2. FOTOGRAFIA E EDUCAÇÃO
2.2. Breves considerações sobre o panorama nacional
Fazendo uma passagem para o contexto nacional, o Instituto Português de Fotografia foi a primeira escola a ser criada, em Portugal, no final dos anos 1960. Actualmente, afirma-se como sendo a única escola que continua a dedicar-se exclusivamente ao ensino da fotografia.
Apesar da Associação Portuguesa de Arte Fotográfica (APAF) ter sido criada anteriormente, em 1949, só mais recentemente é que começaram a oferecer formação em fotografia. Assim, os seus objectivos saem do perímetro exclusivo de formação de fotografia, uma vez que, como associação de fotógrafos profissionais e amadores, o objectivo da APAF é o de contribuir para o desenvolvimento da fotografia, “enquanto forma de expressão artística ou actividade profissional”9.
Quando o Ar.Co é criado, em Fevereiro de 1973, a formação em fotografia surge logo no inicio do projecto. Com cursos em diversas outras disciplinas, distinguem entre a formação profissional e a reciclagem e sensibilização das diversas práticas. São também sublinhadas, neste discurso de apresentação histórica, a experimentação prática e a experiência terapêutica. Com uma forte componente artística, merece ser mencionado que vários alunos desta escola têm sido distinguidos em diversos prémios de referência, tanto no panorama nacional como internacional, estando também presentes em várias colecções de relevância. No site da associação encontramos esta lista.
O IADE foi fundado em 1969, sendo o departamento de fotografia criado em 1978, com um curso livre de fotografia que abrangia diversas áreas de especialização desta disciplina. O IADE oferece, actualmente, um leque mais diversificado de escolhas formativas. Assim, temos o Curso de Especialização Tecnológica em Fotografia, o Workshop de Iniciação à Fotografia a Preto e Branco e a licenciatura em Fotografia e Cultura Visual.
Partindo desta licenciatura, faz-se agora uma passagem breve pelo ensino superior. Em Portugal, a fotografia integrou o mapa das licenciaturas somente em 2004, altura em que o Ministério da Educação aprovou a criação da mesma, no Instituto Politécnico de Tomar, tendo o plano de estudos do bacharelato sido aprovado, e o respectivo curso regulamentado, em 2002. Seguiu-se a licenciatura da Escola Superior Artística do Porto, um ano depois, com uma licenciatura em Artes Visuais – Fotografia. O IADE inicia a sua licenciatura em Fotografia e Cultura Visual, no ano de 2006, seguindo-se a Universidade Lusófona que implementa a licenciatura de
9 Informação retirada do site – www.apaf.com.pt. Deixa-se apenas uma nota, relativamente à distinção
entre expressão artística e actividade profissional. Supõe-se que esta queira, na verdade, referir-se à fotografia enquanto hobby ou profissão, uma vez que os seus associados correspondem a estes dois estatutos.
fotografia na sua Escola de Comunicação, Artes e Tecnologias da Informação (Diniz, 2009).
Estas são algumas das organizações que, no âmbito do projecto proposto nesta tese, se poderão contactar a fim de criar parcerias que permitam aos alunos conhecer outros espaços formativos, participar em acções de formação pontuais, partilhar experiências e práticas, e considerar a continuidade da sua formação, após terminarem o projecto. É igualmente interessante considerar as diferentes abordagens que cada escola apresenta no seu currículo.
Em Lisboa, cidade onde se enquadra este projecto, conhecem-se ainda diversas outras associações, instituições e escolas, que promovem o ensino da fotografia, e que apresentam, na sua oferta formativa, diferentes géneros e metodologias. São exemplo, o Cenjor – Centro Protocolar de Formação para Jornalistas, a Oficina da Imagem, a ETIC – Escola Técnica de imagem e Comunicação e a Restart.
Seleccionaram-se ainda exemplos de outras instituições, por se entender que estão mais próximas das temáticas consideradas como tendo maior relevância na presente dissertação. Com um objectivo que se interliga com a área social, conhece- se o Movimento de Expressão Fotográfica (MEF), formado em 2000. Este desenvolve, inclusivamente, acções de formação em colaboração com instituições sociais, destinadas a populações específicas, como indivíduos portadores de deficiências visuais, mentais ou motoras, e pessoas em condições socioeconómicas mais carenciadas. Estes projectos têm o objectivo de desenvolver a auto-estima dos seus participantes e promover a reflexão sobre o que os rodeia. São desenvolvidos de forma pontual, para públicos diversificados (como referido) e com o objectivo de oferecer essencialmente a formação em fotografia. Destaca-se o trabalho desenvolvido com o Departamento da Acção Social da Câmara Municipal de Lisboa, no Espaço Municipal da Flamenga e o projecto Integrar pela Arte, terminado em 2009.
No âmbito do Colóquio Internacional realizado em 2003, pela Organização Internacional para as Migrações, a Fundação Friedrich Ebert, o Goethe-Institut e o Institut Franco-Portugais, foi publicado um livro – Caminhos para a Integração – com a intenção de contribuir para a reflexão sobre a integração cultural, social e política dos imigrantes em diversos países Europeus. Neste livro são debatidos casos de diversos países e narrativas gerais e pessoais. Sobre a temática da ”segunda
geração" – conceito que alguns autores consideram polémico, tendo em conta a questão quantas gerações serão necessárias para que um descendente de imigrante deixe de ser considerado como tal? – a Association Dialogue de l’Image (ADI), em colaboração com Associação Unidos de Cabo Verde (AUCV), organizou, em Maio de 2005, um ateliê de pinhole para jovens de bairros da Amadora, com idades compreendidas entre os dezasseis e os dezoito anos. A Fundação Calouste Gulbenkian e a escola Ar.Co estiveram também envolvidas no projecto, comprometendo-se a primeira a oferecer uma máquina fotográfica ao aluno que revelasse maior potencial, e a segunda, uma continuação da sua formação em fotografia.
Christine Talabard, da ADI, refere que através da participação de dez jovens lisboetas, com origem cabo-verdiana, de Boba e da Cova da Moura, se obtiveram os “ecos (...) Injustiça, solidão, saudade, cultura, miséria, música, amor, violência solidariedade... O que estas fotografias nos mostram veicula valores universais que nada têm de utópico na boca dos que lutam quotidianamente para os defender.” (2005: 3). É interessante referir que, nesta abordagem positiva, que será novamente referida mais tarde, também um dos alunos, a que Christine se refere como “N.”, prefere apresentar o seu bairro (a Cova da Moura) não apenas como um campo de batalha, onde se travam guerras armadas, mas também um lugar onde existe uma esperança e uma vontade de “avançarmos ‘todos juntos’, para que a sociedade abra finalmente os olhos...” (2005: 3).
Maria João Marques, presidente da AUCV, contactada no contexto da presente dissertação, informou que um dos alunos faz actualmente parte da direcção da associação, e que o aluno que ganhou o curso ainda se encontra a frequentar a formação na escola mencionada. Tivemos oportunidade de debater a importância dos jovens terem a possibilidade de trabalhar sobre temas como a sua própria identidade e reflectir sobre as questões com as quais se identificam. Falámos igualmente da extrema necessidade do acompanhamento deste processos, por parte das entidades e indivíduos que os promovem, e de como é essencial a consideração do universo (da vida) de cada participante.
Apesar dos alunos não terem uma participação escrita, no livro, as suas fotografias foram publicadas no mesmo. Contactou-se também François Perri, um dos membros da ADI que acompanhou o ateliê. Sobre este ateliê, não foi produzido outro material que não a referida publicação das fotografias e as cópias dos
trabalhos individuais, entregues aos alunos. No entanto, os testemunhos deste projecto não estão presentes no site da ADI. Quando questionado, Perri sublinha o facto de serem uma organização de pequena dimensão que, por este motivo, recorre frequentemente ao apoio de voluntários para este tipo de tarefas mais administrativas.
As dimensões reduzidas das suas equipas são um dos grandes desafios que as organizações – com especial incidência nas que não têm fins lucrativos - enfrentam, e que vêm dificultar a evolução, não só do próprio organismo, mas também de cada projecto educativo, através do qual se poderiam abrir novas perspectivas.
A Associação Cultural Moinho da Juventude realizou, em 2005, um workshop com a fotografa Susan Meiselas, da Agência Magnum. Actualmente, está a organizar um fotoclube, orientado pelo fotógrafo Pedro Lobo. Contactada no âmbito desta dissertação, a vice-presidente da direcção, Lieve Meersschaert, afirma que o objectivo deste projecto é recolher as memórias do bairro.
Conhece-se igualmente o projecto Reinserção pela Arte da Fundação Calouste Gulbenkian, desenvolvido entre 2005 e 2008, destinado a uma população específica – jovens internados em centros educativos da Direcção-Geral de Reinserção Social. Neste caso, a fotografia estava incluída numa das seis unidades programadas, das quais faziam também parte a arquitectura, a escrita e um projecto final de vídeo. No secundário, encontramos ainda alguns clubes de fotografia. A nível de currículo formal, e nos casos em que a escola disponibiliza esta opção, a fotografia pode também surgir integrada nas disciplinas de Educação Visual e Tecnológica/Educação visual, ou nos cursos profissionais.
Em 2009, foi realizado um workshop de fotografia no Colégio de Pina Manique da Casa Pia de Lisboa. Esta acção resultou de uma parceria com o IADE, tendo a iniciativa partido precisamente do clube da escola, o Espaço-Teu. Foi possível acompanhar-se a última sessão, que incluiu a montagem da exposição no espaço do clube. Em diálogo com a equipa de professores envolvida no projecto, ficou clara a necessidade e interesse na criação de mais iniciativas deste género. Por parte da equipa do colégio, esta necessidade manifesta-se sobretudo nos períodos de intervalo do calendário escolar.
Numa entrevista a Nan Goldin para o jornal Expresso, os papéis invertem-se momentaneamente e Daniel Blaufuks, o entrevistador, refere o início da sua vida profissional enquanto fotógrafo, no panorama português. Ao terminar a sua formação em fotografia, em 1987, Blaufuks começa por trabalhar num jornal e refere que somente em meados dos anos 1990 é que as galerias começam a trabalhar com fotógrafos e que, consequentemente, só a partir dessa altura começa a ser possível “pensar em viver de vender fotografia” (Blaufuks; Goldin, 2008: 2).
Consideremos como exemplo comparativo a San Francisco Camerawork, referida por Coleman e de inestimável relevância para este projecto. Esta organização, que também apresenta uma galeria dedicada exclusivamente à fotografia, celebra este ano o seu 35º aniversário. Temos então um intervalo de quase 20 anos, entre os dois cenários apresentados. Ao nível do ensino superior da fotografia, este intervalo é, como pudemos verificar, de quase meio século. E relativamente ao projecto que seguidamente se irá apresentar, não se conhece nenhum caso idêntico em Portugal. Neste contexto, reconhece-se que as dificuldades financeiras são frequentemente o principal motivo que atribui o carácter pontual aos diversos projectos.
Os projectos de educação não-formal de fotografia apresentam-se, na sua maioria, institucionalizados, através de organizações não-governamentais (ONG) ou de centros e associações comunitárias (Coleman, 2006).
É importante sublinhar que uma grande percentagem destes projectos é iniciada a título individual. A necessidade de estar incluído numa instituição é algo que se prende muito com a sobrevivência e longevidade que se pretende para cada projecto. Esta necessidade poderá ser sentida logo à partida, fruto das dificuldades de implementação, mas é numa segunda fase que muitas nas ONG são criadas. Podem passar-se anos até se conseguir um funcionamento estável e que o projecto também possa colaborar na sua sustentabilidade. Sabe-se que algumas propostas não conseguem ultrapassar a fase de angariação de fundos. No entanto, e apesar destas dificuldades, existem actualmente inúmeros projectos educativos, de curto, médio e longo-prazo, a ser implementados em diversos países.