• Nenhum resultado encontrado

Buscando os elementos comuns na diversidade

No documento reinaldodasilvajunior (páginas 151-153)

3. Pensando os fundamentos da experiência com o sagrado feminino no Brasil

3.2. Um mergulho na experiência religiosa brasileira

3.2.1. Buscando os elementos comuns na diversidade

A percepção do arquétipo como uma força psíquica de significação universal é fundamental quando procuramos encontrar elementos comuns na expressão da diversidade cultural, pois se não concebemos a existência de algo que atravessa as diferenças locais e históricas, dando um nexo holístico aos diversos fragmentos momentâneos da vida esta empreitada de buscar pontos de encontro para o diálogo seria em vão. Parece ser esta a visão do líder daimista: “Sei que o Daime não é para todo mundo, cada um tem seu caminho, o que queremos é que, se a pessoa vem aqui ela se sinta bem e livre para viver a força como for melhor para ela. Alguns vêm e descobrem que não é para eles, que o poder é muito grande e que não estão preparados para lidar com ele, nestes momento acho que a condução da mãe é fundamental, ela sabe o melhor caminho para seus filhos”.

Quando se trata da religião parece que a experiência religiosa imediata, ou a mística, é a expressão fenomenológica mais fértil para encontrarmos estes elos de ligação, pois, como afirmo num outro texto “Esta dialética de atirar-se no desconhecido resguardando-se no conhecido é a própria dinâmica da mística, que se atreve a um encontro com o Real e se propõe uma representação simbólica deste encontro, que remete o limitado corpo físico do ser humano a uma dimensão transcendente”355. Assim parece entender também o Babalorixá: “Mãe não tem nome, não tem rosto, não tem nacionalidade, mãe é mãe em todo lugar, ou não? Yemanjá é mãe, Maria é mãe, é uma coisa normal serem uma só; só quem tem a mente muito fechada não vê”.

Esta concepção de um sagrado maternal é o que mais ressalta na fala dos devotos das três mães que pesquisamos: “Se Deus é duro, tem Maria para contemporizar”, “A Rainha toma conta, está alerta e vem nos avisar quando as coisas não estão corretas, vem nos dá a direção”, “Yemanjá não abandona um filho, está sempre lá, para amparar e levantar quando a gente cai”. Esta referência aparece também com destaque no questionário léxico, onde a palavra mãe foi praticamente unanimidade. A busca por elementos comuns na diversidade não é uma atitude isolada deste pesquisador, na Conferência Mundial das Religiões, realizada em Kioto, Japão em

1970, já traz em sua declaração a importância de se buscar os elementos comuns das religiões356, isso que as fazem, independente da forma que tomam, uma mesma experiência, que cumpre uma mesma função para todas as pessoas. É esta condição singular que entendemos como essencial para o ser humano e é ao encontro dela que as pessoas vão quando se propõe uma peregrinação ao santuário de Natividade, ou se encontram na festa de Yemanjá.

Isto que vamos chamar de uma essência espiritual vai se mostrar presente não apenas na subjetividade das pessoas, mas também em suas estruturas coletivas e suas manifestações culturais, pois estas dimensões existem em rede, numa trama indissociável, como nos mostra Alvarez357 e como podemos ouvir na fala de uma liderança do santo daime: “As coisas estão ligadas, temos que encontrar a ligação, saber como as coisas são conduzidas, só assim encontramos nosso caminho e ficamos em paz”.

Esta percepção holística da realidade faz com que os fatos da vida ganhem um sentido maior. Esta percepção parece dar aos descendentes dos escravos que vieram do continente africano um alento e uma missão; “Estamos aqui para mostrar o poder dos orixás, para trazer nossa cultura, plantar nossa raiz, não foi à toa que viemos para esta terra, Olorum tinha um propósito”. Mas pode também servir para acomodar, apaziguar a raiva e a revolta que poderiam mobilizar reações contra um sistema de opressão, como afirma a Yalorixá: “Quando deixamos tudo nas mãos dos santos, ficamos omissos, não fazemos a nossa parte, isto não pode”.

Esta percepção, que tem um aspecto de totalidade e de perenidade, por ser uma presença que se mantém na história, dando uma identidade ao grupo que atravessa o momento, resguardando ao mesmo um mecanismo de continuidade que se estende para além dos indivíduos, é isso que talvez pudéssemos chamar de essência de um povo, algo que lhes garante a identidade coletiva e que se mantém entre as gerações, permitindo que reconheça na outra uma continuidade de si. Isto é bem presente nas comunidades religiosas do Candomblé, o sentimento de pertença a uma tradição ancestral.

Como já foi esclarecido anteriormente, quando utilizo a palavra essência não me apego tanto ao conceito, mas sim à ideia, e é a partir desta ideia que desenhamos que

356

GUIMARÃES, Marcelo Resende. Um novo mundo é possível: dez boas razões para educar para a paz, praticar a tolerância, promover o diálogo inter-religioso, ser solidário, promover os direitos humanos. São Leopoldo: Sinodal, 2004. p. 53.

357

ALVAREZ, Mani. Psicologia transpessoal: a nova aliança entre espiritualidade e ciência. Sã Paulo: All print, 2006. p. 29-34.

vamos agora procurar pensar que seria a essência de uma cultura, mais especificamente, qual seria as características essenciais para identificarmos alguém como brasileiro. Focamos nosso olhar na experiência religiosa deste povo a partir de uma amostragem de três tradições religiosas bem representativas da diversidade que compõe nosso povo. Procuramos, a partir do que nos foi mostrado como sendo a representação da experiência com o sagrado feminino, encontrar os elos destas experiências pessoais para captar, ou, para utilizar uma expressão husserliana, intuir aquilo que é essencial nesta experiência.

No documento reinaldodasilvajunior (páginas 151-153)