3.2 REGRAS CLARAS
3.2.4 Códigos, Normas Internas e Regimentos
A Legislação do Mercado é vital para o seu bom funcionamento; porém o mercado não se rege apenas pela coerção das Leis; existe também a força da confiança nas instituições.
Friedman (1985) afirma que, apesar de o Estado atuar como legislador (determinando as regras e instituições necessárias para a dinâmica do mercado), a interação de uma diversidade de interesses em oposição no mercado também atua na definição de valores compartilhados.
Assim, o número de questões que necessitam ser decididas pelo Estado termina por ser diminuído. Entretanto acaba sendo dele a função de árbitro maior das diferentes interpretações das regras e a função de criar mecanismos de justiça para garantir o cumprimento das normas.
A sociedade, por sua vez, precisa corroborar tanto as regras, como a atuação do Estado como árbitro maior. Nos sistemas de mercado existem compromissos construídos pelos atores que vão além dos termos escritos nos contratos das operações, assim como além daquilo que é determinado pelo Estado como regra ou instituição necessária para seu bom funcionamento.
São iniciativas legitimadas e exercidas por seus participantes que, por vezes, acabam também influenciando os legisladores.
Nesse sentido, alguns organismos internacionais como a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e o Comitê de Supervisão Bancária de Basiléia desenvolvem pesquisas sobre governança corporativa e editam princípios a serem seguidos para o seu aprimoramento.
Em 1998, o conselho dos países que compõem a OCDE considerou necessário o aprimoramento dos princípios de governança corporativa, juntamente com organismos internacionais, governos nacionais e instituições privadas. Esses trabalhos basearam-se nas experiências acumuladas por todos os países membros participantes, nas próprias pesquisas anteriores da OCDE, Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial, bem como outros organismos, empresas, investidores, sindicatos e partes interessadas provenientes de vários países do mundo.
Nesse contexto, os princípios de governança corporativa da OCDE (Organisation For Economic Co-Operation and Development, 2004) visam ao assessoramento dos países no aprimoramento das suas estruturas jurídica, regulamentar e institucional. Visam também, ao aperfeiçoamento das relações entre as bolsas de valores, empresas, acionistas e investidores.Tais princípios concentram-se em prevenção de problemas de controle advindos da separação entre propriedade e gestão. Embora tratem também de outras decisões relevantes das empresas, que envolvem preocupações ambientais, ética e responsabilidade social, tais aspectos são tratados com mais profundidade em outros instrumentos da OCDE.
No ano de 1999, o Comitê de Supervisão Bancária de Basiléia apresentou o documento: Enhancing Corporate Governance for Banking Organizations (Basel Committee on Banking Supervision, 1999), que reforçava a importância dos princípios de governança corporativa da OCDE para assegurar a segurança e solidez das atividades bancárias, bem como chamava atenção para tópicos de governança corporativa de bancos apresentados pelo próprio Comitê. Este reconhece a existência de diversas estruturas de governança corporativa
em diferentes países ao redor do mundo e, assim, procura promover práticas que possibilitem fortalecer a governança corporativa nos mais variados tipos de estruturas.
As estratégias e práticas consideradas pelo Comitê como base para uma sólida governança corporativa envolvem:
• os valores corporativos, códigos de conduta, padrões de adequação de comportamento e os sistemas de compliance (assegurar que a instituição esteja cumprindo as regras aplicáveis a cada negócio);
• estratégias corporativas bem articuladas que permitam a mensuração da contribuição de cada participante com o sucesso de cada projeto;
• atribuições claras de responsabilidade e de autoridade para tomada de decisão, incorporando a hierarquia de aprovações ao Conselho de Administração;
• estabelecimento de mecanismos de interação e cooperação entre Conselho de Administração, diretores e auditores;
• fortalecimento de controles internos, incluindo funções de auditoria interna e externa, gerenciamento de risco separado das funções de negócios;
• monitoramento especial de exposição a risco nos casos em que conflitos de interesse são particularmente elevados, incluindo negociações com clientes relacionados ao banco, grandes acionistas, diretores, e outros ocupantes de funções-chave na empresa;
• incentivos financeiros e administrativos para agir de forma alinhada com os interesses da companhia, a serem oferecidos aos diretores, gerentes e empregados, na forma de compensação, promoção e outras modalidades de reconhecimento.
Na verdade, observa-se que, desde 1988, ano em que foi introduzido o Acordo de Capital pelo Comitê de Supervisão Bancária de Basiléia, este já buscava garantir a segurança e solidez das atividades bancárias, em um contexto de mercados internacionais. Neste acordo
foram adotados padrões mínimos de exigência de capital para fazer frente à exposição dos bancos.
Desde então muitas pesquisas foram realizadas e, assim, desde 1999, foram intensificados estudos de propostas para novo acordo. A nova proposta não deveria trazer uma padronização generalizada, devendo ser mais flexível, dando ênfase às metodologias de gerenciamento de risco dos próprios bancos, na supervisão das autoridades bancárias e a uma disciplina de mercado que viesse gerar transparência e segurança, aumentando a sua confiabilidade. O Novo Acordo de Basiléia divide-se em três pilares:
• capital mínimo requerido;
• importância da existência de controles internos e da sua revisão pelos órgãos de supervisão;
• disciplina de mercado, dando ênfase à transparência e divulgação de informações sobre as operações dos bancos.
Essa nova estrutura implica que o capital requerido para os bancos varie de acordo com a sua propensão ao risco. Dessa forma, a estrutura de capital dos bancos estaria mais adequada aos riscos a que cada diferente banco está exposto, havendo também o estímulo para que cada um desenvolva seus mecanismos de mensuração e administração de seus próprios riscos.