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Busca de um momento para refletirmos juntas.

AS HISTÓRIAS QUE QUERO CONTAR.

2. O encontro com a professora Mônica.

2.3 Busca de um momento para refletirmos juntas.

No momento em que ainda tinha dúvidas sobre o que seria fazer pesquisa na escola, comentei com a Mônica que não sabia em que medida estava ajudando e que sentia vontade de sair da escola, de fugir. Mônica falou para mim: “nós não estamos refletindo juntas”. A partir desse momento, começamos a ter encontros fora da sala de aula para conversar sobre sua prática, suas dúvidas, inquietações, angústias e as questões que eu consegui enxergar. Acho que o mais importante foi ver a necessidade de refletir juntas e, a partir disso, decidimos ter encontros todas as 6as. feiras (as possíveis), na hora de Ed. Física, para conversar, pensar. Além disso, antes de iniciar as “nossas conversas fora da sala de aula”, decidi iniciar com a escrita de uma série de cartas a Mônica. A prática de “escrever para o outro”129 já tinha sido realizada por mim e comentei com Mônica que estava decidida a fazer um retorno do que eu conseguia enxergar estando na sua sala de aula. As cartas foram importantes para Mônica, segundo ela comentou:

E - e-mail encaminhado pela professora Mônica, 29 de junho de 2004.

Agora, para mim é muito bom ter esse outro olhar... Principalmente pq vc já tem bastante experiência em sala de aula - é certo que, com outros alunos, outra realidade, outras necessidades. Mas, é sempre um olhar de construção e isso faz que eu me sinta muito à vontade com vc.

E - e-mail encaminhado pela professora Mônica, 14 de setembro de 2004. Acabo de ler suas cartas...

Estou emocionada. A dinâmica da escola e da vida acabam promovendo na gente um esquecimento daquilo que é significativo.

Eu tinha pouca, quase nenhuma lembrança dessas situações que vc narra. Em alguns momentos, nem mesmo consegui fazer relação com o ocorrido, mas penso que - novamente - esse olhar externo tenha muita importância para que eu me encontre nesse movimento...

129

E - e-mail encaminhado pela professora Mônica, 22 de setembro de 2004.

Acho que essas cartas que possamos trocar ajudarão nessa construção conjunta do meu

fazer educativo e da sua pesquisa.

Queria explicitar que não foi possível a troca de cartas. A professora Mônica encaminhou alguns e-mails para mim, alguns deles apontavam o que essas escritas tinham provocado nela e outros mostravam algumas de suas inquietações em relação aos seus alunos.

Considero importante trazer aqui alguns indícios a partir da fala da professora Mônica. Indícios para considerar neste trabalho: ela e eu, a professora e a pesquisadora, o fazer educativo e a pesquisa. É a professora que aponta que, nesse nosso encontro, no diálogo, poderemos construir o que cada uma de nós faz na escola: ser professora e ser pesquisadora. A professora Mônica, mais uma vez, provoca-me com seus dizeres, afirmando apostar na potencialidade de este encontro, que surge a partir do desenvolvimento da pesquisa na escola, ser formativo tanto para ela como para mim. Acredito que essa fala da professora ganha forças neste trabalho porque enfatiza e traz visibilidade para pensar na pesquisa atrelada à formação quando no encontro com o outro.

Para mim, foi importante a escrita dessas cartas porque, a partir da escrita, conseguia amarrar alguns sentidos: distanciar-me, olhar de um lugar exterior; acredito que o momento da escrita tenha sido o momento do “desdobramento de olhares” do qual nos fala Amorim (2003) referindo-se à exotopia. Momento de escrita que me possibilitava olhar para a professora Mônica e sua prática evidenciando coisas que ela mesma não conseguia enxergar e que eu, de um lugar exterior, conseguia ver.

No geral, as cartas mostravam o movimento do que tinha acontecido nas aulas das quais eu participava, retomavam as nossas conversas e também expunham as minhas inquietações a partir de algumas atitudes da professora Mônica que, para mim, eram estranhas, sabendo dos seus pensamentos e de seu posicionamento sobre certas questões. Apresento alguns fragmentos de cartas enviadas para a professora Mônica.

C1- Carta encaminhada à professora Mônica, 18 de agosto de 2004.

Falamos de Mário e Luciano que continuam sendo alunos que a preocupam. Acho que seria bom que você estivesse perto deles e trabalhasse junto com eles nos momentos em que eu estou na sala de aula, enquanto eu fico com o resto. Eu falei isso porque sinto que eles

precisam ter com você esse corpo a corpo, esse estar mais de perto. Sei quanto é difícil dentro de uma sala com tantas crianças ter esse corpo a corpo.

C1- Carta encaminhada à professora Mônica, 19 agosto de 2004.

O Mário me falou: Tia, você me ajuda? Tia, o que eu escrevo?Escrever um poema?

Lembro que falei para você que tinha alguns alunos escrevendo histórias. Você foi à lousa e escreveu duas estrofes, para que eles olhassem a estrutura. Aí eu pensei: Será que já foi

trabalhada a idéia de poema antes?

Você saiu com Milton da sala para pedir ajuda a Amanda [professora educação especial], para que ela a auxiliasse com o Milton.

Quando você saiu, eu li para todo mundo o que tinha escrito Luciano, era um verso muito sonoro. [...] Depois dessa leitura, muitas crianças quiseram que eu lesse a produção deles, e em alguns casos, falaram para eu ler para os colegas.

Você voltou com Milton e acho que conseguimos por primeira vez, trabalhar juntas com todo o grupo. Mônica, a dinâmica desse dia foi muito boa. Eles se entusiasmaram em mostrar para os outros as criações deles, eles estavam com muita vontade de produzir, chamavam-nos para que olhássemos as suas produções, mostrando interesse.

Lógico que eu não vou esquecer do Mário, não é? O Mário escreveu: O Botafogo é um jogador.

Quanto mais a bola rola Não sei como não Fica tonta.

Queria comentar com você que a Fátima escreveu um poema usando as seguintes palavras: peidou, fedor, morreu. Chama-me a tenção que ela fale em coisas desagradáveis. Você tinha falado de escrever sobre coisas que dão felicidade e ela escreveu sobre esse pássaro que peidou e finalmente morreu. [...]

Alguns tinham dificuldades ainda e continuavam escrevendo histórias; então, fui até a lousa e mostrei na estrofe que você tinha escrito o que era o verso. Logo, você escreveu uma lista de rimas na lousa.

Acho que o mais importante do dia foi que todas as crianças produziram, até Mário e Luciano. [...]

C1 - Carta encaminhada à professora Mônica, 19 de agosto de 2004.

De nossa conversa acho que o grande tema foi o Conselho, os critérios. Você disse para mim que estava mais conservadora. Então lhe perguntei se isso tinha a ver com sua fala do outro dia, quando você comentou que tinha tirado a hora do brinquedo.Você falou que está mais conservadora, preocupada com os conteúdos.

Do gravador, quase sem pilhas, consegui tirar estas frases suas:

“Sou cobrada no conselho pelos conteúdos”. “O professor é desrespeitado no Conselho”. “A gente não tem claro o que a gente tem como critério”. “Estou preocupada pelo entusiasmo de aprender e nem o reforço e nem a tarefa são instrumentos que provoquem esse entusiasmo de aprender”.

Outras falas suas que não podemos esquecer: “Eles estão sabendo do jeito que têm que saber”.

“Estou tentando fazer as duas coisas”. “A rotina é uma camisa de força como processo de criação”.

“A escola me impõe tempos, tenho que dar conta que eles aprendam”.

Sobre o Conselho você colocou: “tenho que produzir folhinhas para minhas colegas”. Quando falamos do combinado de você ficar perto de Mário e Luciano e de como esse combinado não deu certo, acho que você não ficou muito tempo sentada e você me disse: “sou como eles”. [...]

C1 - Carta encaminhada à professora Mônica, 27 de setembro de 2004.

Sinto, às vezes, que você quer se revelar contra este sistema de escola, com o que está instituído. Sinto também que você quer revalorizar a cultura das crianças porque você sente que é o único caminho que dá sentido à escola. Mônica, [...] penso, sinto, que as dificuldades que você está encontrando no seu caminho têm a ver com não poder conciliar essas duas coisas, ou seja, ensinar o que na escola as crianças têm que aprender e aí você e eu podemos falar: ler , escrever, fazer contas etc. e, por outro lado, essas outras coisas que não estão no currículo e que você acredita que têm que ser trabalhadas na escola. Por que privar as crianças da lousa (com tudo o que a lousa deve estar significando para você)? Por que privar as crianças da música? Será que dá para fazer as duas coisas?

Ao longo do ano, percebi que as pedras colocadas no caminho da professora Mônica tinham a ver com a relação entre a cultura da escola e a cultura das crianças. Muitas vezes, escutei a professora Mônica falar do “buraco” existente entre a cultura da escola e a cultura das crianças. A professora fazia referência à separação, à distância que existe entre essas duas culturas. Por outro lado, esse termo era usado pela professora também com outros sentidos: “o buraco está entre o que eu sou capaz de produzir com eles e que se concretiza em aprendizagem efetiva, o que é que se consolida como aprendizagem”. A preocupação é a aprendizagem de seus alunos e alunas.