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Brinde no juízo final

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2.2 A cidade e o estar no mundo

2.2.4 Brinde no juízo final

O homem existe em sociedade, logo, sua essência deve ser analisada na sociedade, em um tempo determinado pela história. Nela se verificam as necessidades do homem; e é possível dizer que as grandes mudanças sociais no tempo têm colaborado fortemente para a degradação essencial do ser no mundo. Esse pensamento elaborado por José Fernandes (1986, p. 27) contribui enormemente para as reflexões acerca de “Brinde ao Juízo final”. As imagens urbânicas nele presentes geram a ampliação dos sentidos construídos no poema, que nos direcionam para um olhar acerca do estar no mundo, ao mesmo tempo em que autorizam a refletir sobre o próprio fazer poético.

O título do poema sugere uma ação comemorativa em situação particular e apocalíptica: o juízo final, momento em que o “ajuste de contas” é estabelecido e os espaços celestes ou infernais são ocupados de acordo com o merecimento de cada um. A primeira estrofe apresenta a exaltação do povo, chamado pelo eu lírico de poetas de camiseiros, poetas de elixir de inhame e tonofosfã, poetas do bonde e do rádio, ou seja, aqueles que em seu ofício diário transformavam a venda de seus produtos19 populares – e em certa medida, inúteis - em poesia. Esses que nunca seriam percebidos pelas academias ou pelo poder dominante como dignos de reconhecimento são chamados pelo eu lírico de o “último ouro do Brasil”.

Poetas de camiseiro chegou vossa hora, poetas de elixir de inhame e tonofosfã, chegou vossa hora, poetas do bonde e do rádio, poetas jamais acadêmicos, último ouro do Brasil. (p.74)

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Vale ressaltar que os produtos anunciados pelos poetas do povo pode representar a massificação do “ter”, vez que aquilo que é anunciado pode ser considerado como dispensável, fruto de um consumismo que se anuncia.

A cidade é o lugar desse conflito de classes e é para a rua que o povo é convidado, através de um movimento de aproximação desse eu lírico que em duas estrofes estabelece a demarcação de um espaço de contrastes.

Outra leitura possível se realiza a partir da função metalinguística, em que a cidade em conflito representa uma metáfora da transição poética em relação a uma nova linguagem e a um novo sistema poético que se estabelece. Os poetas do povo, enfim, seriam reconhecidos como fabricantes de uma poesia brasileira, legítima, autêntica. Assim, a justiça também seria feita, e a arte desconsiderada e renegada pela academia e pelas elites tomaria seu lugar de destaque.

A segunda estrofe se inicia com as reflexões do eu lírico acerca de movimentos que foram realizados em vão: o assassinato das poesias nos livros, as revoltas. A palavra putschs, do idioma alemão, pode ser entendida como uma crítica à atitude dos poetas honrados, com quem o eu lírico dialoga, já que o significado dela é golpe, muitas vezes relacionada a golpe de Estado. Declara-se o fim de uma elite que supervaloriza a tradição. Vale ressaltar que, até aqui, o discurso se constrói em relação ao outro, sem que os traços de subjetividade se sobreponham. O eu lírico se dirige ao outro, em uma espécie de provocação ou convite à praça.

Em vão assassinaram a poesia nos livros, em vão houve putschs, tropas de assalto, depurações. Os sobreviventes aqui estão, poetas honrados, poetas diretos da Rua Larga. (As outras ruas são muito estreitas, só nesta cabem a poeira, o amor e a Light.) (p.74)

Depois, os sobreviventes dessa luta de classes são ligados à cidade. A Rua Larga é o nome mais conhecido da Avenida Marechal Floriano Peixoto, e nela estão localizados o histórico Colégio Pedro II, o Itamarati e a sede da Light, companhia energética do Rio de Janeiro. Por estar no Centro da cidade e abrigar instituições importantes, percebe-se que havia um grande fluxo de pessoas de todas as condições. Adiante, o eu lírico realiza um jogo de palavras com Larga e estreita, já que a Avenida Marechal Floriano Peixoto se dividia em duas partes; a segunda é conhecida como Rua Estreita por conta de suas dimensões. Essa última, devido à modernização da cidade no início do século XX, deixa de ser a passagem para o mar, caminho para a chegada à zona portuária. Aqui essa relação se reforça, pois a cidade e suas ruas estão a representar a passagem do tempo e as mudanças de um mundo em que, assim como a própria rua, não deve admitir que as segregações

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aconteçam.

Aqui cabe, talvez, refletir mais sobre os sentidos gerados pelas imagens da Rua Larga e da Rua Estreita, no que se refere às identidades ôntica e ontológica. Para isso, convidamos ao debate José Fernandes, o maior estudioso que temos no país acerca do Existencialismo na Literatura Brasileira. De acordo com esse pensador, a partir do momento em que o poeta recria o mundo que o circula através dos símbolos e das palavras, interrogando a condição humana, ele é um poeta filósofo, já que a sua arte “penetra nos mistérios do ser” (p. 129). Sobre o ser e o estar no mundo, afirma:

A identidade, entendida sob uma ótica filosófica, compreende o ser e o estar do homem no mundo. Quando ela se prende ao estar, temos a chamada identidade ôntica, relacionada ao ente, ens-entis, referente ao homem que não ascende à essência, vez que não empreende aquela busca e, consequentemente, não luta para conquistar a substância do humano. Essa identidade diz respeito à vida social do indivíduo, em sua relação direta com o outro, entendido como ser social, que pode lhe complementar, à medida que o conjuga ao todo [...] outra faceta da identidade, a relativa ao ser,

esse, identidade ontológica, que compreende a busca da substância do

humano de forma consciente, a fim de o homem ultrapassar os próprios limites, mormente aqueles relacionados à condição humana. Identidade entendida como processo, porquanto envolve a existência em toda a sua extensão metafísica. 20

Nesse sentido, poderíamos sugerir que a Rua Larga compreende a identidade ôntica, pois que nela cabem os poetas, a poeira, o amor e a Light, elementos que demonstram a relação com o outro, essa conjugação de que fala José Fernandes, enquanto complementação do ser. A Rua Estreita é reveladora da identidade ontológica, resultado da travessia, da transcendência não alcançada pelo eu lírico que ainda se encontra em estado de ente, marcado pela desconfiança e temor. O estreitamento seria a transfiguração de um ser terminado, que carrega a sua própria fala e a sua própria linguagem, ao ultrapassar seus próprios limites. Assim, o sentimento do estar no mundo é robustecido pela temporalidade e pela percepção que o eu lírico apresenta face à observação que empreende em sua convivência com o outro, concluindo sobre a necessidade do fim de um mundo caduco e do surgimento de um mundo novo, possível de se perceber dada a presença das imagens urbânicas na poesia em Sentimento do Mundo.

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FERNADES, José. Identidade ôntica e ontológica do ser homem na linguagem de Grande Sertão: Veredas.

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