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5. O TRABALHO DA CASA REDONDA: o tronco visto por fora

5.4. Linguagens expressivas

5.4.4. Artes plásticas

5.4.4.1. Brincando com os elementos

A Casa Redonda está a serviço da criança e do que ela precisa para se expressar e dar forma aos seus conteúdos internos, em diálogo com o externo, a Natureza, fonte de conhecimento e aprendizagem, com a harmonia das formas, sua organização, sua beleza estética e sensorial, com os elementos do fogo, água, terra e ar, e o que cada um deles propicia, em termos de atuação, e o que mobiliza em si o seu contato.

Este projeto propõe atividades para se lidar com os quatro elementos. Cada elemento está relacionado a uma determinada qualidade psíquica. A cultura indígena considera os elementos “como nossos irmãos primeiros.” (Munduruku, 2005: 37).

(Foto 43. Fogo: forninho de barro)

O fogo é o elemento transformador, partícipe da criação, também é o símbolo do aconchego e do acolhimento. É a presença da Héstia, a deusa que não tem imagem, mas está relacionada ao fogo, à lareira, como centro aglutinador. Pode ser ainda a imagem do útero materno ou, por outro lado, a imagem do fogo destruidor.

As crianças gostam de ver o que acontece com os objetos queimados. Ocorrem muitas atividades com fogo: utilização de pirógrafo e cola quente, pingar vela na água (foto 44), fabricação de velas, sabonetes, ovos de Páscoa, forninhos de barro (foto 43), “balão-galinha” (balão de jornal), tintura de tecidos, assim como a brincadeira de armazenar fumaça em potes, para ver sua transformação.

A fogueira reúne as crianças ao seu redor (foto 45). Propicia a descoberta da sua utilidade, com o cuidado necessário, inclusive para a preparação de alimentos como: macarronada, sopa, chá, banana assada, queijo de coalho, churrasquinho, panqueca, etc. que serão servidos de lanche.

Esta é uma atividade que ocorre principalmente no inverno, quando folhas são queimadas, gerando o calor que aglutina as crianças à sua volta. É como se revivessem a experiência primordial do domínio do fogo conquistado pelos homens da caverna, dos índios, como uma forma de assimilar a importância deste elemento para a nossa cultura e o conhecimento acumulado pela Humanidade.

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A água é um elemento de limpeza, purificador e regenerador, que dissolve determinadas tensões, acalma, relaxa e está relacionada às questões emocionais e afetivas. Sendo um diluidor, transformador na sua maleabilidade e sua junção com outros elementos como terra e areia, era uma série de outras possibilidades. A água também pode aparecer como tempestuosa.

Entre as várias atividades que este elemento envolve, podemos citar: água colorida (foto 46) a partir do papel crepom; giz socado diluído na água; bolhas de sabão; produção de tintas com pigmentos naturais e ainda a diluição ou engrossamento de tintas.

A terra é o elemento que simboliza a solidez. A brincadeira com argila ou barro propicia uma produção mais individual, ligada à forma, à manifestação que, se levada ao fogo, cria maior resistência. Na caixa de areia, muitas histórias surgem a partir da organização e estruturação dos materiais disponíveis.

À terra é possível agregar objetos como sementes, pedras coloridas e palitos. O uso do espremedor de carne ou forminhas permite deixar estampas e marcas. As casinhas de barro são produções muito freqüentes, caracterizadas pela feitura de sua base, paredes, divisórias e mobiliário. Os tabuleiros para jogos, as formas circulares, jardins com flores aparecem bastante.

Num dos espaços da escola, as crianças construíram uma casa de pau a pique, desde a amarração dos bambus até a lama (foto 47) para revestir a casa, além de um forno para queimar o barro e uma churrasqueira para fazer o lanche.

Brincar na areia é uma atividade muito procurada, principalmente pelos pequenos em período de adaptação. É uma atividade que agrega, nas caixas de areia grandes, um número maior de crianças, que fazem comidinhas ou encanamentos, misturas com água, castelos, montanhas, buracos e túneis. Nas pequenas caixas de areia ocorrem muitas histórias com bichos, panelinhas, bonecos, conchas e casinhas, sempre permeadas por confabulações e narrativas de histórias, independente de ter ou não ouvintes.

O ar é vivido como um respiro, uma experiência de vôo, relacionado com o

sair do chão, olhar para o céu, reconectar-se consigo na imensidão do céu, do Cosmos e na atualização do espírito. É dar asas à imaginação, nem que seja apenas na observação do vento e na contemplação da Natureza, estando integrado a ela. É o canto que transmite mensagens pelo ar. É o sopro da vida.

O ar é vivido através dos barangandões, pipas, peixinhos voadores, dragões, bumerangues, aviões de papel (foto 48). Ocorrem mais nos tempos dos ventos, no Outono, no movimento de uma paina e das folhas que caem das árvores. Nas atividades corporais, que as crianças recebem e trocam entre si, o sopro é muito presente, assim como as descobertas de suas variações, como o sopro quente ou frio, ao longo da coluna, entre os dedos, na testa e ao redor do umbigo.

Todos os elementos fazem parte da Natureza e estão disponíveis fora e dentro da criança. Ela tem o direito de brincar e através da brincadeira vai internalizando conceitos, construindo seu conhecimento, para se expressar através das várias linguagens. Para isso, utilizam-se da riqueza e qualidade dos materiais que estimulam os sentidos, principalmente o tato e, desta forma, propiciam a experimentação corporal através do contato direto com os elementos internos e externos ao nosso corpo, possibilitando o seu uso e domínio na construção de si mesmo.

O papel do professor, dentro desta abordagem, é compreendido nesta frase de Buber:

“O mundo age sobre a criança como natureza e como sociedade. Os elementos a educam – o ar, a luz, a vida na planta e no animal; e as circunstâncias sociais a educam também. O verdadeiro educador representa um e outro; mas sua presença, diante da criança, deve ser como a de um dos elementos” (apud Gadotti: 2005: 164).

É através das experiências significativas, tanto sensoriais como estéticas, no contato direto pelo corpo, pela brincadeira, de forma lúdica, que a criança constrói e transforma sua experiência subjetiva na formação do ser sensível e criativo.