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DIMENSÕES DISCURSIVAS

4.3 Código de linguagem

O discurso, além de um ethos e de uma situação de enunciação, também supõe um código de linguagem, que participa na construção do sentido do discurso e, por isso, não é usado de forma neutra, mas está sempre a serviço do efeito de sentido que se deseja estabelecer (MAINGUENEAU, 2008a). Nesse sentido, o código de linguagem não é um simples veículo de conteúdo, mas um elemento constitutivo do discurso, um uso específico da linguagem. O código de linguagem é devidamente selecionado com vistas a validar o que o enunciador pretende instaurar por meio do discurso.

Maingueneau (2001), a exemplo de Bakhtin, concebe a língua como uma realidade dialógica e heterogênea, e, do mesmo modo como o discurso só pode ser tomado em relação ao interdiscurso, a língua ou o código de linguagem deve ser considerado em relação à interlíngua. Segundo o autor, a interlíngua diz respeito ao espaço constituído, em uma conjuntura específica, por variedades de uma mesma língua (plurilinguismo interno) condicionadas pela geografia (dialetos, regionalismo...), pela estratificação social (popular, aristocrática...), pelas situações de comunicação (médica, jurídica...), pelos níveis de língua (familiar, oratório; e por línguas diversas (plurilinguismo externo).

Segundo Maingueneau (2008a),

um investimento em um código linguageiro permite, jogando com a diversidade irredutível de zonas e de registros de língua, produzir um efeito prescritivo que resulta de uma conveniência entre o exercício da linguagem que o texto implica e o universo de sentido que ele manifesta” (p. 54).

Essa ideia de código relaciona dois sentidos: código como conjunto de convenções e usos que possibilitam a comunicação e código como conjunto de prescrições. A primeira acepção é pressuposta, enquanto o valor prescritivo do código acha-se subentendido. O efeito prescritivo implica o estabelecimento antecipado de um modo específico de enunciar,

não se podendo fazer uso de outro código de linguagem, com vistas a não falir o universo de sentido que se busca instaurar.

Para Maingueneau (2001), é em função da posição que o escritor ocupa em determinado campo discursivo que ele negocia um código de linguagem para o seu texto a fim de legitimá-lo, não se podendo opor de um lado o conteúdo de um enunciado e a língua de outro, como se esta fosse um simples veículo daquele, pois “a maneira como a obra gere a língua faz parte do sentido dessa obra” (p. 104).

A escolha de um código de linguagem na interlíngua de maneira nenhuma é neutra, pois, mesmo quando o texto parece fazer uso da língua mais “comum”, há embate com a alteridade da linguagem, associada a um posicionamento no campo discursivo.

O código de linguagem será tomado nesta pesquisa como um domínio discursivo em que marcas da infância e das práticas lúdicas das crianças podem se manifestar, corroborando para configurar a canção para crianças como um discurso voltado ao prazer do público infantil.

Segundo Brougère (1998), citando Gregory Bateson, o jogo supõe uma comunicação específica que é, de fato, uma metacomunicação. Através dela, veicula-se a mensagem: “isso é um jogo” e, portanto, para se brincar, é preciso conhecer essa metacomunicação. Ela pode ser implícita ou explícita, verbal ou não verbal. A consideração dessa metacomunicação fundamenta ainda mais nossa hipótese, pois, se há uma comunicação específica que diferencia uma situação lúdica de uma outra não lúdica, também é coerente pensar que o discurso lúdico para crianças seja enunciado a partir de um recorte linguístico próprio, diferente, portanto, daquele utilizado nos discursos não-lúdicos e no discurso lúdico para adulto.

4.4 Intertextualidade

Maingueneau, em sua obra Gênese do Discurso12, apresenta como hipótese central de seu trabalho que “o interdiscurso tem precedência sobre o discurso. Isso significa propor que a unidade de análise pertinente não é o discurso, mas um espaço de trocas entre vários

12

Esta obra foi teve sua primeira edição em 1984 na França. Neste trabalho utilizaremos a edição brasileira de 2008.

discursos convenientemente escolhidos” (2008, p. 20). Essa noção de espaço compõe a tríada da qual o autor lança mão para especificar a concepção de interdiscurso, a qual, segundo ele, é muita vaga.

Antes de apresentar a referida tríada, deter-nos-emos nas duas interpretações, uma fraca e outra forte, que, segundo Maingueneau, essa hipótese pode ter. A primeira, que encontra bastante consenso na AD, indica que o estudo da especificidade de um discurso se faz colocando-o em relação com outros discursos. Já, segundo a interpretação forte, postula-se

o interdiscurso como espaço de regularidade pertinente, do qual diversos discursos são apenas componentes. Em termos de gênese, isso significa que esses últimos não se constituem independente uns dos outros, para serem, em seguida, postos em relação, mas que eles se formam de maneira regulada no interior do interdiscurso (p. 21).

Assim, esses discursos teriam sua própria identidade estruturada a partir da relação interdiscursiva.

Em relação à tríada que Maingueneau propõe para substituir o termo “interdiscurso”, ela trata-se do universo discursivo, do campo discursivo e do espaço discursivo. O universo discursivo é constituído pelo conjunto de formações discursivas de todos os tipos que dialogam em uma dada conjuntura. Representa um conjunto finito, mas de uma grande extensão, a qual impossibilita a apreensão global desse universo. Por isso, compreende apenas o horizonte que servirá de fundamento para a construção de domínios suscetíveis de serem analisados, os campos discursivos (MAINGUENEAU, 2008).

Por sua vez, o campo discursivo é constituído por “um conjunto de formações discursivas que se encontram em concorrência, delimitam-se reciprocamente em uma região determinada do universo discursivo” (p. 34). Segundo o autor, “concorrência” precisa ser entendida tanto como o confronto aberto como a aliança, a neutralidade aparente etc. entre discursos que possuem igual função social e diferem no modo de exercê-la. São exemplos de campos discursivos: o político, o filosófico, o dramatúrgico e o gramatical.

Neste momento, voltamos a falar sobre os espaços discursivos, ou seja, “subconjuntos de formações discursivas que o analista, diante de seu propósito, julga relevante pôr em relação” (p. 35). Esses espaços configuram-se como um recorte derivado de hipóteses decorrentes de um conhecimento dos textos e da história dos mesmos, que serão confirmadas ou não durante a pesquisa.

A hipótese do primado do interdiscurso inscreve-se na perspectiva de uma heterogeneidade constitutiva, a qual fundamenta a existência de uma outra heterogeneidade,

mostrada. Esses dois tipos de heterogeneidade foram formulados por Jacqueline Authier- Revuz (1990), tomando como apoio teórico as colocações do círculo de Bakhtin e da psicanálise. A heterogeneidade constitutiva é intrínseca ao discurso e não apresenta marcas na superfície linguística, não sendo, portanto, localizável nem representável. Já a heterogeneidade mostrada incide na materialidade linguística e é possível de ser apreendida a partir de fontes de enunciação diversas.

Segundo Costa (2012), embora

o interdiscurso seja um primado teórico e analítico, a Análise do Discurso não pode elidir a realidade das relações intertextuais bem como a das relações interdiscursivas e metadiscursivas, isto é, as relações de apropriação e derivação que os textos, realidades empíricas dos discursos, mantêm com outros textos e discursos (p. 34).

Essas relações (intertextualidade, metadiscursividade e interdiscursividade) configuram-se como realidades da heterogeneidade mostrada e encontram espaço nesta pesquisa porque tomamos como pressuposto que o lúdico e o infantil pode se manifestar na canção para crianças por meio dessas relações e temos por objetivo verificar de que modo isso ocorre. Portanto, passaremos à apresentação desses fenômenos discursivos, iniciando pela intertextualidade.

Conforme Piégay-Gros (1996), a primeira concepção de intertextualidade surgiu com Julia Kristeva (1974), no contexto da crítica literária, sob o postulado do dialogismo bakhtiniano. Para Kristeva, a relação que um texto estabelece com outro é sempre constitutiva e todo texto compreende um conjunto de fragmentos de outros textos. O “intertexto” seria, assim, um objeto disperso, mostrando-se inviável sua identificação e classificação, visto que ele se faz presente em toda parte.

De acordo com Piégay-Gros (1996), mais tarde, seguindo uma outra perspectiva, Gérard Genette (1982) passou a estudar os processos intertextuais no discurso literário e apontou cinco tipos de relações: a arquitextualidade, relação entre um texto e um gênero do discurso; a paratextualidade, relação entre um texto e o seu paratexto; a metatextualidade, relação entre um texto e outro de forma indireta; a hipertextualidade, relação de derivação entre um texto (hipotexto) e outro (hipertexto); e a intertextualidade, relação em que ocorre a presença pouco explícita de um texto no interior de outro.

Diferentemente do que propunha Julia Kristeva, para quem a intertextualidade é vista de um modo bastante amplo, Genette aborda a intertextualidade de forma bastante restritiva. Para o estudo que pretendemos realizar aqui, interessa a reorganização que Piegay-

Gros (1996) faz da proposta de Genette, a partir de uma abordagem das relações intertextuais como “estratégias de escrita deliberada”, considerando-se a heterogeneidade generalizada de todo discurso e os “efeitos de sentido” decorridos dessas estratégias.

Segundo Piégay-Gross,

Para ser pertinente à análise, com efeito, a noção (de intertextualidade) não deve ser nem objeto de uma extensão excessiva - todo traço de heterogeneidade seria uma marca intertextual - nem de uma restrição abusiva - apenas importariam as formas explícitas, que seria necessário examinar independentemente de toda referência ao autor e à História (1996, p. 41)

A partir, portanto, dessa perspectiva, a autora apresenta uma tipologia que pode ser resumida no esquema abaixo.

Relações intertextuais Relações de co-presença Relações de derivação Citação Referência Plágio Alusão Paródia Travestimento burlesco Pastiche

Antes de nos determos na descrição, mesmo sucinta, de cada uma dessas relações, informamos que essa tipologia será adotada segundo as considerações feitas por Costa (2012), as quais serão apresentadas em breve.

Retomando a tipologia das relações intertextuais formulada por Piegay-Gross, podemos verificar que a autora estabelece dois tipos de relações: de co-presença e de derivação. As primeiras são aquelas que se dão entre dois ou mais textos e nas quais é possível perceber a presença de fragmentos de textos anteriores. Já as relações de derivação ocorrem quando um texto deriva de um texto-fonte.

As relações de co-presença são a citação, a referência, o plágio e a alusão, sendo as duas primeiras explícitas e as outras duas implícitas.

A citação é o tipo mais conhecido e claro de intertextualidade e frequentemente vem marcada por sinais tipográficos (aspas, recuo da margem, itálico etc) que servem para demarcar heterogeneidade. Entre as funções que a citação pode desempenhar está a de autoridade e a de ornamento.

A referência compreende o processo de remissão a outro texto sem, no entanto, haver citação de qualquer trecho deste. Essa remissão pode ocorrer através de títulos, personagens, lugares etc. dos textos referidos.

Já o plágio configura-se como uma apropriação indevida de um texto ou trecho(s) de um texto do outrem. Seria como uma citação sem qualquer destaque.

A alusão, por sua vez, é concebida como uma referenciação indireta, pois retoma de modo implícito o intertexto, exigindo uma grande capacidade de inferência por parte do leitor ou ouvinte.

Apresentadas as relações de co-presença (explícitas e implícitas), passemos às relações de derivação que contemplam a paródia, o travestimento burlesco e pastiche.

A paródia compreende a transformação de um texto em outro. Essa modificação tende a incidir sobre o conteúdo, conservando, assim, a estrutura ou o estilo do texto-fonte.

O travestimento burlesco, diferentemente da paródia, consiste na produção de um texto a partir da adulteração do estilo ou da estrutura de outro. A finalidade mais comum dessa relação é a satírica.

Já o pastiche configura-se como a imitação do estilo de um autor, não dispensando atenção ao conteúdo dos textos em que se “materializa” o estilo imitado.

A respeito da proposta classificatória de Piègay-Gros (1996), Costa (2012), por entender que ela privilegia textos literários, faz algumas considerações e apresenta reformulações que resultam no esquema abaixo (COSTA, 2012, p. 43).

Relações intertextuais Relações de co-presença Citação Plágio Referência Direta Indireta (Alusão) Relações de retextualização

Esquemas mais comuns: tradução, pastiche, estilização, paródia, resumo, resenha, recriação, comentário, escrituração, oralização, etc.

Conforme o esquema, pode-se notar que a “alusão” passa a ser considerada um tipo de referência, visto que compreende uma maneira indireta de convocar o intertexto. Assim, dividiu-se a referência direta da referência indireta, que compreende a alusão.

Outra reformulação se deu por meio de uma modificação geral da categoria de “relações de derivação”. Em busca de um conceito mais neutro e mais fluido, Costa sugere “a categoria de “retextualização” para dar conta da transformação que um texto sofre total ou parcialmente para consubstanciar-se em outro” (p. 42). Segundo Costa (2012, p. 43), o conceito de retextualização surge em Travaglia (2003) relacionado ao processo de tradução textual entre línguas. Posteriormente, Marcuschi (2001 p. 48) retoma esse conceito propondo sua aplicação a processos de transformação do texto falado em texto escrito e vice-versa.

Diferentemente de Marcuschi, cujo objetivo é verificar as operações linguísticas que o sujeito realiza na transformação de um texto em outro, Costa se interessa pela relação que se pode estabelecer entre enunciados no processo da análise, visto que é o que ele se dispõe a realizar com o discurso literomusical brasileiro.

Costa aponta que, na perspectiva da Análise do Discurso, “não importa considerar a estrutura das relações em si mesmas, mas que implicações têm essas relações para o posicionamento do locutor dentro de sua prática discursiva, entendendo esta como uma articulação entre a dimensão linguística e a dimensão social da enunciação” (2012, p. 45).

Para este trabalho, também não nos interessa a estrutura ou os tipos das relações intertextuais em si, mas importa considerar, como dito há pouco, a contribuição desse fenômeno para caracterizar o Discurso Literomusical Brasileiro para Crianças como uma prática discursiva lúdica infantil. Contudo, destinamos espaço para a explanação desses tipos uma vez que eles é que guiaram o nosso olhar na identificação da intertextualidade para, em seguida, verificarmos sua contribuição para a caracterização do DLBC.

4.5 Interdiscursividade

Segundo Costa (2012, p. 46), fundamentado na perspectiva da Análise do Discurso segundo a qual as formações discursivas não são estanques, mas estão em constante relação com o “interdiscurso” (em sentido estrito), ou seja, sistemas discursivos anônimos que circulam na sociedade e constroem uma memória, a interdiscursividade é

a convocação de, ou “dar a ouvir”, vozes exteriores ao fio discursivo (ou seja, ao que foi efetivamente dito), que flutuam na esfera interdiscursiva, quer fazendo parte de sistemas linguageiros co-relacionados a práticas sociais (formações discursivas), quer como vozes ou enunciações encenadas, implícitas ou mascaradas.

Assim, quando um texto faz uso de expressões populares, quando utiliza termos habitados por outras esferas, registros discursivos e até mesmo linguísticos, ou ainda quando se reporta a etos, gestos e esquemas discursivos de outras práticas discursivas, temos relações interdiscursivas ou interdiscursividade (p. 46).

A fim de contemplar o conceito de “intertextualidade externa” proposto por Maingueneau e Charaudeau (2004), Costa expande esse conceito de interdiscursividade. Conforme os autores, “pode-se distinguir uma intertextualidade interna (entre um discurso e aqueles do mesmo campo discursivo) e uma intertextualidade externa (com os discursos de campos discursivos distintos, por exemplo, entre um discurso teológico e um discurso científico)” (MAINGUENEAU e CHARAUDEAU, 2008, p. 289). Costa conclui, com isso, que pode haver dois tipos de interdiscursividade: “uma que ocorre intertextualmente, definida pela “localização discursiva externa” do enunciado reportado e outra em que somente o enunciado principal tem caráter propriamente textual, que é, por exemplo, o caso de um enunciador de uma canção que assuma o ethos característico de uma determinada escola literária” (COSTA, 2012, p. 47).

Além desses dois tipos, o autor aponta um terceiro tipo de interdiscursividade, a lexical. Consiste em uma relação que se dá por meio da palavra, a qual é responsável por remeter a uma outra realidade discursiva. A interdiscursividade lexical contempla, por exemplo, a polissemia, a argumentação e a metáfora, fenômenos aos quais Costa dá uma abordagem discursiva e dialógica.

Portanto, Costa (2012, p. 51), a partir da classificação dos mecanismos intertextuais esquematizados por Piégay-Gross e reformulados por ele em relação aos processos de intertextualidade, apresenta o esquema abaixo, adaptado para as relações interdiscursivas :

Relações interdiscursivas

Relações de co-presença Referência

Cenografia validada; etos; código de linguagem; gêneros, etc. Alusão

Relações de imitação Captativa Subversiva Interdiscursividade lexical Metáfora Polissemia Argumentação

Têm-se, dessa maneira, as seguintes relações (COSTA, 2012, p. 51 e 52):

1. referência interdiscursiva: quando um texto pertencente a uma formação discursiva comenta, representa, descreve, em suma, se refere de alguma forma a outra formação discursiva ou ao interdiscurso;

2. alusão interdiscursiva: a alusão, neste caso, é uma maneira engenhosa de se referir à palavra ou à linguagem do exterior discursivo, utilizando-se de recursos como o jogo de palavras, a implicitação e o disfarce, dentre outros; dispensando a menção de personagens, cenários e autores (referência discursiva) e, principalmente, a reportação de trechos de textos alheios (citação intertextual);

3. captação interdiscursiva: um texto pode representar cenografias validadas pertencentes a outras práticas discursivas. Podemos citar como exemplo certos poemas de caráter religioso cuja cenografia se apóia em cenários referentes aos episódios bíblicos. Pode também mimetizar o etos de outros discursos para legitimar seu discurso. É o caso de um professor que, ao dar a sua aula, imita a postura do cientista.

4. Subversão interdiscursiva: textos podem incorporar parodicamente etos, cenários validados, códigos de linguagem etc. de outras formações discursivas para subverte-los, legitimando-se por oposição.

5. Interdiscursividade lexical: quando, por meio de metáfora, polissemia ou argumentação, textos se utilizam de palavras notoriamente ligadas a práticas discursivas exteriores à sua.

O interesse do nosso trabalho na interdiscursividade fundamenta-se no pressuposto de que esse fenômeno, assim como aqueles já apresentados aqui, pode contribuir como o delineamento do discurso literomusical brasileiro para crianças como uma prática discursiva lúdica infantil.

4.6 Metadiscursividade

Segundo Costa (2012), a metadiscursividade apresenta dois sentidos: um estrito e um amplo. No primeiro, as relações metadiscursivas compreendem o que Authier-Revuz (1990) denomina de relação de conotação ou modalização autonímica, que se refere ao processo em que o locutor ao mesmo tempo em que faz uso de palavras presentes em seu discurso também as menciona. Já a metadiscursividade em sentido amplo consiste no

processo “segundo o qual o discurso de um locutor tem como objeto sua própria enunciação ou seu próprio discurso, constituindo a si mesmo como alteridade, ou seu próprio discurso/enunciação como outro(a)” (COSTA, 2012, p. 54).

A partir dessa perspectiva mais ampla, Costa, citando Maingueneau (MAINGUENEAU, 1989, p. 84), diz que o metadiscurso não pode ser visto apenas como “um conjunto de acréscimos contingentes destinados a ratificar a trajetória da enunciação, colocá- la em conformidade com as intenções do locutor”. A justificativa para Costa é que, tomando como objeto discursos relativamente controlados, as relações metadiscursivas visadas pelo pesquisador supõem uma gestão, ou seja, “uma regulação da enunciação diante das coerções imediatas ou gerais da formação discursiva” (COSTA, 2012, p. 54).

Assim, essa perspectiva, em consonância com a empreendida por Authier-Revuz, também relaciona intimamente metadiscursividade e interdiscursividade. Contudo, essas relações não se confundem. Enquanto na metadiscursividade o locutor toma a si mesmo como outro, na interdiscursividade o locutor toma o outro exterior,

seja enquanto sujeito enunciador singular, autor de um texto, mesmo que esse autor não tenha identificação assegurada (interdiscursividade intertextual), seja enquanto objeto indefinido, disperso na “atmosfera discursiva” que envolve as enunciações em geral, que ele mesmo re-figura ou é por ele evocado (p. 55)

Como resultado do estudo da metadiscursividade na canção popular, Costa e Bezerra (2004) apresentam duas formas principais da manifestação desse fenômeno discursivo: a metacanção e a canção metadiscursiva. A primeira compreende a canção em que há referência de qualquer natureza à própria enunciação, seja de forma explícita (a própria canção executada é o foco do enunciador) ou implícita (o enunciador refere-se ao gênero da própria canção executada ou a instrumentos utilizados na execução da própria canção).

Já a canção metadiscursiva corresponde àquela que não faz referência direta a si mesma, mas a seu campo discursivo: topografia e cronografia da produção e execução musical que tornam a canção possível.

Para este trabalho, entendemos ser possível pensar em uma metadiscursividade lúdica que compreenderia além da referência à própria enunciação cancional a referência à sua prática discursiva, ou seja, ao discurso literomusical brasileiro para crianças.

Temos como hipótese ainda que o recurso à metadiscursividade lúdica pode ter como propósito o realce do próprio caráter lúdico da canção para crianças, que estaria a