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“(…) O que se torna necessário – e esta é uma direção de trabalho já com apreciáveis tradições entre nós, incluindo a nível ministerial – é uma educação para os media, dirigida a todos e ao longo de toda a escola, e vocacionada para a análise crítica da comunicação social e do fenómeno da comunicação em geral.

Uma educação para os media, sublinhe-se entendida como um fator de consciencialização, um estímulo ao espírito crítico e um incentivo à criação e à transformação, e não como uma estratégia de adaptação e de conformismo, uma ferramenta de integração e de reprodução ideológicas”.

(Por Fernando Correia em Jornalismo e Sociedade)

As sociedades democráticas atuais apoiaram a sua sobrevivência, enquanto defensoras igualitárias, no trabalho do jornalismo e da comunicação social – desta feita, “a liberdade de imprensa tem feito mais pela realização do principio da igualdade

dos cidadãos (…) do que qualquer proclamação enfática num qualquer texto constitucional”.155 O seu poder, decisivo e determinante na vigilância dos poderes em que assentam socialmente as comunidades, confere um papel extremamente importante ao seu trabalho. Na verdade, há até quem defenda que a sobrevivência da democracia assenta no bom funcionamento dos media, a quem cabe a mediatização em massa das faltas e dos desvios de comportamento.

Ao jornalismo é, desta forma, associada uma constante responsabilização social, em prol do serviço público. Os meios de comunicação social subsistem em função do seu público, não têm direito a errar e vivem para bem informar a comunidade. Contudo, não é possível teorizar sobre o jornalismo e as suas atuais caraterísticas desviantes, sem ter conta todas as condições concretas em que a profissão se exerce.

155 Explica José Manuel de Matos Fernandes no artigo Justiça e Comunicação Social, publicado na obra coletiva intitulada Estudos de Direito da Comunicação.

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Fernando Correia recorda que, hoje em dia, “torna-se imprescindível conceder

(…) [uma] interligação entre os aspetos económicos e a atividade mediática”,156 sem esquecer a preponderância que os valores comercias e concorrenciais assumem na sociedade capitalista – “em geral, os grandes grupos encararam a informação (no

sentido jornalístico) não como um bem social mas como um negócio em que se investe ou desinveste ao sabor das tendências do mercado”,157 sendo que, a prioridade passa a incidir sobre as audiências e sobre as tiragens, acentuando graves distorções no tratamento das noticias da atualidade e na utilização de critérios noticiosos.

Aos poucos, muitos profissionais da comunicação vão interiorizando como valores jornalísticos aqueles que não passam de importâncias que estão aliadas às exigências comerciais – a liberdade de imprensa começa, então, a ser vista apenas como uma lei para o jornalista, ao invés de existir para proteger o interesse do público. Cada vez mais fechados nas redações, em autênticas corridas contra o tempo, os jornalistas despreocuparam-se com o público e com as pessoas, perderam o contacto com a sociedade e desvincularam a relação de proximidade que mantinham com o povo. A profissão é descredibilizada e as comunidades democráticas confiam, cada vez menos, no trabalho dos jornalistas.

Os argumentos éticos e deontológicos da profissão foram, também eles, perdendo força, não sendo fácil para um jornalista “opor com frontalidade argumentos

(…) perante um patrão (…) obcecado pelas exigências do mercado”.158 Na realidade, numa lógica onde divulgar primeiro é mais importante do que divulgar com exatidão e rigor, os códigos de ética não passam da teoria à prática – as críticas sobre a profissão obrigaram a que a o jornalismo se interroga-se “sobre o que fazer para reparar os

danos e voltar aos padrões anteriores, recuperando a estima e o apoio do público”.159

A emergência de um jornalismo digital, desregulado e descentrado, veio agravar as consequências da lógica empresarial, a que a profissão já se havia rendido. No mundo online tudo é mais rápido, mais veloz e mais concorrente – os jornalistas já

156

Citação do autor no artigo Problemas e desafios de uma profissão em mudança, publicada no número 16 da Revista Jornalismo&Jornalistas.

157 Idem. 158

Idem.

159 O alerta é deixado por Thomas E. Patterson, da Universidade de Harvard, nos Estados-Unidos, no artigo Os media como actores políticos, publicado na obra coletiva Media, Jornalismo e Democracia.

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não se preocupam apenas com os colegas da redação adversária pois, na blogosfera e nos sites a título individual as informações são divulgadas muito mais aceleradamente. Os novos media potencializaram a sociedade de informação de uma forma nunca antes vista, mas agravaram a secundarização do papel do jornalismo enquanto quarto- poder.

Perante este fenómeno autonómico, libertário e anárquico, onde a desregulação é quase total e onde “os meios tradicionais perdem o carácter de veículo

quase exclusivo de transmissão da informação”,160 é importante relembrar que os meios de comunicação social “desempenham um papel de guardião do templo dos

valores democráticos e da representação da coesão social, na media em que são veiculadores de opinião (…) permitindo enquadrar e interpretar a realidade marcada por diversas correntes”.161 Por isso mesmo, e para fazer frente aos novos problemas associados ao espaço público mediático digital, é necessário autorregular os jornalistas, as diferentes formas de fazer jornalismo e as empresas de comunicação – o esforço de responsabilização deve partir de um compromisso comum, para que as expressões éticas, morais e deontológicas ganhem forças na sociedade contemporânea.

Para além disso, o papel do público começa, agora, a ser fundamental. Confundidos entre emissores e recetores de informação, o público já tem hoje um papel ativo na produção e divulgação de mensagens, sofrendo, diariamente, uma influência direta ou indireta da mediatização. Como tal, desde cedo, “para além da

introdução dos jovens no domínio das novas tecnologias, é preciso levá-los a aprender a ler, ouvir e ver os media (…), perceber os seus critérios, descodificar as suas mensagens, desmontar os seus mecanismos, entender os seus objetivos e interesses”.162 Só com um público devidamente educado é que a filtragem informativa poderá ser plena, o que significa que o jornalismo poderá sobreviver em qualidade de informação e não em quantidade.

160 Relembra Francisco Pinto Balsemão no artigo Os novos desafios dos media, publicado no livro Media,

Jornalismo e Democracia.

161 Idem.

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