4. Medidas da BRI nos estados-membros da ASEAN
4.1. Brunei
Como ponto de partida da nossa análise, o Brunei surge como uma oportunidade de explorar um país que apresentou uma adesão fácil e significativa à BRI. Possivelmente, podemos associar esta situação a dois factores. Primeiro, desde o estabelecimento das relações bilaterais entre o Brunei e a China em 1991, que ambos têm mantido uma relação comercial e económica estável, tendo-se observado um aumento constante das trocas comerciais entre ambos, com a China a exportar principalmente maquinaria pesada e estruturas de ferro para construção, e o Brunei a exportar produtos alimentares, e o crucial petróleo (Putra, 2021, 6).
O segundo fator a ter em consideração é a visão que tem guiado as decisões do Brunei desde 2008, o Wawasan Brunei 203515. Curiosamente, esta iniciativa apresenta várias semelhanças ao Sonho Chinês, e muitos dos seus objetivos vão de encontro com o que a BRI pode oferecer. O Wawasan Brunei 2035 é a visão do Sultão Hassanal Bolkiah e tem três objetivos essenciais: melhorar o sistema educacional e assegurar a posição do Brunei como um local dominado por mão de obra qualificada: melhor a qualidade de vida da população através de investimentos nas áreas da saúde e ambiente; e criar uma economia mais dinâmica e diversificada para o Brunei. Para alcançar este objetivo, o Brunei definiu um conjunto de 13 setores prioritários, nos quais inclui os setores da infraestrutura, agricultura, comunicação e desenvolvimento económico local, os quais seriam ideais para a aplicação da BRI (Wawasan Brunei 2035 Project; Goulard, 2021).
Este ambiente favorável levou ao lançamento do Corredor Económico Brunei-Guangxi em Setembro de 2014 na 11ª Expo China-ASEAN em Nanning. O Corredor previa no mínimo 500 milhões de dólares de investimento e teria o objetivo de promover a cooperação nas áreas da agricultura, turismo, produção de comida halal e farmacêuticos halal para o mercado muçulmano chinês e internacional, bio-inovação, de fomentar a exportação de petróleo por parte do Brunei, os investimentos chineses na região, e desenvolver o progresso tecnológico do Brunei (Embassy of the RPC in Brunei Darussalam, 2014; Rana & Ji, 2019, 97).
De facto, a abertura deste Corredor viu um aumento significativo do investimento chinês no Brunei. Logo em 2014, o governo do Brunei assinou um acordo com o Guangxi Beibu Gulf Group para este assumir a gestão do Porto de Muara no Brunei, com o
15 Também conhecido como a Visão Nacional 2035.
40 compromisso de expandir a capacidade do porto de 220 mil para 1 milhão de contentores em 2021 (Storey, 2018, 4). É de notar que os principais projetos de construção chineses no Brunei não só favoreciam a posição chinesa no país, como também ajudavam a avançar o Wawasan Brunei 2035. Nos anos que seguiram a China State Constructing Engineering Corporation financiou a construção da Ponte Temburong, num investimento que correspondeu a 1,2 mil milhões de dólares. Esta tornou-se numa das principais infraestruturas do país, conectando as duas metades do Brunei e facilitando o transporte de produtos e pessoas. Outros projetos financiados pela China incluem a Autoestrada Telisai Lumut que permitiu melhorias nos transportes entre várias secções industriais do Brunei, e a Barragem Ulu Tutong que ajuda a lidar com o problema das monções (e consequentemente ajuda a agricultura) como permite uma maior produção energética.
Para apoiar estas operações chinesas na região, o Banco da China abriu uma sucursal no Brunei em 2016 (CDR, 2021; Hamdan & Hoon, 2019, 93). Paralelamente, e cumprindo com um dos objetivos da visão do Brunei, a empresa chinesa Huawei Communications tem levado a cabo esforços significativos no desenvolvimento tecnológico do Brunei. A Huawei expandiu a rede de comunicações do Brunei, garantiu o acesso da população à internet 5G e criou programas de bolsas para estudantes de engenharia bruneanos para a Universidade de Shenzhen (Bodetti, 2019).
Porém, os principais projetos da BRI no Brunei assumem a forma de parques industriais (os quais serão recorrentes nos restantes membros da ASEAN) associados à exploração petrolífera. Em 2017, num esforço conjunto com a empresa bruneana Damais Holdings Ltd, a empresa chinesa Zhejiang Hengyi investiu no desenvolvimento de um complexo petroquímico em Pulau Muara Besar, perto do porto de águas fundas de Muara, com um investimento inicial de perto de 4 mil milhões de dólares, e um segundo investimento de 12 mil milhões de dólares em Setembro de 2019 para completar a segunda fase de construção deste complexo até 2022, com a Hengyi a deter 70% do complexo, e a Damais os restantes 30% (Storey, 2018, 4-5; CDR, 2021; Lawrence, 2021, 406-407). Este projeto surgiu num momento crucial para o Brunei, pois em 2016 este foi alvo de uma recessão económica devido à queda dos preços do barril do petróleo, e considerando que 80% das exportações bruneanas nesse ano correspondiam a petróleo e gás, o Brunei necessitava desesperadamente de apoio. Paralelamente, a realização de que as reservas petrolíferas bruneanas ficariam esgotadas em 20 anos, a não ser que fosse arranjada uma solução para a exploração das mesmas ao mesmo tempo que se desenvolvia
41 outros setores da economia, e a BRI surgiu como o candidato mais apropriado para este problema (Tirezzi, 2018; Jennings, 2018).
Este projeto surge como uma oportunidade para ambos os países. Para a China, surge como um pilar chave para garantir a sua segurança energética e petroquímica, ao mesmo tempo que demonstra o sucesso da BRI. Para o Brunei, permite que este desvie o foco para a esfera interna e diversifique a economia. Ao mesmo tempo que o complexo em Muara assegura perto de 10 mil postos de trabalho aos bruneanos, ao mesmo tempo que promove a economia local e a expansão da mesma para outras áreas. De forma a garantir que tal acontece, a Zhejiang Hengyi criou um conjunto de provisões que garantiam que mais de 60% dos trabalhadores tinham que ser do Brunei, como assegurou um acordo entre a Universidade do Brunei Darussalam e a Universidade de Zhejiang para garantir bolsas de estudos e expandir o departamento de engenharia da primeira, tal como financiou a criação de escolas na região. Paralelamente, o governo do Brunei obrigou a Zhejiang Hengyi a assinar acordos que garantam a integridade ambiental do Brunei, com atenção especial para a fauna local (Lawrence, 2021, 408).
Para todos os efeitos, gradualmente a visão do Sultão Hassanal para o seu país está a realizar-se com o apoio da BRI. Em 2018, a economia do Brunei viu uma melhoria modesta, com o défice orçamental a baixar de 2,6 mil milhões de dólares para 1,5 mil milhões de dólares, estando esta recuperação associada principalmente ao aumento do investimento direto estrangeiro por parte da China e à recuperação da indústria petroquímica. Num discurso ao parlamento do Brunei em Março de 2018, o monarca declarou que a diversificação da economia do Brunei é imperativa para alcançar os planos até 2035, e que para isso o Brunei deveria continuar as políticas dos últimos anos, nas quais estão incluídas os projetos da BRI (Bowie, 2018; Hamdan & Hoon, 2019, 85-100).
No ano seguinte, a 26 de Abril de 2019, o sultão realizou uma visita estatal a Pequim onde se reuniu com Xi Jinping reforçando a relação que os dois países desenvolveram entre si.
Ambas as partes concordaram em aumentar o alinhamento da BRI com o Wawasan Brunei 2035 através da expansão dos projetos da BRI no Brunei, ao mesmo tempo que se comprometeram a assegurar a paz no Mar do Sul da China (Bandial, 2019; Ministry of Foreign Affairs of the PRC, 2019).
Esta tendência manteve-se nos anos seguintes com o conselheiro estatal chinês a realizar uma visita ao Sultão em Bandar Seri Begawan a 14 de Janeiro de 2021, para celebrar os 30 anos de relações entre os dois países, na qual reforçou o compromisso da
42 China de expandir os projetos petroquímicos do Hengyi Group, de aumentar o investimento no Corredor Económico Brunei-Guangxi e de assegurar ao Brunei os meios de combate necessários contra a pandemia de Covid-19 (Xinhua, 2021). No final de 2021, as trocas comerciais bilaterais entre os dois países alcançaram um máximo histórico, chegando aos 2,85 mil milhões de dólares, mantendo um crescimento anual constante de perto de 28% (Kon, 2022).
Como primeiro objeto de estudo, o Brunei aparenta ser um caso exemplar de como a BRI consegue expandir a hegemonia chinesa dentro de um país e na região em que este se encontra. Podemos argumentar que o futuro próximo do Brunei está numa posição de dependência para com a BRI. O Wawasan Brunei 2035 é um projeto que assume uma importância equivalente ao Sonho Chinês no que diz respeito ao futuro económico, social e político da nação, e como foi observado, o projeto bruneano tem a BRI como pilar de suporte principal. Foram os investimentos da BRI que permitiram a diversificação da economia bruneana nos últimos anos, garantindo essencialmente uma boia salva-vidas aos planos do sultão. Consequentemente, podemos argumentar que o próprio poder político do sultão está em causa, pois como monarca absoluto, ele é o único responsável pelo projeto. Lawrence (2021, 413-414) partilha esta visão argumentando que a diversificação económica permitida pela BRI serve como mecanismo de legitimação do poder do sultão no seio da população. Considera que, de facto, os benefícios económicos para o Brunei são notáveis, mas vêm com um aumento da dependência económica e política para com a China, um risco que o sultão aparente estar disposto a aceitar.
Paralelamente, Storey (2018, 5-6) e Putra (2020, 9-10) ambos consideram que a BRI foi um mecanismo de resolução de qualquer disputa que a Linha de Nove Traços chinesa possa causar com o Brunei no Mar do Sul da China. Através da BRI e dos seus investimentos na indústria petroquímica, a China conseguiu assegurar recursos essenciais para a sua segurança energética que se encontram a uma distância significativa da sua ZEE. Putra acrescenta que apesar do Brunei de ter uma postura tradicionalmente defensiva perante quaisquer pretensões sobre a sua ZEE, e até ter as suas próprias reivindicações sob o território malaio, as cedências que este fez para com a China na questão do Mar do Sul da China são um sinal claro de que o Brunei reconhece a China como um poder regional. Ou seja, o Brunei está disposto a abdicar da sua postura defensiva, desde que a BRI continue a assegurar os interesses nacionais do Brunei e a sua segurança interna.
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