CAPÍTULO 2 A CIDADE NOVA: CAPITALISMO E MODERNIDADE
2.2. c Construindo novos bairros e novas identidades urbanas
As alterações na nova região da cidade contemplavam um padrão moderno, bem como uma materialidade na vida citadina que abrangem diversas dimensões, desde a físico-espacial – uma determinada forma urbana e arquitetônica, residencial em particular – à dimensão mais “social” – modos de vida, padrões de comportamento modernos, entre outros.
A modernidade poderia ser notada pela presença destes, ou seja, pela preocupação com o progresso da parte física da cidade e da moradia conjuntamente a uma percepção desse ideal em termos sociais, na vida cotidiana e referências de bom gosto, presentes na vida das pessoas. Ainda, a preocupação com o privado, com o particular, estava mediada pelos poderes atrelados ao estado, porquanto a vida coletiva não está dissociada do âmbito mais íntimo da existência humana. As esferas do público e do privado se relacionam de maneira inevitável, sobretudo dentro de um bairro, onde há “mais do que um conhecimento mútuo: há um contato social” 92
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E tal contato social que o bairro estabelece pode ser bastante específico. Sua concepção remete para características “físico-espaciais”, conforme já mencionadas, mas, também, às questões que poderíamos chamar de “identitárias”. Uma região da cidade, enquanto lugar de distinção em relação às demais áreas urbanas, certamente apresenta características específicas em relação ao conjunto da cidade. Para que se possa configurar uma área enquanto lugar “exclusivo”, diferenciado do ponto de vista urbano e habitacional, certamente, o bairro em questão, deve assumir formas e estruturas com certa homogeneidade. Essa composição razoavelmente uniforme permite àquele que adentra no bairro uma melhor localização. Imediatamente se reconhece enquanto indivíduo presente em determinada região. Numa diversidade enorme de lugares que possui uma cidade, ao adentrar em área homogênea, logo se reconhece, através das suas ruas, dos seus contornos e formas presentes nas casas e nos espaços públicos, que se adentrou em novo campo. 93
Dessa forma, ao mudar-se para uma nova área da cidade, através do plano do governo e de uma cultura bastante específica que se formava como característica das elites urbanas, bem como através do poder aquisitivo que permitia o acesso às terras e residências, estava-se forjando uma região muito bem identificável. Por outro lado, ao longo dos anos 1910, 1920 e
92 PROUST, Antoine. Fronteiras e espaços do privado. In: História da vida privada, vol. 5. P. 116. 93
1930, a Cidade Nova passou a se constituir como uma localidade definida, decorrente de um processo contínuo de ocupação.
A Cidade Nova que aos poucos foi sendo estruturada ao longo das primeiras décadas do século XX se constituiu como um espaço especifico, associado à “boa sociedade”, ao requinte, ao conforto, a saúde e ao bem-estar. Já na década de 1920, os bairros de Petrópolis e Tirol se consolidavam como a nova localidade da população abastadas natalense. Os novos bairros atendiam aos princípios da modernidade no que concerne ao espaço urbano - como a presença de avenidas largas, inspiradas nos bulevares parisienses – e a diversas questões relacionadas à habitação – família, consumo, saúde etc. O uso destinado a esse espaço da cidade enquanto bairro planejado e ordenado segundo preceitos urbanísticos em vigor nas grandes capitais representou uma materialização do desejo das elites em se separar do restante da cidade94, na medida em que superavam o desenho irregular tipicamente colonial, que implicava numa mistura maior com os demais indivíduos. Além disso, o afastamento servia de refúgio contra o perigo de manter contato com as epidemias que existiam na cidade 95.
A Intendência Municipal teve atuação consistente durante o período, no que se refere aos cuidados com a Cidade Nova. Suas medidas colaboraram para a consolidação do bairro enquanto espaço estritamente residencial e urbano. Segundo suas intenções, o local seria isento de qualquer associação com o mundo quase rural oitocentista. Por isto, uma das preocupações mais prementes do governo municipal era promover a “transferência do bebedouro público para animais na área da Cidade Nova, para outro local mais distante deste bairro em expansão”. Transportando assim para as áreas periféricas desvalorizadas socialmente o papel oficial de servir de bebedouro aos animais.
Outra lei “proibia a retirada de lenha nos morros da Cidade Nova”. E esta era uma “medida antiga que não estava sendo cumprida, gerando incômodo aos moradores que já se instalavam nesse bairro e temiam a devastação das matas ou o avanço dos morros sobre seus terrenos”. Certos elementos que mantinham o bairro preservado contra as ameaças das dunas, ameaça do “perigo iminente” 96
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Apesar das inovações, tanto o projeto de Antonio Polidrelli (1901-1904), quanto o Master Plan de Giacomo Palumbo (1929), não teriam promovido uma alteração tão profunda a ponto de separar completamente os traços da antiga cidade colonial daqueles da cidade moderna. Sobre esse assunto, ver mais em: ARRAIS, Raimundo (organização e estudo introdutório). Crônicas de origem: a cidade de Natal nas crônicas cascudianas dos anos 20. EDUFRN. p. 24.
95 SANTOS, Pedro de Lima. Arquitetura no Rio Grande do Norte: uma introdução. p. 71.
96 Expressão que dizia respeito à duna situada no Monte Petrópolis e que serviu de elemento importante na alegoria da “Natal daqui a cinqüenta anos” de Manoel Dantas.
Por outro lado, os primeiros elementos sociais que constituíam os dois novos bairros eram pautados pela recriação de uma atmosfera ao mesmo tempo de modernidade e de legitimação ou estabelecimento de tradições.
Os desejos das elites urbanas primavam pelo apreço aos elementos históricos, à estética, àquilo que era capaz de representar e recriar seu distinto modo de vida. Nesse sentido o estilo eclético97 foi amplamente utilizado, uma vez que permitia ao proprietário criar sua própria residência, que contemplava seu gosto pessoal e, da mesma forma, atendia às exigências no que diz respeito aos padrões de construção.
A casa burguesa e eclética era o símbolo da boa família, da vida equilibrada na prosperidade e no conforto do lar. Este último elemento constituía invenção recente. Uma noção de casa que se pautava no bem-estar do indivíduo e de sua família98.
Foi o homem burguês quem demandou avanços significativos no aparato tecnológico e no serviço sanitário da casa. Além disso, operou uma distribuição interna dos cômodos que prezava pela individualidade, por um espaço mais compartimentado de acordo com as necessidades de cada elemento, ou seja, cada célula constituinte de uma família. Perseguia o mito do progresso e isso reverberava em sua vida doméstica de diversas formas. 99 Desde o aspecto mais amplo da construção material até o nível familiar e dos objetos que permeavam a vida privada, a casa expressava os anseios do tempo.
No processo de urbanização e nas moradias, refletiu-se o desejo das elites por auto- segregação100 e ao mesmo tempo, acesso aos serviços e ofertas do mundo na cidade. Com acurada observação, Mário de Andrade, que esteve em Natal em 1929, sentiu um “um conforto praceano, tudo à mão e, ao mesmo tempo, tem ar de chacra, um descanso frutecente, bólido de ventos incansáveis”. O modernista ainda encontrou nas casas da cidade elementos que provocaram sua simpatia, uma harmonia no que seria “aquela humanidade feliz de certos bairros burgueses de S. Paulo”, que “não chamam atenção”. 101
Em torno das praças, uma vitrine composta por casas burguesas que se afastavam da rua e, lateralmente, descolavam-se, discretamente, dos vizinhos. Além disso, recuada, a segurança do lar estaria garantida. Além de salvaguardar-se das influências externas, a casa teria, nesses moldes, uma maior circulação de ar e iluminação melhorada. Certo afastamento
97 Outras considerações sobre o Estilo Eclético serão feitas no capítulo seguinte, momento em que retomaremos a questão da moradia.
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RYBCZYNSKI, Wiltord. Casa: pequena história de uma idéia. Rio de Janeiro: Record, 1986. 99 FABRIS, Annateresa (Org.). Ecletismo na arquitetura brasileira.São Paulo: Nobel; Edusp: 1987. 100 LIMA, Pedro de. Arquitetura no Rio Grande do Norte: uma introdução, p. 71.
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era bem vindo no âmbito da domesticidade moderna, mais fechada em relação às mudanças no espaço público que aformoseavam a cidade. Mas além da exterioridade e ainda da presença de elementos que ligavam a vida urbana ao campo (como as muitas plantas e árvores frutíferas indicam), uma série de fatores domésticos nos mostram a preocupação com a vida privada.
A partir do referencial europeu, a importação do paradigma moderno teve diversas adaptações nas capitais brasileiras. Em Natal, um dos espaços principais onde se deu a construção de um padrão de vida “à européia” fora a Cidade Nova. Enquanto se vendiam, para a melhoria do caráter, “tônico dos músculos, tônico do coração” 102, a cidade tinha seu tônico para uma vida “moderna” através de sua ampliação espacial.
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