4) Eu acrescentaria ainda uma última questão em relação à mediação feita entre o
2.2. C IRCULANDO PELA CIDADE A CAMINHO DO TRABALHO
Eram nove e meia da manhã quando saiu de casa — teria tempo: dali à Avenida Guararapes não gastaria trinta minutos. Airôn desceu a escada de madeira, íngreme e de espaços estreitos, com seu ranger familiar, e apontou na calçada. Indo em direção à Praça Sérgio Loreto, na proximidade da Rua São João, ficava a casa de cômodos de Dona Linda.
Airôn seguiu em sentido contrário: todo nos trinques, cheiroso. Nessa direção, a rua Dias
Cardoso terminava na largura da Avenida Dantas Barreto — obra inconclusa, idealizada e começada pelo Governo de Novais Filho — prefeito do Recife durante todo o Estado Novo. No caminho até lá ainda havia sinais de demolição. Os últimos edifícios coloniais demolidos, onde funcionava a Associação da Imprensa de Pernambuco, foram postos abaixo para transformar-se na nova sede dos jornalistas — um edifício moderno com 13
146
Quanto à forma de vestir-se, o modelo foi retirado de um personagem de Hermilo Borba Filho (BORBA FILHO, 1976: 33/34). Quanto às marcas dos produtos — terno, cigarro, brilhantina, água de colônia — as informações foram retiradas das entrevistas com Jarbas Araújo e João Lopes, além da citação em
pavimentos, em fase de construção147. A sede antiga da AIP foi “desapropriada” nos dois sentidos — política e fisicamente — pelo governo estadonovista para Abertura da Dantas Barreto. Com a volta da democracia, os jornalistas travaram uma batalha judicial para recuperar o patrimônio e voltaram a reunir-se no antigo prédio até começarem uma campanha para construção da nova sede148.
No início da década de 40, Airôn era apenas uma criança. Mas ouviu de seu pai que a abertura das Avenidas Dantas Barreto e Guararapes, no início da década de 40, foi o símbolo maior do Estado Novo em Pernambuco. As demolições puseram abaixo, entre outras construções, a Igreja Nossa Senhora do Paraíso, o Hospital São João de Deus, o Quartel do Regimento de Artilharia e a Academia do Paraíso, reduto do movimento de 1817, e as ruas coloniais presentes nos bairros de Santo Antônio. As modificações atingiram, a partir da Praça da República, as Ruas da Florentina, Quartel da Polícia da Guarda Palaciana, Largo do Rosário, Trincheira, Laranjeira, Santa Tereza... Trechos cobrindo Santo Antônio, casas comerciais, residências, bares, velhas igrejas e pátios da época colonial149 — e com planos de atingir São José150.
Durante o Estado Novo, em cada edição diária de seu jornal, Agamenon Magalhães publicava um artigo — estilo simples, meio colegial, com frases curtas. Para ele, o sufrágio
147 Diário de Pernambuco, 3 de abril de 1960, p. 13. “Visita às obras do Edifício AIP — a associação
promoverá visita dos seus associados”.
148 Segundo Paulo Cavalcanti, num almoço comemorativo do Dia da Imprensa, em 10 de setembro de 1931,
realizado no Bar Máxime, no Pina, o jornalista Domício Rangel, do corpo redacional do Diário da manhã, lançou a idéia da fundação, no Recife, de uma entidade que reunisse os jornalistas pernambucanos, à semelhança do que já ocorrera no Rio com a Associação Brasileira de Imprensa, a ABI. Dois dias depois, formalizou-se num salão do Diário de Pernambuco a sugestão de Domício Rangel. Contudo, implantado o Estado Novo, as atividades da instituição caíram na inércia, pois a direção da AIP foi exercida por agentes da ditadura. Com a queda do governo Vargas e a retomada do processo democrático, os jornalistas de Pernambuco movimentaram-se para fazer da AIP um órgão de classe independente. E o primeiro passo foi o de fundar, em 1947, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Recife. Através da aglutinação em torno do Sindicato, possibilitou-se a criação de ambiente favorável ao revigoramento da AIP. A tarefa foi relativamente fácil. O mais difícil tornou-se recuperar o patrimônio, um terreno desapropriado há anos na Avenida Dantas Barreto. Uma campanha foi liderada nesse sentido: pensou-se em construir no terreno desapropriado, um novo edifício para instalar a AIP, com a ajuda dos governos de Barbosa Lima Sobrinho, Cordeiro de Farias e Cid Sampaio. Criou-se para tanto, uma comissão pró-construção da sede própria, da qual Paulo Cavalcanti foi relator e Mário Melo presidente. (CAVALCANTI, 1980: 340).
149 Diário de Pernambuco, 2 de outubro de 1973, p. 03, 1º Caderno.
150 A abertura da Avenida 10 de Novembro (Avenida Guararapes) iniciou-se a partir da aprovação do Plano
da Comissão da Cidade, em 23/04/1938, com as desapropriações, vendas e doações dos lotes lindeiros à Avenida, estabelecendo a ligação entre as Praças da Independência e Duarte Coelho. Dando prosseguimento à remodelação do centro da cidade, Novais Filho iniciou os trabalhos para a construção da Avenida Dantas Barreto, prevista por Ulhôa Cintra como parte do perímetro de irradiação que articularia os bairros da Boa Vista, Santo Antônio e Recife. Em 1943, as demolições foram iniciadas, o que fez desaparecer várias edificações. Entretanto, Novais Filho não concluiu a Dantas Barreto. Apenas demolições foram realizadas e, em 1946, a Comissão do Plano da Cidade modificou o traçado inicialmente proposto. Para este tema ver PONTUAL, 2001: 85-86/94.
universal era uma anemia, uma doença que foi enfraquecendo lentamente os povos. Para ele, o que as Nações precisavam era de chefes políticos que encarnassem as necessidades do povo. Dentre as quais, estava livrar a cidade da feiúra da miséria. Os favelados dos mocambos da área urbana do Recife que fossem viver de “Macacos para lá” — alusão às matas de Beberibe. Os casebres eram içados de uma hora para outra pelos homens do Serviço Social Contra o Mocambo, limpando a paisagem urbana de suas imundas moradias151. As obras, no Estado Novo, deveriam conferir monumentalidade ao grande cenário político e econômico de Pernambuco — o Recife — através da verticalização arquitetônica da cidade.
A Dantas Barreto chegou a ser continuada por Pelópidas Silveira, em seu breve governo à frente da Prefeitura do Recife, entre fevereiro e agosto de 1946, com desapropriações e demolições152. E, nos anos 50, a abertura de largas avenidas ainda simbolizava progresso em contraposição à arquitetura colonial de ruas sinuosas e estreitas — símbolo de pardieiros infectos153 que precisavam ser disciplinados pelo saber
urbanístico. Todavia, na gestão de Pelópidas neste período democrático, graças a uma nova concepção de urbanismo, com outros projetos — como o de descentralização do tráfego ou seu desvio para periferia —, a urgência que fez nascer a Dantas Barreto deixou de ser prioridade. Nesta segunda metade da década de 50 — com o Prefeito eleito pelo voto popular, filiado ao Partido Socialista Brasileiro, apoiado pela Frente do Recife, na qual o Partido Comunista tem grande peso — não ocorreram aberturas de avenidas destruidoras do tecido urbano pré-existente; apenas o alargamento, retificação e alinhamento dos leitos das vias. As principais intervenções foram realizadas no bairro da Boa Vista, e nos subúrbios em que a ocupação do solo não era consolidada. E as demolições foram de pequenas proporções, provocando menos impacto na configuração da cidade154.
151 CAVALCANTI, 1978: 178-180.
152 Com o final do Governo de Novais Filho, em 1945, o Recife teve como prefeitos indicados: Pelópidas
Silveira (1946), Clóvis de Almeida Castro (1946), Antônio Pereira (1947), Manoel Cezar de Moraes Rêgo (1948), Antônio Pereira (1951), Jorge Martins (1952), José do Rego Maciel (1953) e Djair Brindeiro (1955). Após o que voltou o pleito democrático que elegeu Pelópidas da Silveira (1955 a 1959). E, posteriormente, Miguel Arraes. Seguido novamente por Pelópidas Silveira que teve sua gestão interrompida pelo golpe militar de 1964.
153
Mas, tão somente em nome desse progresso, apelamos para o Prefeito Pelópidas da Silveira e para a
Câmara Municipal do Recife, no sentido de ser encontrada uma solução capaz de determinar o prosseguimento da Avenida Dantas Barreto e a derrubada, o quanto antes, do entrave, que outro não é senão aquele bloco constituído de pardieiros infectos (...) já que estão em jogo não o interesse político de grupos, mas o progresso da cidade, a sua modernização, a sua urbanização Diário da Noite, 10 de abril de
1957 (citado por PONTUAL, 2001: 187/188).
Fig. 10. Av. Dantas Barretos e alguns sobrados antes da demolição dos mesmos.
Fonte: Acervo da Fundação Joaquim Nabuco.
Fig. 11. Av. Dantas Barretos e o prédio da AIP no lugar de alguns sobrados.
Fig. 12. Construção da Av. Guararapes.
Fonte: Acervo Museu da Cidade do Recife.
Fig. 13. Construção da Av. Guararapes.
Com Pelópidas, a Frente do Recife contou com a participação e a adesão de setores da burguesia e da classe média, a despeito de Pelópidas ser um líder político à esquerda do centro. Recém saídas do Estado Novo, as forças democráticas da Frente do Recife marchavam na direção de um governo de raízes populares, abrangentes, opondo-se ao velho e emperrado PSD de Agamenon Magalhães e Etelvino Lins. O programa apresentado ao eleitorado pelo candidato da Frente do Recife refletia um leque de formulações liberais, sensíveis a camadas ideologicamente diferenciadas, que formavam um elenco de forças contrapostas aos resquícios da ditadura de Vargas155. Ele atualizou códigos e posturas, adotou normas modernas de urbanização, instituiu concursos para provimento de cargos públicos, moralizou a administração, estimulou a criação de associação de bairros, discutiu em praça pública os problemas da cidade, aplicou com absoluta severidade os recursos públicos, combateu a corrupção e a burocracia156. Aos comunistas que fizeram parte da equipe da PCR, na gestão de Pelópidas, até o ano passado, 1959, coube deixar a marca da sua identidade política na administração, erradicando velhas práticas que caracterizam os governos burgueses157.
Não é que o saber urbanístico não seja necessário, ao contrário. O saber urbanístico anda tão em alta a ponto de Gilberto Freyre, ressentido, perguntar se não há outros saberes válidos além dos promovidos pelos arquitetos e urbanistas158. Mas é que, para homens ao mesmo tempo práticos e com sensibilidade humanista, como Airôn, diante dos acontecimentos sociais, econômicos e políticos que se desenrolam na nossa atualidade, há apenas duas atitudes distintas: ou repelir o planejamento como um caminho à servidão — é o que fazem os pensadores de tendências liberais que crêem que os acontecimentos tendem naturalmente a promover o progressivo e generalizado bem estar material e espiritual; ou defender o planejamento como uma necessidade de interferência consciente e racional do homem, como o fazem os pensadores marxistas-leninistas159. Este raciocínio parte da lógica que muitas cidades atingiram uma situação crítica e patológica. São cidades afetadas por um crescimento doentio, por uma espécie de gigantismo, e estes 155 CAVALCANTI, 1985: 93. 156 CAVALCANTI, 1985: 80. 157 CAVALCANTI, 1985: 81.
158 FREYRE, 1960: 180. Será que no Brasil se não vem estudando tais problemas — os complexamente
sociais — de modo sistemático? Será que o Brasil de hoje não possui, além de economistas, ecologistas ou cientistas sociais, senão da mesma categoria dos seus arquitetos, quase dessa categoria, espécie de parentes pobres, mas parentes, desses príncipes, hoje, entre nós, da mais alta nobreza, com os quais eles pudessem se entender em família?.
acontecimentos patológicos conduzem a vida urbana à decadência e à decomposição160. É quando a civilização perde o equilíbrio próprio da natureza humana — ela perturba-se com a maneira de viver característica dessas imensas cidades contemporâneas. Suas condições gerais da vida tendem a não permitir uma distribuição eqüitativa de bem estar material e de
saúde espiritual à maioria de seus habitantes. Se alguns deles gozam desse bem estar,
decorrente da concentração do progresso técnico na estrutura urbana, é sempre à custa da privação desse gozo reservada à maioria da população161.
Dessa forma, o bem-estar das comunidades é o verdadeiro problema do planejamento urbano. O rompimento de suas condições de equilíbrio vital é conseqüência do laissez faire do urbanismo monumental e cenográfico. E são vários os obstáculos que se opõem à aplicação dos remédios necessários para cura da cidade; são várias as dificuldades naturais e institucionais que enfrenta a execução de um plano de remodelação. Entre as causas dos obstáculos está a oposição ferrenha dos interesses individuais — nocivos ao bem público. Estes interesses individuais quebram lanças para manutenção dos privilégios ameaçados162. Mas todas as necessidades coletivas devem ser providas de forma equilibrada163. E o
poder público tem o papel de afastar os obstáculos que representam a permanência do
interesse privado contrariando o bem comum. Provado o interesse coletivo, a municipalidade tem que assumir uma posição ativa no planejamento urbano e rural164.
Segundo essa perspectiva, o progresso técnico aliado ao humanismo pode curar e
salvar as cidades do caos em que se encontram. O que a cidade precisa é de um trabalho
de harmonização — do fato ecológico, econômico, cultural e técnico. Por isso, a partir de agora, ao verdadeiro urbanista não pode ser estranha a preocupação de preservar tudo aquilo que, no corpo da cidade, der testemunho de sua vida passada e faça parte integrante de sua cultura165. Inclusive as estreitas ruas coloniais. Com o progresso da cidade, o melhor será preservar, quando possível, ambientes tradicionais completos, ruas, pátios, ou quarteirões antigos selecionados por um critério cultural elevado tendo em vista qualidades reais, arquitetônicas e paisagísticas166. Uma sociedade urbana cujo bem-estar material
160 BALTAR, 2000: 14. 161 BALTAR, 2000: 22. 162 BALTAR, 2000: 15. 163 BALTAR, 2000: 27. 164 BALTAR, 2000: 28. 165 BALTAR, 2000: 32. 166 BALTAR, 2000: 33.
tivesse sido assegurado, através dos melhoramentos executados na cidade, mas que tivesse perdido todo o seu patrimônio de cultura não poderia ser uma sociedade feliz167.
Como estava adiantado, Airôn resolveu entrar à esquerda na rua 24 de Maio. Dali sairia na Marquês de Herval, pegaria pela Rua da Palma até chegar na Avenida Guararapes. Ao entrar na 24 de Maio, Airôn observou as paredes sujas, o povo pela rua, um caminhão que atravanca o caminho. Na rua, pessoas conversam, pessoas andam. Um garoto de camisa listrada olha curioso à sua passagem. Algumas sacadas ainda encontram- se fechadas. A gráfica abriu as portas, parece ignorar o feriado. As pequenas casas dessa rua, quase todas de porta e janela, têm dimensões exíguas. E apenas um arremedo de calçada. Contudo a rua é pavimentada. O governo de Pelópidas cuidou da pavimentação das ruas. Foram pavimentadas vias na Boa Vista, São José, Santo Amaro e Santo Antônio, bem como na área norte da cidade — nos subúrbios, onde a carência desses serviços era premente. Algumas vias foram pavimentadas com paralelepípedo, como a Augusta e a Alecrim, outras com pré-misturado asfáltico, como a 24 de Maio.
O centro do Recife foi bastante contemplado com a pavimentação da Conde da Boa Vista, da Rua da Aurora e da Avenida Dantas Barreto. A Conde da Boa Vista foi aberta ao tráfego no final do mês de agosto de 1959, tendo levado mais de dez anos para ser concluída, em virtude das desapropriações que se fizeram necessárias, muitas resolvidas judicialmente168. A Aurora teve ampliação e pavimentação no seu trecho final. Sua remodelação centrou-se na verticalização arquitetônica, alargamento e construção de vias e paisagismo. Edifícios modernos — verticais, de 14 andares, afastados entre si — substituíram velhos sobrados. O aterro das margens do Capibaribe serviu para parqueamentos de veículos e jardins. Outras vias ganharam prioridade por ligar a comunicação e acesso entre bairros dos subúrbios, como a Avenida Norte, o Canal Derby – Tacaruna / Parque Amorim, Casa Amarela/Beberibe, Afogados/Prado e Estrada da Imbiribeira.
A Iluminação pública também foi instalada. O critério de seleção dos logradouros a serem beneficiados com a iluminação pública foi a importância urbanística da via e a densidade demográfica da localidade, resultando na iluminação de cerca de 500 logradouros públicos. O governo municipal não realizou o serviço diretamente, mas autorizou à Companhia Pernambuco Tramways e aos Serviços Industrializados de luz e
167 BALTAR, 2000: 33. 168 PONTUAL, 2001: 183.
Força de Beberibe a fazê-lo169. Assim, iluminada e pavimentada, não há quem lembre que a 24 de Maio é uma rua que há vários anos foi aberta sobre o Cemitério do Convento dos Carmelitas, e por isso se chamou, primeiramente, Rua dos Ossos. Ao lembrar disso, Airôn sente como que um dedo frio correr-lhe o espinhaço. A atual 24 de Maio é, assim, traçada sobre terra ocupada por gente morta, há muito tempo, e de quem não mais se tem qualquer lembrança dos parentes e amigos. Nas catacumbas demolidas, nos túmulos desmoronados, foram em dias muito remotos, encerrados os corpos de frades do convento; irmãos membros da ordem terceira, das irmandades e confrarias; homens, mulheres e crianças que teriam morado nesse bairro ou nas suas proximidades, como era de hábito170.
Airôn já apontava na esquina da Rua da Palma, quando se esqueceu finalmente das
histórias de assombração. Querendo consultar o relógio, o seu pateque de velha estimação, metido no bolsinho da calça, deu trabalho levantar a aba esquerda do paletó — diabo de goma mais sem jeito que nunca viu tão dura — já então faltavam quinze minutos. Sempre fazia hora, chegava justo o relógio em cima das dez. Apressou o passo, cruzou toda a Rua da Palma e parou na Banca do Gasolina para comprar o Diário. A banca, aberta este ano, estava tornando-se lugar onde algumas figuras faziam ponto. Airôn era um deles:
- Bom dia! Qual o palpite pra hoje, Marciolino?
- Bom dia, doutor! Olhe, eu acho que, dos dois, quem ganhar hoje fecha o torneio início e leva o campeonato. E eu tenho para mim que a gente leva essa taça,
169 PONTUAL, 2001: 193.
doutor!171 Veja o senhor, que os dirigentes alvi-rubros estão de implicância com o técnico deles, o Ricardo Diez. Está o maior clima nos Aflitos. E a crise, no Arruda, é briga de cachorro grande: entre os ex-presidentes e Odívio Duarte172.
- E já deram a escalação dos times?
- Estão fazendo suspense, mas os dois vão jogar num 4-3-3. O técnico Palmeira fez algumas improvisações no treino de ontem, inclusive experimentando Alemão como zagueiro central, para substituir Sinval que, sem contrato, nem mesmo concentrou. E Ney Andrade também não tem retorno assegurado; vai fazer um teste de campo, esta manhã, juntamente com Traçaia. Eu tenho para mim que hoje joga Cazuza, Bria e Alemão (ou Tomires); Zé Maria, Tomires (ou Prêta) e Ney (ou Dedé); Ramos, Djalma, Traçaia (ou Jandir), Bittencourt e Elcy173.
- E o Santa Cruz?
- Ricardo Magalhães está com um time diferente do que conquistou o título de campeão o ano passado —ficaram Gerôldo, Biu, Clóvis, Dodô, Hamilton e Moacir. As novidades são Zé Maria e Caboclo. Talvez eles tragam Joca, ex-defensor do Ferroviário e Nenzinho, campeão brasileiro. Mas hoje devem jogar Zé Maria, Gerôldo e Nenzinho; Biu, Clóvis e Dodô; Gildo II, Caboclo, Hamilton, Moacir (ou Carvalho) e Jorginho174. Vai pro jogo, doutor?
- Hoje, não, Marciolino!
- Vai deixar para ir ao Torneio Início no domingo, não é, doutor? Participar da festa, ver os desfiles e participar dos sorteios...
- Quem sabe!? — responde Airôn de forma evasiva.
171 Apesar da animação do rubro-negro Marciolino, quem ganha o campeonato estadual no ano de 1960 é o
clube Náutico Capibaribe. Começa, neste ano de 1960, o inferno astral do Santa Cruz Futebol Clube que passa nove anos consecutivos sem ganhar um campeonato estadual. Mas este inferno astral precede o seu oposto: o paraíso astral que foi a década de 70, permeada de vitórias. Santa Cruz — Campeão estadual 23 vezes (1931, 32, 34, 35, 40, 46, 47, 57, 59, 69, 70, 71, 72, 73, 76, 78, 79, 83, 86, 87, 90, 93 e 95). Sport — Campeão estadual 34 vezes (1916, 17, 20, 23, 24, 25, 28, 38, 41, 42, 43, 48, 49, 53, 55, 56, 58, 61, 62, 75, 77, 80, 81, 82, 88, 91, 92, 94, 96, 97, 98, 99, 2000 e 2003). Náutico — Campeão estadual 21 vezes (34, 39, 45, 50, 51, 52, 54, 60, 63, 64, 65, 66, 67, 68, 74, 84, 85, 89, 2001, 2002, 2004). Informação presente no site: Disponível na Internet, em http://www.jc.uol.com.br/. Acesso em 22 set. 2004.
172 Diário de Pernambuco, 07 de abril de 1960. “Odívio Duarte: a crise passou no Santa Cruz, vamos cuidar
da conquista do bicampeonato” — artigo de Viriato Rodrigues.
173
Diário de Pernambuco, 21 de abril de 1960. “Esporte desfalcado, e Santa Cruz reforçado no primeiro clássico das multidões de 1960”.
174 Diário de Pernambuco, 21 de abril de 1960. “Esporte desfalcado, e Santa Cruz reforçado no primeiro
Fig. 14. Rua 24 de Maio.
Ele tem evitado freqüentar os estádios. Muitos dos dirigentes do Partido não são vistos em festas de carnaval, de natal, de ano-novo, de aniversário, nas praias, nos cinemas, nos campos de futebol, nos teatros, nas reuniões sociais — nada175. Eles falam apenas de política, só discutem política. Diante de tal dedicação, como proceder? — Airôn questiona-se freqüentemente. Mas, à carranca de certos camaradas da direção, ele contrapõe a bonomia de outros companheiros de base: operários e camponeses, o povo. Para Airôn, ele deve-se nutrir da integração desses altos e baixos, tirando a média do comportamento humano. A própria sociedade é cheia desses altos e baixos. Exigir do PC