3. S EU NOME E SUA HONRA : A S ESSÃO DAS M OÇAS COMO
3.3. C ASA , COMIDA E CARINHO : IMAGENS DE CASA E FAMÍLIA
Os filmes da Sessão das Moças poderiam ser considerados filmes de família, ou por representarem na tela imagens familiares ou por permitirem, em sua maioria, serem assistidos por todos os seus membros. Poucos filmes da sessão possuíam algum tipo de restrição quanto à sua audiência. Alguns chegavam até ser considerados impróprios para menores de 14 ou 10 anos, mas não correspondiam a um número expressivo de filmes. Os dramas, romances e comédias das terças-feiras eram permitidos para qualquer faixa etária, o que me leva a pensar que, no geral, filmes adequados ou endereçados às mulheres também poderiam ser próprios para crianças. De certa forma, a maioria dos filmes poderia ser assistida por crianças, levando a um cruzamento entre ensinamentos para mulheres e para meninas e meninos. A censura livre dos filmes facilitava, ainda, a companhia feita por pequenos parentes às jovens mulheres.
Se por um lado a censura livre permitia que membros de uma mesma família compartilhassem as poltronas do Cine Ritz, por outro facilitava a identificação com tramas e representações familiares exibidas nos filmes. Pais, mães e filhos representavam na tela possibilidades de relações familiares e expunham às moças e moços da plateia relações que poderiam ser vivenciadas em família antes e depois do “felizes para sempre”.
Em alguns filmes, especialmente nos musicais, as relações familiares ou ficavam em segundo plano ou inexistiam. O casal se conhecia nos salões, dançava, se separava e se reunia para a última dança. Nada era mencionado sobre pais, mães e irmãos. Muitas vezes, os personagens eram acompanhados por tios e tias, ou por indivíduos que se passavam por esses parentes. Em A Sensação de Paris, a família é construída na tentativa de se aplicar um golpe. A falsa tia arquiteta o plano, envolvendo uma jovem modelo e esse é o máximo de relação familiar que se apresenta. Em outros, a relação fica subentendida, pois se o amor romântico é para sempre, como será visto no próximo capítulo. Possivelmente o final do filme, o casamento ou o beijo que sela a união são o início da formação familiar.
Em outros filmes apresentados na Sessão as Moças, a própria relação entre os membros da família se constitui na trama principal. Em
desse em perceber que sua pequena filha já era uma mulher em idade de casar. A sombra de uma dúvida apresenta uma estranha idolatria de uma garota por seu tio e ambos compartilhavam até o mesmo nome: Charlie. Os dois filmes abordam os relacionamentos entre as protagonistas e um forte referencial masculino, pai e tio. O pai da jovem Charlie era vivo e presente na família, mas era o tio que a garota santificava. Por vezes, o sentimento chega a ultrapassar o limite do familiar, parecendo partir para um subentendido relacionamento ou interesse romântico. Não quero fazer inferências sobre Complexo de Electra e/ ou psicanálise, nem quero me aprofundar nas relações e construções psicológicas dos personagens. No entanto, acredito ser interessante ressaltar que em parte dos filmes analisados as relações familiares estão ligadas às tramas dos personagens centrais. Os questionamentos, as ações e as construções têm como ponto de partida os protagonistas, em especial a mocinha, e a partir deles contaminam os demais.
Se o título de A última vez que vi Paris faz referência à primeira e à última cena do filme, a trama do amor dos personagens centrais logo dá espaço para as relações familiares. São elas que pontuam a narrativa e acrescentam novos elementos a uma história que posiciona a família no centro de um drama romântico. A liberada Hellen, vivida por Elizabeth Taylor, ao conhecer Charles, traz à vida de seu futuro marido seu pai endividado, a irmã desconfiada e o cunhado apaziguador. Com o nascimento da filha do casal a história muda de rumo. A relação dos cinco personagens adentra o primeiro plano da história, fazendo com que sejam questionadas suas ações, agora não mais baseadas no amor romântico da primeira metade do filme, mas ao quanto cada um deles poderia amar e cuidar da pequena garota. Dessa forma, as relações familiares, que têm Hellen como centro, dão corpo ao filme. Podem ser ainda citados como exemplos desse tipo de relacionamento familiar que assume o protagonismo dos filmes as relações entre pai e filha do já citado O pai da noiva e de Sempre em meu coração e as tramas familiares envolvendo irmãos e pais de Agora seremos felizes.
Em grande parte dos filmes, o pai é apresentado como o chefe da casa, mas é a mãe que põe ordem, educa e cuida dos empregados e dos filhos. O grande número de atividades da mãe preocupa a jovem Charlie de A sombra de uma dúvida. Para ela, a família perdeu a alma, os membros só falam, não conversam sobre nada importante e a mãe trabalha como um burro de carga, lavando, limpando e cozinhando. Apesar disso, nem a garota e nem seu pai conseguem achar uma solução
para a mãe, levando Charlie a pensar que só um milagre poderia mudar a situação. Assim, a condição de mãe, que além de ser a responsável pela educação e amor dos filhos, deve sozinha dar conta dos afazeres domésticos, é algo tão naturalizado que pouco se consegue pensar para romper essa condição. Cabe ao milagre, ou seja, aquilo que os seres humanos não podem dar conta e intervir, mudar a situação. A mudança nos afazeres domésticos de mãe estaria na mesma categoria de ressurreições e da cura de doentes desenganados por médicos.
Em muitos filmes, o pai desempenhava um papel no lar bastante diferente da mãe. Se a defesa e o amor aos filhos aproximavam os genitores, o trabalho e as atividades domésticas os distanciavam. Mesmo que a mãe trabalhasse o dia inteiro em casa, o pai, ao chegar, precisaria ser poupado. O argumento é que o trabalho do pai garantia o sustento da família, assim teria o direito, inclusive, de chegar em casa mal humorado e exigir que a cantoria das filhas se encerrasse. Ao menos é o que deixa evidenciar um filme essencialmente familiar como Agora
seremos felizes. Na trama, o marido, depois de chegar em casa e
silenciar as filhas, é recebido alegremente por sua esposa, com a qual troca um rápido beijo.
O pai era representado nos filmes como o grande modelo da família, o exemplo a ser seguido. A mãe de Sissi garantia que seus filhos não usavam talheres porque o pai também não os utilizava. Afirmava ainda que seu marido apesar de nobre comia como um camponês, sem modos. No entanto, essa função de modelo, ou melhor, de oráculo e herói dos filhos tem prazo para expirar. Segundo o pai de Kay, de O pai
da noiva, essa atribuição dura até a filha fazer o primeiro permanente e
ir a sua primeira festa. Dessa forma, o pai deixa de ser modelo quando a filha se arruma para procurar outros rapazes fora de casa. Além de servir como exemplo, o pai possui atribuições que são especificamente dele, como a vigília durante o parto. Apesar de não estar presente no quarto onde o filho irá nascer, o homem deve ficar atento e vigilante durante todo o processo. Essa vigília é indicada em Os irmãos corsos como parte da educação de um marido perfeito.
Além da mãe e do pai, os filhos também possuem papel a desempenhar no interior dos lares. Uma Sissi entediada, oprimida pela sogra e até um pouco esquecida pelo marido é apresentada no início do último capítulo da trilogia, Sissi e seu destino. Diante de sua situação, a protagonista afirma que é a filha que a deixa feliz, ou seja, filho é sinônimo de felicidade. Em meio a tantos problemas, apenas o bebê
deixava a imperatriz sorrindo. Um filho adotado pode não oferecer tal emoção. O pobre Candinho, que apareceu às margens de um rio, foi adotado por um casal e tornou-se centro da atenção por três anos, quando nasceram os gêmeos e o garoto passou a ser criado como um empregado. Candinho virou alvo das brincadeiras do irmão e passou a desejar sua irmã, até que, descoberto o seu interesse romântico, foi expulso de casa.
A felicidade proporcionada pelos filhos tem um preço: o cuidado e o zelo pelos pais quando esses ficam doentes e velhos. Em
Absolutamente certo, Zé não casa com Gina, pois não tem dinheiro,
ainda assim pretende comprar cadeira de rodas para seu pai, o qual pede para o filho priorizar o casamento. A atenção aos pais é apresentada no filme como uma obrigação moral. Os filmes da Sessão das Moças repetem constantemente a afirmação da necessidade da união da família. Pais e filhos precisam ficar juntos e se amar, não importando a situação. Em Sempre em meu coração, o crime cometido pelo pai, o divórcio do casal e a paixão da mãe por um novo homem não são suficientemente fortes para separar a família. Em nome da união, a esposa resolve recomeçar tudo e dar uma chance nova ao marido, que, mesmo criminoso, é idolatrado pelos filhos. O recomeço do casamento é apresentado como uma forma de a mãe não se colocar entre pai e filhos.
Em Agora seremos felizes, o pai decide não aceitar uma ótima oportunidade de trabalho, nem trocar de cidade em nome da felicidade dos filhos, que desejavam ficar em Nova Orleans. Esther, a protagonista do filme, diz à irmã que elas podem ser felizes em qualquer lugar do mundo, desde que a família esteja unida. Assim, não seria o trabalho, o lugar, o dinheiro, ou mesmo uma paixão o principal elemento para a felicidade e sim a união familiar. A principal fonte dessa união se concentrava na relação entre os irmãos, eram eles principalmente que precisariam ficar juntos. Os doze irmãos de A família do gênio faziam quase tudo juntos, de ir à praia até cantar. Os irmãos de Sempre em meu
coração além de compartilharem atividades, ainda se ajudavam nos
afazeres. O filme os representa como jovens tão unidos que a protagonista Vicky, ao fugir de casa, não leva consigo a foto de seu namorado e sim uma do irmão. União maior só é encontrada no limite exagero do compartilhamento de uma única alma por irmãos gêmeos, como apresentado em Os irmãos corsos. A relação entre irmãos, ou melhor, irmãs, também é uma das tramas de Bonita como nunca. A moderna protagonista não pretende se casar, o que faz com que suas
irmãs passem a pressioná-la, pois, em sua casa, os casamentos deveriam seguir obrigatoriamente a ordem de idade das três garotas. Nos filmes era comum, também, ser apresentado entre as atribuições dos irmãos mais velhos cuidarem dos menores. Na ausência dos pais, os irmãos maiores respondiam por eles e assumiam seu lugar.
Outro tipo de família apresentada nos filmes era a iniciada com o casamento. Assim, agregavam-se aos núcleos, novos elementos como sogras, sogros, genros, noras, cunhados e cunhadas. As sogras, quando destacadas na narrativa, geralmente eram representadas como mulheres fortes e autoritárias, dispostas a atormentar a vida de noras e genros em nome da proteção e amor do filho ou da filha. Sissi enfrentou a mãe de seu esposo que não apenas tinha interesse no domínio da família como também nas questões sucessórias do trono austríaco. A jovem imperatriz sempre soube que não era a favorita para o casamento, já que sua irmã é que estava prometida para o príncipe, e ainda teve seu filho retirado de sua guarda para que fosse educado pela sogra. Já Bela, interpretada por Dercy Gonçalves em Absolutamente certo, encarnava todos os estereótipos repetidos em anedotas e piadas de sogra. Não gostava do genro e o tratava mal em qualquer lugar. A justificativa era a defesa da honra da filha, já que o rapaz estava noivo há muitos anos e vivia protelando o casamento.
O conhecimento da família do rapaz ou da garota era importante para o namoro e, principalmente, para o noivado e casamento. A rigor, o noivado só começaria com um pedido oficial do pretendente para o pai da noiva. No caso de órfã, o noivo deveria pedir a mão da amada para outro parente responsável por ela. A família como um todo também deveria conhecer o noivo, como apresentado em Agora seremos felizes e
Saudade de seus lábios, e a família do rapaz poderia ser considerada
pelos pais da noiva como fator importante para decidir o casamento, como explicitado pelO pai da noiva.
O invólucro da união familiar estava localizado na casa, ou melhor, no lar. Base do afeto, das trocas e do amor fraternal, as casas, em boa parte dos filmes de família da Sessão das Moças, eram representadas como um espaço sóbrio, mas aconchegante. De uma forma geral, as casas abrigavam a família, a memória e a tradição. Os espaços domésticos geralmente eram utilizados de forma coletiva, desde os quartos que acondicionavam mais de um filho, até os banheiros, que chegavam a servir de cenário para diálogos e cenas com vários personagens. As refeições eram apresentadas como atividades coletivas,
raras vezes alguém aparecia comendo sozinho. Em geral, toda a família estava presente nas principais refeições do dia. A preparação da alimentação também não configurava uma tarefa solitária. Mesmo nas famílias em que a comida era feita por empregadas, algum membro estava presente, seja ajudando, atrapalhando ou experimentando os pratos preparados. Em Do mundo nada se leva e Absolutamente certo, as casas eram o espaço da reunião de amigos. No primeiro, a família era ampliada por aqueles que quisessem ser felizes juntos. Assim, os amigos eram convidados a permanecer e compartilhar da felicidade. No segundo filme citado, a reunião de amigos tinha hora para acontecer: enquanto durassem os programas de televisão. Bela abria sua casa para que a vizinhança pudesse desfrutar de sua televisão, desde que pagasse por isso. O filme faz alusão ao “televizinho”, ou seja, ao hábito de ver televisão na casa de vizinhos em uma época em que o número de aparelhos era reduzido entre as classes mais populares.
O filme A família do gênio aborda a história de uma mulher que fica viúva e precisa sustentar doze filhos sozinha, mudando-se para uma casa menor. Para a protagonista, o principal problema da casa não era o fato de ela ser pequena para abrigar tantas pessoas e sim que ela não era tão cheia de lembranças quanto a anterior. A casa se apresenta dessa forma como um lugar de memória243, um espaço que abrigaria e protegeria não apenas os corpos físicos dos sujeitos que nela habitariam, como também as memórias das experiências familiares.
Em alguns filmes, a casa é mostrada, ainda, como o espaço da tradição, ou da manutenção de hábitos antigos em famílias modernas. Nora, a protagonista de Saudade de teus lábios é descendente de uma família de artistas de circo. Ela apresenta performances de balé aquático com pouca roupa, o que chamava a atenção dos jovens rapazes. Sua avó, também uma antiga artista circense, é a grande matriarca, a qual interroga pretendentes da jovem Nora e tem a sua casa como a base da família. Mesmo para uma família de artistas, os móveis são austeros, pesados, escuros, com um grande número de candelabros e cerâmicas. Em nada lembra arte circense, parecendo muito mais com uma casa de burgueses endinheirados.
As famílias apresentadas nos filmes da Sessão das Moças têm pouca variação. Em geral são brancas, nucleares e heterossexuais. Raras apresentam casais divorciados ou membros que não desejavam pertencer às suas famílias. Entre as categorias selecionadas para
243 Cf. NORA, Pierre. op. cit.
discussão nessa tese, a família é a que menos apresenta questionamentos ou filmes que desviassem de um padrão.