da venda da força de trabalho, as relações estranhadas e a coisificação do ser são introjetadas de tal maneira que são naturalizadas. Justamente por isso se entende o corpo útil como o corpo que trabalha, e o adoecimento que impede o trabalho aparece como vergonha (DEJOURS, 1987). O controle disciplinar garantiu corpos dóceis, corpos para o trabalho. A regulação da biopolítica ordenou a massa, o como viver tornou-se um imperativo. A vida passa a fazer parte da história no campo das técnicas políticas, isto é, na ordem do saber e do poder. O biológico está no político, e o poder - continuado por meio da norma -, se exerce sobre o ser enquanto membro de um todo, homem-espécie.

A tecnologia de poder - o biopoder - que regula e controla não apenas os corpos, mas a vida, apesar de não restrita ao Estado, é operacionalizada pelo mesmo. Houve uma estatização das relações de poder e, neste sentido, o Estado desempenha importante papel. “Assim, o Estado não é visto como origem do governo, mas como constituinte e constituidor de um campo de cálculos e de intervenções” (BAMPI, 2002, p. 133). O indivíduo é considerado por mecanismos globais e o viver passa a ser regulamentado, cabe ao Estado, por meio de suas instituições, dizer como se deve viver. Tem-se, assim, o direito do fazer viver, é sobre a vida que o poder vai atuar. A morte, ritualizada e entendida como passagem no poder soberano, torna-se privada, escondida, vergonhosa. Uma vez que o biopoder vai intervir para aumentar a vida, controlando suas deficiências e acidentes, fazendo viver, a morte se situa fora de seus domínios.

Numa tecnologia que faz viver, a morte é o momento em que o indivíduo escapa de qualquer poder. Nesse ponto, Foucault (2005) apresenta questionamentos sobre a possibilidade de matar em um sistema que se dedica tanto ao fazer viver, como o Estado que atua na regulação da vida pode

85 mandar matar - os inimigos ou os próprios cidadãos? O autor apresenta como resposta a reflexão sobre racismo de Estado, que é o “meio de introduzir, afinal, nesse domínio da vida de que o poder se incumbiu, um corte: o corte entre o que deve viver e o que deve morrer. [...] uma maneira de defasar, no interior da população, uns grupos em relação aos outros” (FOUCAULT, 2005, p.304).

A compreensão do racismo de Estado como uma cisão entre os que devem viver e os que são deixados a morrer é relevante para o aprofundamento da situação dos descartados da cana. Entendemos o racismo de Estado não como uma divisão puramente étnica dentro do todo populacional, mas como uma divisão entre aqueles que se encaixam na norma do sistema e os que estão fora dessa norma. O adoecimento representa essa cisão no todo, pois não poder trabalhar é não ser útil para o sistema, estar fora da norma. Desse modo, o Estado passa a relacionar-se com esses adoecidos de outras formas, por meio de outras instituições. É o caso dos cortadores de cana, que estabeleceram novas relações com o Estado.