Capítulo II: Metodologia 53
III. c.IV Arma utilizada no crime 100
Dos 313 casos analisados no banco da segurança, 256 deles, o que corresponde a 81,78%, foram praticados por arma de fogo, sendo 6,70% por arma branca e 11,50% outro objeto (figura 16).
Em todo o mundo a arma de fogo tem sido observada como uma causa de agneciamento ou de facilitação para os homicídios. Soares, Miranda e Borges (2006), citando pesquisa realizada por Killias (1993), destacam que o acesso a arma de fogo é condição facilitadora dos homicídios. Segundo a pesquisa referida, em quatorze países foi possível demonstrar que a proporção dos homicídios varia com a proporção de residências com armas. Quanto mais residências com arma de fogo, mais alto é o número de homicídios.
Figura 16. Arma utilizada no crime.
Fonte: INFOPOL/GACE/SDS-PE
Peres (2004), em estudo sobre mortes por agressão com arma de fogo na década de 90, salienta que já naquele período Pernambuco apresentava alto percentual de mortes praticadas por arma de fogo, o estado registrava 43,8%. A autora destaca que para a população feminina naquele período, os homicídios foram a segunda causa externa de mortes em todo o estado de Pernambuco (27,3%). Ela observa que Pernambuco apresentou taxas de mortalidade por armas de fogo muito elevadas durante todo o período, sendo que de 1991 a 1996 o estado se manteve com a segunda maior taxa e, a partir de 1997, superou o estado do Rio de Janeiro e assumiu a maior taxa de mortalidade por arma de fogo no país.
Ao analisar o coeficiente de mortalidade por armas de fogo (n° de casos/100.000hab) durante toda a década para a população feminina na faixa etária de 15 a 19 anos, a autora observou um incremento de 72,98% em Pernambuco. Quando a mesma análise é feita para a faixa etária de 20 a 29 anos o incremento observado é de 91%.
Quando a autora analisa as capitais brasileiras, Recife se destaca com a taxa mais elevada de mortes por armas de fogo contra mulheres, sendo que a maior taxa está na faixa etária de 20 a 29 anos.
A autora trabalha com base de dados da saúde que não tem um campo específico para a arma utilizada no crime, mas as classificações das agressões, CID-10, individualizam se o fato foi praticado por arma de fogo ou por outro meio.
Trabalhando com esta mesma informação, encontramos na base de dados da saúde, no período de 1999 a 2007, 79,31% das ocorrências praticadas por arma de fogo (figura 17).
Figura 17. Meio empregado segundo a causa básica.
Fonte: SIM: Secretaria Municipal de Saúde do Recife
As demais causas bases observadas, 19,13% (figura 17) estão distribuidas entre homicídios provocados por objeto cortante ou prenetrante, correspondente a 7,41% e outras síndromes de maus tratos com 5, 34%, são as causas mais expressivas após a arma de fogo (figura 18).
Figura 18. Outros meios empregados segundo a causa básica.
Fonte: SIM: Secretaria Municipal de Saúde do Recife
Cruzando as informações válidas do INFOPOL sobre motivação do crime e arma utilizada, observamos que nas motivações
e “queima de arquivo”, todos os casos considerados foram praticados com arma de fogo. Nos casos de roubo observamos que 93% deles foram praticados com arma de fogo e os casos com motivação passional atingiram 72% (figura 19).
Figura 19. Homicídios praticados por arma de fogo segundo a motivação.
Fonte: INFOPOL/GACE/SDS-PE
É preciso notar que dos 313 casos constantes no banco de dados, apenas 69 continham as duas informações preenchidas, o que reduziu bastante o número de casos considerados (tabela 7). Entretanto é importante observar que a arma de fogo é o instrumento amplamente utilizado para a prática de homicídios, especialmente para aqueles decorrentes da violência urbana e de envolvimento com práticas criminosas. Quando tratamos da violência de gênero, mesmo com a alta incidência de arma de fogo, outros meios e instrumentos também são bastante utilizados. Vale anotar que na categoria “briga familiar”, 50% dos casos foram praticados com arma de fogo e na categoria “passional” foram 72% dos casos praticados com arma de fogo, resultando 50% e 28%, respectivamente, praticado por outros meios.
Tabela 7. Homicídios praticados por arma de fogo segundo a motivação. Motivação do Crime Percentual de casos com uso de arma de fogo Número de casos considerados* Briga familiar 50% 4 Outros 50% 2 Passional 72% 18 Roubo 93% 14 Entorpecentes/drogas 100% 14 Vingança pessoal 100% 9 Grupo de extermínio 100% 3 Rixa/galera 100% 1 Queima de arquivo 100% 4 * Número de casos que possuíam informações válidas tanto para motivação do crime quanto para arma utilizada Fonte: INFOPOL/GACE/SDS-PE
Quando cruzamos as informações de arma de fogo com local do crime, observamos uma melhor qualidade no preenchimento das duas categorias, o que totalizou 285 casos considerados (tabela 8).
Tabela 8. Homicídios praticados por arma de fogo segundo “local genérico” do crime. Local genérico Percentual de casos com uso de arma de fogo Número de casos considerados* hotel/motel 50% 2 Outros 64% 14 Residência 71% 41 Hospital 75% 4 Rodovia 80% 5 Logradouro público 84% 209 Em frente a residência 100% 7 Estabelecimento comercial 100% 3 * Número de casos que possuíam informações válidas tanto para local do crime quanto para arma utilizada Fonte: INFOPOL/GACE/SDS-PE
A maior quantidade de casos observados aconteceu em logradouros públicos. Nestes locais 84% foram cometidos por arma de fogo. Os crimes cometidos nos espaços públicos estão mais associados à violência urbana e à prática de atividades ilícitas. Já os crimes cometidos em residência atingiram a marca de 71% praticados com arma de fogo.
Resumindo os resultados encontrados neste item, podemos destacar que, em todas as circunstâncias analisadas, a arma de fogo tem substancial
presença no cometimento de crimes de homicídio. Segundo os dados da saúde e da segurança foram, respectivamente, 79,31% e 81,78% dos casos praticados com arma de fogo (figuras 16 e 17).