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Burrel e Morgan e a discussão dos paradigmas

3. A racionalidade nas Ciências Sociais

3.2. Burrel e Morgan e a discussão dos paradigmas

BURREL e MORGAN localizam essas diferentes correntes de pensamento sociológico e organizacional na estrutura paradigmática apresentada em seu livro Sociological Paradigms and Organisational Analysis. Esta discussão paradigmática nos ajudará a caracterizar o funcionalismo, e analisar seu papel na racionalidade administrativa.72

Das diversas tentativas de definir-se paradigmas que enquadrassem o pensamento atual na área, o modelo de BURREL e MORGAN foi dos que mais atraíram a atenção dos pesquisadores.73 Os autores partem da hipótese de que

todas as abordagens de ciências sociais, bem como as organizacionais, trazem "embutidos" pressupostos de naturezas diversas, que determinarão os rumos (e os resultados) da pesquisa.

Tais pressupostos são organizados em duas dimensões, a dos pressupostos acerca da natureza da ciência social, e a dos pressupostos acerca da natureza da sociedade.

Na primeira dimensão, quatro "variáveis" (debates)74 são analisadas, com

o objetivo de fixar-se extremos que possam conter as posições existentes:

1. Ontologia - organiza os pressupostos acerca da natureza íntima da realidade, sua essência: nos extremos, a natureza é objetiva (tem uma existência própria, externa e independente de nossa consciência sobre ela), caso em que ocorre um posicionamento realista; ou subjetiva (é produto mesmo da consciência cognitiva de um sujeito), caso em que temos um nominalismo;

2. Epistemologia - busca compreender os pressupostos acerca do grau de conhecimento possível sobre a realidade, e de seus critérios para

71Cf. Burrel e Morgan, op. cit.; cf. tb. Bertero, C. O. "Influências sociológicas em teoria

organizacional", R.A.E. 15(6), nov-dez 1975, F.G.V.-R.J., pp. 27-37; vide também Guerreiro Ramos, citado mais à frente.

72E, subsidiariamente, localizar a Escola de Frankfurt, que será introduzida como produção crítica à

racionalidade utilitária, mais à frente.

73Cf. Hassard, John "Multiple paradigms and organizational analysis: a case study", Organization

Studies, 12/2, 1991, pp. 275-299.

74Na verdade, pertencem a categorias distintas, porém não são completamente independentes, conforme

se verá: dificilmente se poderá escolher um conjunto aleatório daqueles pressupostos sem que seu sistema incorra em graves contradições internas - há que haver uma coerência entre o posicionamento dentre as diversas categorias; e portanto não se constituem em "variáveis", em sentido estrito.

"verdade" ou falsidade. Selecionam duas posições por contraposição à epistemologia positiva: o positivismo e o "antipositivismo";75

3. Natureza humana - traz o debate sobre o relacionamento entre o indivíduo e seu ambiente social. Nos casos extremos, a ação do primeiro determina (voluntarismo), ou é determinada (determinismo) pelo segundo;

4. Metodologia - dadas a natureza da realidade e do conhecimento, existem maneiras deste último investigar a primeira, e que estão bastante relacionada com os próprios pressupostos respectivos, assumidos anteriormente. Em termos de posicionamento, pode-se ser metodologicamente nomotético (dirigido por normas rígidas de investigação, ligada a definição e medida de variáveis, e buscando o universalmente válido, como num laboratório de física), ou ideográfico (enfatizando a compreensão e interpretação individualizada dos fenômenos, conforme seu significado para o indivíduo).

BURREL e MORGAN constróem então um eixo para a natureza da ciência social, agrupando, de um lado, os posicionamentos realista, positivista, determinista e nomotético, referentes aos debates citados, fixando um extremo objetivo; e, do outro, o nominalismo, o antipositivismo, o voluntarismo e a posição ideográfica, fixando um extremo subjetivo. Determinam assim a primeira dimensão: a subjetiva-objetiva76.

Na segunda dimensão, a dos pressupostos sobre a sociedade, os autores revitalizam o debate sobre a ordem ou o conflito como característica essencial da sociedade e categoria privilegiada para seu entendimento. Recuperando o histórico do debate, concluem que houve um esmorecimento na discussão, pelo fato dos teóricos "da ordem" terem conseguido abarcar o fenômeno do conflito em suas teorias, destruindo (indevidamente) a oposição real que existe entre as duas posições. Entendem BURREL e MORGAN que tal se deve a uma má caracterização das diferenças de concepção de fato existentes (entre, por exemplo, MARX e DURKHEIM), e propõem uma nova categorização: equilíbrio (regulation77) "versus" mudança radical (radical change), definindo assim a

segunda dimensão.

A superposição das duas dimensões fornece-nos uma figura plana dividida em quatro regiões, cada uma definindo um paradigma, isto é, um conjunto de pressupostos coerentes que dão liame a uma série de construções teóricas que passam a pertencer à mesma família, sem prejuízo do parentesco distante que possam ter em outros paradigmas. Os paradigmas são o funcionalista (objetivo, equilíbrio), o estruturalista radical (objetivo, mudança radical), o

75Em "antipositivismo" tem-se, na verdade, uma gama variada de posições epistemológicas. 76E este é o sentido que passamos a atribuir aqui a estes dois vocábulos.

77Alguns preferem a tradução literal, "regulação". Entendemos que este termo não é muito significativo

para o administrador brasileiro, e optamos por equilíbrio. Teorias organizacionais que explicitamente buscam entender a realidade organizacional deste ponto de vista (e foram assim classificadas por BURREL e MORGAN), tiveram tal tradução no Brasil: p. ex.: o behaviorismo, como teoria do equilíbrio (Cf., p. ex.: Etzioni, Amitai Organizações complexas, S.P., Atlas, 1973, pp. 70 e ss.). Burrel e Morgan também se utilizam da expressão status quo, denotando um caráter conservador às teorias com este posicionamento.

interpretacionista (subjetivo, equilíbrio) e o humanista radical (subjetivo, mudança radical), conforme a figura 3, abaixo.78

Mudança radical Equilíbrio Objetivo Subjetivo funcionalismo estruturalismo radical humanismo radical

Fig. 3 - Os quatro paradigmas sociológicos de Burrel e Morgan. interpreta-

cionismo

Assim, o paradigma funcionalista congrega as teorias próximas ao que tradicionalmente foi chamado de funcionalismo estrutural, isto é, as intelectualmente descendentes de COMTE, SPENCER, DURKHEIM, e PARETO: o positivismo social, que traz a física e a biologia para dentro da sociologia; antropólogos que também se utilizam da "analogia biológica", como MALINOWSKI (o criador do termo), e RADCLIFFE-BROWN;79 também WEBER,

através de sua interpretação por PARSONS e a teoria da ação social. Neste terreno, BURREL e MORGAN situam ainda a teoria de sistemas e a cibernética, o behaviorismo; e outras teorias, menos objetivas, mas ainda "deste lado" do muro, como o interacionismo simbólico de SIMMEL e MEAD; e a tradição de estudo da burocracia (a teoria integrativa, como chamam, de MERTON, SELZNICK, e outros).80 Correspondentemente a essas teorias sociológicas, a

grande maioria das teorias organizacionais encontram-se neste paradigma,

78Adaptado de Burrel e Morgan, op. cit., p. 29.

79A original utilização do termo prende-se a tal analogia: como na célula, a função (fisiologia),

estreitamente ligada à estrutura (morfologia) e ao desenvolvimento (morfogênese), fornecem ao pesquisador os instrumentos para o conhecimento da realidade. A proncipal característica desta analogia é a idéia, introduzida por Spencer, de sistema auto-regulado, em que as partes integram-se concorrendo para o funcionamento do todo.

80A determinação do que se insere num ou noutro paradigma, e o caráter "conclusivo" do modelo estão

na "linha de tiro" das críticas aos paradigmas de Burrel e Morgan. O modelo, porém, a nosso ver, sofre dos problemas gerais de toda e qualquer taxionomia: ajuda sobremaneira a compreensão, fornecendo uma visão global do universo teórico, mas tudo fica "mal encaixado", como não poderia deixar de ser. Assim é que Weber, para citar um exemplo, não fica confortável em nenhum paradigma; "engastá-lo" dentro de um seria "concluir" um debate, ainda em curso, por decreto ("foi Weber um paladino do capitalismo?"); verifica-se, portanto, que esta (e outras) classificações dependem de interpretação do autor classificado, e, portanto, do paradigma aonde o intérprete se localiza, o que nem sempre é muito claro. Por exemplo, aonde Burrel e Morgan colocariam Burrel e Morgan? o modelo dos paradigmas pertence a qual paradigma? A questão colocada remete a problemas de recursividade teórica, que deveriam ser tratados (os autores provavelmente tratariam se se considerassem dentro de um dos paradigmas subjetivos). Não obstante, a contribuição teórica de Burrel e Morgan ao conhecimento organizacional é indiscutível, conforme ainda se verá na Conclusão.

carregando consigo o arcabouço de pressupostos funcionalistas, conforme veremos.

O paradigma interpretacionista, partindo de uma visão que privilegia o equilíbrio, de um ponto de vista subjetivo, caracteriza os trabalhos influenciados por DILTHEY, HUSSERL, SCHUTZ, o idealismo alemão, e a "descendência subjetiva" de WEBER, com SILVERMAN,ELRIDGE e outros.

No estruturalismo radical encontramos as correntes teóricas marxistas, de matizes diversos, que reúnem COMTE, DARWIN e HEGEL num sistema revolucionário, dialético, por um lado, e historicista e objetivista, de outro. Dele herdamos a noção de práxis, que se oferece como alternativa à neutralidade positiva do observador, característica eminentemente funcionalista. Aqui encontram-se os teóricos (e revolucionários) russos, como PLEKHÂNOV,LENIN, TRÓTSKI, BUKHÁRIN; ainda ALTHUSSER, POULANTZAS e outras estrelas menores da tradição marxista.

Finalmente, o humanismo radical opõe a maior distância possível do funcionalismo, no modelo. Também oriundo do idealismo alemão, recebe forte influência marxista, mas principalmente dos teóricos afetos ao "jovem MARX", quando este era mais ligado ao subjetivismo de HEGEL (como LUKÁCS, GRAMSCI e outros); engloba a produção teórica anarquista, o existencialismo francês e a Teoria Crítica da Escola de Frankfurt, sobre a qual nos deteremos mais adiante.