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No documento Folha de Rosto (páginas 165-172)

A sigla CODA vem da expressão inglesa Children of Deaf Adults (Filhos de Pais Surdos).

Nos estudos surdos, defende-se a ideia de que os filhos de pais surdos, que vivem nas mais

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diferentes partes do mundo, vivenciam experiências muito semelhantes, como sujeitos biculturais, ou seja, transitam pela cultura surda e pela cultura ouvinte. A sigla CODA também é utilizada no Brasil (sem tradução).

Conforme Da Silva (2019, p. 38) interpretando Souza (2014):

O Coda, geralmente, cresce em meio a duas culturas, duas línguas, e no contato com muitas experiências visuais, diferentemente de outras crianças que não são filhas de surdos. As pesquisas acadêmicas em torno de filhos de pais surdos ainda são recentes no Brasil, pois grande parte desses estudos encontra-se na América do Norte e na Europa.

Apesar disso, há uma tendência crescente de pesquisas sobre os CODAS em países da América Latina, Ásia e Europa. Sendo assim, o uso do termo e o conhecimento da identidade do sujeito CODA vêm se disseminando.

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As tiras em quadrinhos do That Deaf Guy, expressão que pode ser traduzida para o português como Aquele Cara Surdo, são de autoria de Matt Daigle, desenhista norte-americano surdo e Kay Daigle, sua esposa ouvinte, fluente em Língua de Sinais Americana (ASL). Três personagens principais fazem parte da história em quadrinhos: Desmond, design gráfico, surdo e casado com Helen, advogada ouvinte e fluente em língua de sinais, que às vezes atua como intérprete de língua de sinais e Cedric, o Coda, filho ouvinte do casal, que percorre entre dois mundos, o mundo ouvinte e o mundo surdo. As tiras que compõem o corpus da pesquisa foram coletadas, como mencionado, na página Surdalidades, da rede social Facebook, na qual são traduzidas para o português por tradutores surdos e ouvintes voluntários.

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A Análise do Discurso nos possibilita investigar os processos de produção de sentidos, assim como as diversas concepções sobre a linguagem. Segundo Souza (2006, p. 21): “Compreender a linguagem da perspectiva discursiva é compreendê-la de uma forma particular”.

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A Análise do Discurso Francesa (AD) surge na década de 60, com o marco inaugural em 1969, a partir dos trabalhos de Michel Pêcheux, com a publicação da obra Análise Automática do Discurso (AAD-69). Conforme Pêcheux e Fuchs (1997), a teoria do discurso foi estruturada a partir da articulação de conceitos de três grandes campos do saber: a Linguística estrutural, o Marxismo e a Psicanálise.

Narzetti (2012, p. 41) esclarece que: “Pêcheux, assim, concebe o processo histórico de constituição das ciências em duas fases: a primeira seria a da produção de seu objeto e ruptura com as representações ideológicas anteriores e a segunda seria a da reprodução metódica de seu objeto, através da experimentação”.

O discurso é o objeto teórico-analítico da Análise do Discurso, compreendido como uma prática de linguagem repleta de movimento, não somente numa perspectiva linguística, mas como um objeto que se relaciona a determinadas condições de produção, a um contexto social, histórico e ideológico.

O sujeito é essencialmente ideológico e histórico, pois está inserido num determinado lugar e tempo. Segundo Orlandi (2003, p. 32), o “sujeito diz, pensa que sabe o que diz, mas não tem acesso ou controle sobre o modo pelo qual os sentidos se constituem nele”.

Neste trabalho, segue-se a proposta de Orlandi (2006, p. 23), para quem: “Não se trata, assim, da historicidade (refletida) no texto, mas da historicidade do texto, isto é, trata-se de compreender como a matéria textual produz sentidos”.

Para esta análise das tiras cômicas That Deaf Guy, elegemos a nomenclatura Sequência Discursiva de Referência (SDR), proposta por Courtine (2009), para nos referirmos aos trechos das tirinhas.

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Ao analisarmos a história da língua de sinais, permanecem os discursos de desvalorização desta língua. Sobre isso, Skliar (2005) esclarece: “[...] há uma falta de valorização das línguas de sinais por considerarem elas como pantomima, ou, ainda, um pidgin primitivo”. O uso da língua de sinais para os sujeitos Surdos possui grande relevância no cenário atual, como

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ruptura linguística e comunicativa entre surdos e ouvintes. A identidade dos sujeitos Surdos é constituída, em grande parte, pelo uso das línguas de sinais, que são reconhecidamente semelhantes em seus traços principais. Como podemos observar na SDR do corpus:

Figura 1: Tirinha 1

Fonte: Rede Social Facebook: Página @surdalidades, 2014. Disponível em: https://

www.facebook.com/surdalidades/photos/a.354534317912494/894384860594101.

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Assim, temos: SDR 1 – Tirinha 1: “Sua família é esquisita.” e SDR 2 – Tirinha 1: “ Vocês falam com as mãos como idiotas”.

Na tira 1, no primeiro quadrinho, observamos um colega de Cedric com a expressão facial

deBochada, movimentando as mãos de forma aleatória e com total desatino. Ele afirma que a família de Cedric é esquisita (SDR 1), pois fala com as mãos como idiotas (SDR2). Tais afirmações deixam Cedric e seu amigo perplexos. Refluindo esse tipo de compreensão, Quadros e Karnopp (2004, p.

28) postulam que “[...] a língua é um sistema padronizado de sinais/sons arbitrários, caracterizados pela estrutura dependente, criatividade, deslocamento, dualidade e transmissão cultural”.

No segundo quadrinho, Cedric afirma ao seu colega que a língua de sinais é uma língua divertida, que o colega não sabe de nada sobre a língua de sinais e aproveita para ensinar a ele o sinal de legal na língua de sinais.

No terceiro quadrinho, o amigo de Cedric questiona-o sobre o significado daquele sinal que ele havia ensinado para o colega. Observou ser o sinal da palavra idiota e não o sinal da

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palavra legal. Cedric, com a feição de felicidade, observa o colega ensinando a um outro garoto o sinal de idiota em vez do sinal de legal e caçoa dele, da mesma forma como ele foi caçoado pelo colega, que vê a língua de sinais como uma língua que desperta sensação incômoda de estranheza e que, para ele, as pessoas que assim falam carecem de inteligência.

Na tira 1, os autores Matt e Kay Daigle evidenciam o efeito de sentido produzido nesta tira: a falta de conhecimento sobre a língua de sinais. Cedric diariamente conversa com muitos adultos, mas ele é uma criança que prega uma peça em seu colega zombador. Seu amigo observa o equívoco no significado dos sinais, pois com certeza tem curiosidade pela língua e usa para comunicação com os pais do seu amigo Coda. Certamente, ele já acompanhou e aprendeu com Cedric alguns sinais no convívio diário, aprendendo a língua e a cultura, de forma natural. Se não fosse assim, o amigo de Cedric não teria percebido que ele estava pregando uma peça nos colegas.

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Durante muitos séculos até hoje, a imagem do surdo é ligada à visão clínico-patológica da surdez como doença ou deficiência:

Muito se pode pensar sobre ela, definindo-a como uma cultura superficial, sem valores, uma cópia malfeita das manifestações culturais dos ouvintes, sem artefatos culturais. [...] A cultura surda não é uma imagem velada de uma hipotética cultura ouvinte. Não é o seu revés. Não é uma cultura patológica (SKLIAR, 1998, p. 28).

O histórico do sujeito surdo restrito a este lugar está na memória coletiva, sendo reatualizado a todo instante, como podemos observar no seguinte recorte do corpus:

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Figura 2: Tirinha 2

Fonte: Rede Social Facebook: Página @surdalidades, 2015. Disponível em: https://

www.facebook.com/surdalidades/photos/a.354534317912494/1054378001261452/?-type=3&theater.

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Aqui, temos: SDR 1 – Tirinha 2: “Seu filho é normal?”, SDR 2 – Tirinha 2: “Tipo... ele teve um defeito de nascimento?” e SDR 3 – Tirinha 2: “Bem, quero dizer... Se tem problemas de audição?”.

Na tira 2, o primeiro quadrinho demonstra o que acontece constantemente na rotina dos usuários da língua de sinais. Os olhares perplexos ao verem uma família constituída de um adulto surdo brincando e sinalizando em língua de sinais com seu filho Coda. A mesma cena é observada de forma natural quando pais e filho(s) são ouvintes. Cedric, a criança Coda, tem como pai Desmond, que é surdo e como mãe Helen, que é ouvinte. Cedric sabe que está sendo observado, mas continua brincando com seu pai.

No segundo quadrinho, (SDR 1) a senhora que está na cadeira de praia, ao lado de Helen, se aproxima e pergunta a ela se o seu filho é “normal”. Os autores Matt e Kay Daigle colocam a palavra normal em negrito, visto que a senhora apresenta expressões faciais de negação ao

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falar a palavra “normal’’ com efeito de sentido relacionado ao fato de ser lastimável a criança ser surda, pois não há perspectiva para ela. Para a senhora, ser normal é ser ouvinte, isto é, não ter herdado a surdez. Trata-se de um efeito metafórico (PÊCHEUX, 2009) entre os significantes

“normal” e “ouvinte”, correlato ao efeito metafórico entre os significantes “anormal” e “surdo”, que marca o discurso dos ouvintes sobre o povo surdo.

Observamos que Helen fica constrangida e abismada, já que apesar de viverem em um mundo contemporâneo, com grande acesso às informações, a senhora, ao invés de perguntar se Cedric era ouvinte, questiona se ele é normal. Sobre isso, Gesser (2009, p. 22) esclarece:

“Os surdos são fisicamente e psicologicamente normais: aqueles que têm o seu aparato vocal intacto (que nada tem a ver com a perda auditiva) podem ser oralizados e falar a língua oral, se assim desejarem”.

No terceiro quadrinho, a senhora continua questionando Helen sobre Cedric, desta vez empregando o significante “defeito”, novamente causando espanto em Helen com os questionamentos. A senhora usa o significante “defeito” com efeito de sentido negativo (SDR 2), ao invés de ter questionado se Cedric tinha alguma necessidade específica ao nascer, pois viu que ele sinalizava em língua de sinais. A surdez como deficiência, no âmbito clínico das patologias, é vista como uma insuficiência, uma imperfeição. Isso remete ao significado que a palavra deficiência tem, e, dessa forma, rotula a surdez, usando o acréscimo do predicativo deficiente auditivo.

No quarto quadrinho, a senhora começa a pensar com mais cautela, quando pergunta à mãe de Cedric o motivo de ele utilizar a língua de sinais, dessa vez usando uma outra expressão:

“problemas de audição” (SDR 3), mas ainda com sentido negativo, que é pressuposto pelo uso da palavra “problemas”. Para a senhora, o fato de a criança sinalizar significa ser uma pessoa

“anormal”, trazendo a falta de audição não como uma ausência de um dos cinco sentidos, mas como um problema que pode ou não ser consertado. Helen é casada com Desmond e tem amigos surdos, que possuem outro olhar sobre o sujeito surdo e a língua de sinais, o que difere da senhora que não observa os surdos como sujeitos normais que usam uma língua de natureza visual-motora.

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No quinto e último quadrinho, a senhora tenta novamente perguntar sobre Cedric. Helen, cansada de ser questionada, informa que seu filho não é surdo como o pai, mas ouvinte. Cedric, mesmo distante, ouviu a conversa de ambas. Simultaneamente a isso, ele estava brincando de construir um castelo na areia com o seu pai e com a retirada de areia formou-se um buraco.

De repente, Cedric informa para a senhora de forma direta e sem nenhum constrangimento que ela poderia enfiar a cabeça dela no buraco que ele havia feito.

No último quadrinho da tira 2, Desmond é o único que apresenta expressão facial totalmente positiva, pois está na praia com a sua família, brincando com seu filho. Mesmo não possuindo audição, ele poderia saber pelas expressões faciais de sua esposa que a conversa não a estava agradando, porém não observou os acontecimentos ao seu redor, visto que estava concentrado em fazer o castelo de areia para seu filho.

Pelo fato de ser Coda, Cedric já havia vivenciado essa mesma situação inúmeras vezes e face a ela, desenvolveu a estratégia de usar o humor e o sarcasmo para combater os estereótipos e preconceitos que afetam o povo surdo e a comunidade surda.

Portanto, os autores Matt e Kay Daigle apresentam o personagem Cedric como uma criança comprometida nos movimentos sociais, a favor dos aspectos culturais, linguísticos e sociais da língua de sinais. Mesmo sendo uma criança, ele refuta discursos de crianças e adultos de forma autêntica, com nuances de humor e combatendo estereótipos de forma mais leve.

No documento Folha de Rosto (páginas 165-172)