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Brinquedos e Jogos: os materiais para brincar

2.1. Sobre o jogo

2.1.3 Brinquedos e Jogos: os materiais para brincar

Como dito anteriormente, o brinquedo pode ser caracterizado como fornecedor de significações que a criança manipula livremente. Os jogos pressupõem a presença de uma função como característica predominante. Em geral, há regras de utilização mais determinadas.

Há vários estudiosos que se preocuparam em estabelecer classificações de jogos e brinquedos, com diferentes critérios e finalidades diversas. Muitas dessas classificações e análises dão ênfase ao objeto. Algumas buscam complementar com a observação do sujeito, o ato de brincar. Porém, parece que a maioria busca identificar a função contida nesses objetos.

De acordo com Michelet (1992), a análise e classificação de jogos e brinquedos têm aspectos importantes para diversas áreas, que podem ser agrupadas nas seguintes categorias: etnológicas ou sociológicas; filogenéticas; psicológicas e pedagógicas.

O trabalho de Garon (1992 e 1997), denominado sistema ESAR, constitui uma extensa análise psicopedagógica de jogos e brinquedos que permite descrever, num repertório, as funções valorizadas em cada brinquedo. Esta análise tem por base os critérios de classificação de Piaget - jogo de exercício, simbólico, de construção e de regras.

A ideia de funcionalidade do brinquedo, seja como instrumento educativo ou ferramenta para o desenvolvimento infantil, é a marca dessa análise. O sistema ESAR faz a análise do objeto, supondo as potencialidades de uso, buscando identificar as competências da criança que estarão relacionadas ao uso do brinquedo analisado. Propõem-se a auxiliar os profissionais, como educadores e brinquedistas, na escolha dos materiais a serem utilizados com as crianças.

Michelet (1992) apresenta uma classificação de jogos e brinquedos de acordo com os critérios estabelecidos pelo ICCP (Intemational Council for

Children's Play), cujo objetivo é o de favorecer o jogo infantil. Essa classificação, que pretende ser uma ferramenta utilizada nas brinquedotecas e por educadores, é realizada a partir de quatro qualidades fundamentais, com as quais o brinquedo pode ser analisado:

• o valor funcional: caracterizado pelas qualidades intrínsecas do brinquedo;

• o valor experimental: o que a criança pode fazer ou aprender com seu brinquedo em todos os níveis, como fazer ruído, rodar.

• construir e classificar;

• o valor da estruturação: o conteúdo simbólico do objeto, como ninar a boneca;

• o valor da relação: a forma segundo a qual o brinquedo facilita o estabelecimento de relações entre as crianças, como jogos de papéis e jogos de dama.

Para Brougère (1995), o jogo pode ser visto como um objeto que tem regras, e que possui uma função específica. O brinquedo não parece ter uma função definida, é um objeto que apresenta um expressivo valor simbólico, objeto infantil distinto e específico, cuja função parece vaga. Ele afirma ainda que a função do brinquedo seja a brincadeira.

Nesse sentido, Brougère (1995) aponta que o jogo e o brinquedo podem ser analisados de modo diferente quanto à função e à significação. É preciso considerar dois pólos existentes no universo dos objetos lúdicos. O pólo do brinquedo, cujo domínio é simbólico, e pólo do jogo, no qual o domínio da função se faz mais presente.

Ao se referir à análise de funções do brinquedo, Brougère (1995) afirma que é um objeto marcado pelo domínio do valor simbólico; a dimensão simbólica torna-se a função principal do brinquedo. Pode-se dizer que a função primeira deste objeto é a atividade lúdica, e atividade supõe ações, que não são determinadas pelas análises do objeto. A atividade lúdica sempre envolve ações e significados, e estes elementos são, em parte, a interpretação que a criança faz do brinquedo que, por sua vez, está relacionada a muitos outros fatores, dentre eles um complexo contexto sócio-cultural.

Assim, na tentativa de realizar uma análise do brinquedo, é preciso conceder mais lugar ao parâmetro individual na diversidade de usos de um mesmo brinquedo. O que importa é a possibilidade que a criança tem de integrar o objeto na dinâmica de sua brincadeira. A discriminação do brinquedo mais adequado parece difícil, só a observação atenta do brincar da criança pode ajudar a descobrir aquele que corresponde às expectativas e às necessidades da criança (BROUGÈRE, 1992).

Bomtempo (1997) também ressalta que a parte mais importante da classificação e da análise de jogos e brinquedos é a leitura da criança. A autora propõe que sejam considerados na análise: o objeto, a criança e a relação criança objeto. A classificação proposta por Bomtempo (1990 e 1997) baseia- se em critérios relacionados ao desenvolvimento e aprendizagem, que deve ocorrer em três passos:

reconhecimento do objeto: consiste na manipulação do objeto pelo

adulto, visando a verificar suas qualidades: ser durável, atóxico, cores atraentes etc. Assim o adulto deve brincar com o brinquedo, a fim de fazer a sua leitura do objeto;

seleção do objeto: realizada através das seguintes categorias:

1) tipo de brinquedo - se o brinquedo é estruturado, semi-estruturado ou desestruturado, se possui regras explícitas ou não, seu grau de complexidade etc.;

2) aspectos relacionados ao desenvolvimento e aprendizagem - focaliza o que a criança pode aprender com a manipulação como, lateralidade, discriminação espacial etc.;

3) possibilidades de utilização - as finalidades sugeridas pelo brinquedo como, brincar de casinha; e,

4) pré-requisitos - consiste no que a criança precisa saber para brincar adequadamente com o brinquedo como conhecer cores, números, estar alfabetizada etc.;

adequação do objeto: a partir da sugestão quanto à faixa etária

adequada a cada brinquedo analisado, segundo os critérios descritos acima, deve-se realizar a observação de crianças brincando em grupo

ou isoladamente, o que dará a leitura do brinquedo feita pela criança. As observações poderão ser completadas por entrevistas com os pais, professores, fabricantes e com a própria criança.

É interessante observar ao mesmo tempo em que algumas análises estão ligadas ao objeto, o relevante é auxiliar aos fabricantes, aos organizadores de brinquedotecas e àqueles que elaboram pesquisas, como os estudos apresentados por Garon (1992) e Michelet (1992) enfatizando a ação da criança diante do brinquedo, como nas análises propostas por Bomtempo (1990 e 1997) e Brougère (1992 e 1995).

Isso parece demonstrar a ideia concomitante e por vezes confusa de objeto e da ação, no que se refere a jogos e brinquedos. Por outro lado, parece reforçar a definição proposta de brinquedo e jogo como objeto, como suporte para a atividade lúdica e do termo jogo como sinônimo de brincadeira relacionado às ações da criança.