Como o nosso trabalho tem por objetivo refletir sobre o futebol e a questão racial, faremos algumas considerações baseadas na bibliografia escolhida para apresentarmos os conceitos de raça, identidade e racismo, bem como suas relações com o esporte.
O termo “raça” surgiu no século XVI durante a descoberta de que os homens eram diferentes entre si. Com base no valor heurístico da “raça”, no século XVIII foram criadas teorias para dar inteligibilidade e sustentação à dominação entre as “raças”, bem como definir a moralidade e o devir dos povos (SCHWARCZ, 2002).
Alguns autores defendem que as elaborações sobre o conceito de “raça negra” são anteriores as questões do racismo, para Abrahao (2010, p.15):
As construções sobre a “raça negra” antecedem ao racismo na medida em que se valem da intencionalidade de construir a superioridade de “uns” em detrimento de “outros”. Em outros termos, foi a vontade da diferenciação que levou à necessidade de construção da “raça”. O racismo, por sua vez, entendido como representações hegemônicas construídas sobre a “raça negra”, surgiu a partir desse movimento. Com efeito, as noções de “raça” têm sido diferentemente usadas para classificar e ordenar hierarquicamente indivíduos e grupos socialmente desqualificados à luz das relações de poder engendradas historicamente.
Segundo Hall (2003), “raça” se refere as caraterísticas externas relacionadas a cor da pele, mas, na prática, a definição racial faz parte de uma construção social e política. A raça é uma das formas de identificar pessoas sem intenção mentalmente, uma relação automática. Já o racismo seria uma tentativa de justificar as diferenças sociais e culturais que legitimam a exclusão racial em termos de distinções genéticas e biológicas, isto é, de natureza. Ele é um fenômeno social, sem qualquer relação com a questão biológica:
O nível genético não é imediatamente visível. Daí que, nesse tipo de discurso, as diferenças genéticas (supostamente escondida na estrutura dos genes) são “materializadas” e podem ser lidas nos significantes corporais visíveis e facilmente reconhecíveis, tais como a cor da pele, as características físicas do cabelo, as feições do corpo, o tipo físico, o que permite seu funcionamento enquanto mecanismos de fechamento discursivo em situações cotidianas” (HALL, 2003, p.70).
Ainda conforme o autor, os qualificativos atribuídos à diferentes grupos sociais/raciais partem de quem tem mais poder na totalidade social, dessa forma, o posicionamento hierárquico de um grupo relação aos demais é mantido. Para Hall, foi a a elite “branca” que construiu uma identidade do que é “ser negro”, um “conhecimento prévio” fortalecido por conceitos ideológicos que transferem as diferenças sociais, históricas, geográficas e fenotípicas, para um juízo de valor que é parcial.
De acordo com Ortiz (2003, p.7): “a identidade possui ainda uma outra dimensão, que é interna. Dizer que somos diferentes não basta, é necessário mostrar em que nos identificamos”. Essa identidade quando manifestada em termos nacionais como ocorreu no país na relação raça/futebol cria uma comunidade imaginada, estabelecendo um sentimento de pertencimento e conclama “diferenças entre nações [que] residem nas formas diferentes pelas quais elas são imaginadas” ( HALL, 2003, p. 51).
Para Orlandi (1993), à medida que a identidade é construída baseada em acontecimentos principalmente do passado como uma espécie de herança, o discurso fundador, um desses acontecimentos se torna uma referência básica no imaginário. No caso do Brasil, a identidade funcionou como um elemento símbólico, “a construção do imaginário necessário para dar uma ‘cara’ a um país em formação para constituí-lo em sua especificidade como um objeto simbólico” (Orlandi,1993,p.17). Essas representações construídas sobre quem eram os
afrodescendentes se internalizaram na memória coletiva, atravessaram os séculos e acabaram se relacionando inevitavelmente com o futebol.
A obra do autor Allport (1954) é considerada um dos marcos para o estudo sobre preconceito, conforme ele o racismo é “uma atitude aversiva ou hostil face a uma pessoa pertencendo a determinado grupo, simplesmente por causa da sua pertença a esse grupo, e em que se pressupõe que esta possui as características atribuídas a esse grupo” (ALLPORT, 1954, p. 7).
De acordo com Jones (1972), o preconceito é uma atitude negativa em relação a uma pessoa ou grupo, sempre baseado num padrão de comparação social. A manifestação comportamental do preconceito seria a discriminação. Lima entende o preconceito da seguinte forma:
(...)um processo de hierarquização, exclusão e discriminação contra um indivíduo ou toda uma categoria social que é definida como diferente com base numa marca física externa (real ou imaginária), a qual é resignificada em termos de uma marca cultural interna que define padrões de comportamento. (LIMA, 2002, p. 30).
Sendo assim, no século XIX, no ápice do pensamento positivista, negros e mulatos, brasileiros de origem africana tiveram sua condição difundida entre a população sempre acompanhada de um discurso de “atraso em potencial” para a emergente República diante das outras nações.
No Brasil, alguns intelectuais como Sívio Romero, Euclides da Cunha e Raiumundo Nina Rodrigues, acompanhavam a tendência europeia e pensavam a realidade do país com a visão hegemônica dos europeus, em que o progresso era fruto da raça branca pelo discurso de hierarquia das raças; a nação brasileira estaria em um estágio civilizatório inferior (ORTIZ, 2003). Ter negros num cenário como o futebol, tipicamente retrato dos costumes do Velho Mundo, significava o fortalecimento desse atraso, a convivência entre cidadãos considerados mesmo depois da abolição da escravatura inferiores.
Do que foi produzido até então, há entendimentos diferentes sobre a questão racial no Brasil e que acabam impactando diretamente nas produções acadêmicas sobre o racismo no futebol. Isso porque em 1930, escritores como Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior e Sérgio Buarque de Holanda elaboraram teses sobre a brasilidade com uma interpretação diferente sobre o papel do negro na sociedade.
(...)os três autores citados foram trazendo elementos de uma visão do Brasil que parecia adequar-se ao nosso ponto de vista. Traziam a denúncia do preconceito de raça, a valorização do elemento de cor, a crítica dos fundamentos “patriarcais” e agrários, o discernimento de condições econômicas, a desmistificação da retórica liberal. (CÂNDIDO,1995, p. 11).
Freyre, embora não tenha escrito muito sobre o futebol, influenciou outros literatos e o mais importante deles, Mario Filho, o autor da primeira obra sobre o negro no futebol do país. 3.1.1 O pensamento de Gilberto Freyre
Os textos que tratavam especificamente sobre futebol produzidos por Gilberto Freyre ocuparam as páginas dos jornais da cidade de Recife na década de 30, nele o escritor relacionava a questão racial ao esporte. O futebol é visto dentro de uma ótica de elogio à raça e à cultura negra, como se a beleza da modalidade fosse restrita a esta raça e cultura em particular. O autor cai também em generalizações quando exalta a qualidade técnica do negro (GOMES, 2000).
O trecho abaixo, parte do prefácio de O negro no futebol brasileiro, demostra um pouco dos discursos de Freyre sobre negros no futebol:
Sublimando tanto do que é mais primitivo, mais jovem, mais elementar, em nossa cultura, era natural que o futebol, no Brasil, ao engrandecer-se em instituição nacional, engrandecesse também o negro, o descendente de negro, o mulato, o cafuso, o mestiço. E entre os meios mais recentes - isto é, dos últimos vinte ou trinta anos - de ascensão social do negro ou do mulato ou do cafuso no Brasil, nenhum excede, em importância, ao futebol. (FREYRE, 1947).
Por afirmações desse tipo sobre raça/esporte, alguns críticos, entendem que a produção de Freyre foi muito reducionista em relação à complexidade do futebol brasileiro.
O jogador negro apresenta-se nos textos de Freyre como a única possibilidade de um requinte técnico frente ao "apolíneo" jogador europeu. Ou seja, reduzia-se o fenômeno futebol ao negro e generalizava-se a pouca habilidade do jogador branco. Dentro desta visão mais complexa de abordagem do futebol a qual estas considerações finais se propõem, pode-se lembrar a análise de Sevcenko (1994) em que acrescenta as cidades (metrópoles) como um fator explicativo deste fenômeno esportivo. Este autor também mostra que alguns elementos internos ao futebol permitiram sua expansão em contextos distintos. Tais elementos são a presença de um elã coletivo e a não exigência de um tipo físico ideal para a prática deste esporte. (GOMES, 2000).
Na verdade, os escritos nos jornais que relacionavam raça e esporte eram apenas parte de um pensamento que Freyre passou a defender. A influência principal vinha de Casa-grande
e Senzala (1933), o livro em que expressou as ideias sobre o que ocorria na sociedade brasileira.
A obra-prima de Freyre rompeu com as teorias sobre raça, e assim como aplicava ao campo esportivo, nela defende que a questão da raça não seria o fator determinante na formação da sociedade brasileira, mas sim a cultura.
Por essa razão, estudiosos da obra de Freyre consideram que a relação entre o pensamento freyriano de Casa-grande e Senzala e o debate da questão racial no futebol fica de
certa forma confuso, porque diferentemente do livro, o autor privilegia a questão cultural e a racial. Em algumas passagens o escritor enfatiza a brasilidade, ou seja, os pontos culturais, em outras situações na mesma abordagem o autor ressalta aspectos raciais como determinantes da cultura do futebol, remetendo as questões biológicas para enfatizar a influência da raça africana na modalidade.
O principal influenciado pelas publicações de Freyre foi o jornalista e escritor Mario Filho, os dois tinham uma relação muito próxima, sendo Freyre o autor do prefácio do Negro
no Futebol Brasileiro. Nas primeiras páginas da obra, ele destaca que o sucesso da seleção teria
ocorrido quando o time incorporou negros no quadro, afro-brasileiros, que expressavam o sentimento de ser brasileiro, foi o autor que enfaticamente afirmou o "estilo brasileiro de jogar futebol" (FILHO, 2003).
3.1.2 O futebol como elemento cultural e de identidade
Ao longo dos anos, esses discursos sobre um estilo próprio de jogar futebol foram sendo legitimados pela repetição frequente (SOARES, 2008). Muitos autores replicam que os elementos da cultura como o samba, a capoeira e o próprio carnaval, expressões relacionadas aos afro-brasileiros, teriam influenciado a forma de jogar. Há interpretações e versões acadêmicas que merecem ser analisadas nesse sentido e que analisaremos mais adiante.
Por ora, a observação de DaMatta nos auxilia na perspectiva de expormos um pouco das referências que seguimos sobre esse aspecto de relacionar as características de brasilidade ao futebol. DaMatta (2006) destaca que no surgimento do futebol na Inglaterra não havia qualquer traço cultural ligado a dança e a música, com uma dose de ironia questiona (2006, p.16): “A essa altura cabe uma pergunta. Haveria, neste uso exclusivo dos pés que caracteriza o football association, uma relação inconsciente com o jogo que os escravos africanos trouxeram para o
Brasil? Jogo onde as armas de luta não são os punhos, mas as pernas e os pés? ”
Conforme Abrahão (2010, p.8), o futebol brasileiro poderia ser visto como “um espaço que reproduz a ambivalência das representações socialmente construídas sobre a ‘raça negra’ e a ambiguidade do racismo no Brasil”. A discussão sobre a questão racial teria oscilado no Brasil entre dois polos quase opostos. De um lado, as interpretações ainda baseadas no racismo muito presente, do outro, as ideias culturalistas de Gilberto Freyre trouxeram esperança para
um quadro pautado pelas interpretações racialistas. Aqueles que liam Freyre, recebiam o estudo com a sensação de que o Brasil poderia orgulhar-se da sua civilização nos trópicos e o esporte representava esse ideal.
Os anos 1890 e 1920, a elite brasileira, em termos ideológicos, debateu-se com a angústia quanto às origens genéticas mestiças de nosso povo e de sua capacidade de servir de base para o tão sonhado desenvolvimento econômico, político e cultural. Em outras palavras, balizados na interpretação racialista, posta as origens mestiçadas do povo brasileiro, seríamos definitivamente incapazes para o desenvolvimento e o progresso. (PAIXÃO; GOMES, 2010, p.61).
A interpretação culturalista trazia para o projeto desenvolvimentista duas contribuições no plano ideológico: i) o legado lusitano ancestral, à medida que favoreceria o contato entre raças diferentes, suavizaria o processo de modernização do País, em termos de seus eventuais impactos sociais, permitindo com que no Brasil nossa modernidade pudesse se dar sem a presença de conflitos raciais abertos; ii) a miscigenação racial e cultural forjaria um povo homogêneo, com características próprias, lembrando-se ser este um dos principais condicionantes para a formação de um projeto moderno de nação. Deste modo, o modelo desenvolvimentista. (PAIXÃO; GOMES, 2010, p.70).
Já Gordon Jr. (1995, p.75) diz que mesmo a ascensão racial no campo esportivo se deu no interior de um idioma racialista, em que as qualidades do futebol brasileiro foram essencializadas como se derivassem de “predisposições raciais”, tais como malícia, ginga, musicalidade, irracionalismo (intuição) etc.