John Locke (1632-1704) nasceu em Wrington, na Inglaterra. Estudou na Universidade de Oxford, onde se formou em Medicina. É considerado um dos pais da teoria chamada Liberalismo, por causa de sua defesa explícita à propriedade privada. Tal defesa é fundamentada com a introdução de um direito do homem no estado de natureza, além dos já citados por Hobbes à vida e à liberdade, quando afirma em sua obra Segundo Tratado sobre o Governo: ―consideremos a razão natural, que nos diz terem os homens, uma vez nascidos, direito à própria preservação, e, conseqüentemente, à comida e à bebida e a tudo quanto a natureza lhes fornece para a subsistência [...]‖. É óbvio que para assegurar o direito à vida o homem deveria necessariamente se apropriar dos meios necessários para sobreviver, mas ao enfatizar esse fator, Locke introduz a propriedade privada como direito natural, tendo fundamento, como ele mesmo afirma, pelo trabalho realizado pelo homem em busca da sobrevivência, no que afirma que
―seja o que for que ele (o homem) retire do estado que a natureza lhe forneceu e no qual o deixou, fica-lhe misturado ao próprio trabalho, juntando-se-lhe algo que lhe pertence, e, por isso mesmo, tornando-o propriedade dele‖.
Mas apesar de fundamentar a propriedade privada com a noção de trabalho, o autor tem que, através do estudo, ir impondo limites à mesma e transpondo-lhes, para ver até que ponto pode o homem acumular. O primeiro limite imposto é o do desperdício, ou seja, já que tudo foi criado para os homens em comum, não é permitido a nenhum homem acumular bens perecíveis além do que possa consumir, pois que estes podem vir a fazer falta para os outros, caso se percam. Tal limite, da perecividade, é superado com a invenção da moeda, valor de troca que o homem pode acumular sem que se perca. Outro limite para o acúmulo é, evidentemente, relativo às próprias limitações físicas do ser humano, ou seja, alguém só pode acumular o quanto possa colher. Tal limite é transposto com a introdução da noção de trabalho alienado, defendida sob o ponto de vista de que a primeira propriedade a que todos têm acesso é à do próprio corpo, o qual o mesmo possui o direito de alienar a outrem, vendendo assim sua força de trabalho. Ultrapassam-se assim todos os limites para o acúmulo de bens.
É importante lembrar que tudo que foi dito acima corresponde ao estado de natureza, no qual, para o autor, os homens vivem em certa harmonia, guiados pela razão. O papel do Contrato Social, para Locke, não possui assim papel tão decisivo quanto na teoria de Hobbes. Nas palavras do primeiro:
―Sendo os homens, [...] por natureza, todos livres, iguais e independentes, ninguém pode ser expulso de sua propriedade e submetido ao poder político de outrem sem dar consentimento. A maneira única em virtude da qual uma pessoa qualquer renuncia à liberdade natural e se reveste dos laços da sociedade civil consiste em concordar com outras pessoas em juntar-se e unir-se em comunidade para viverem com segurança, conforto e paz umas com as outras, gozando garantidamente das propriedades que tiverem e desfrutando de maior proteção contra quem quer que não faça parte dela‖.
LOCKE, J. Segundo Tratado sobre o governo. In: Locke. 3.ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. Coleção Os Pensadores.
O papel do Estado, fundado pelo Contrato firmado entre os homens, assim, é o de legitimar os direitos já existentes no estado de natureza. Nesse sentido, a soberania não se encontra mais nas mãos dos poderosos, que encontram como limite para o exercício do poder a individualidade dos homens, e seu direito de acumular sem a interferência do Estado. Esse possui somente a função de assegurar a qualidade de vida dos membros da sociedade civil, dando-lhes educação, saúde e segurança. Tal modelo de Estado é ainda o que funciona no Brasil, por exemplo, onde os governantes não possuem o direito de se intrometerem na individualidade dos cidadãos, salvo por ordem judicial.
Dos três filósofos contratualistas que estamos estudando, somente Locke fala de direito à insurreição, ou seja, à derrubada de algum governante que não esteja agindo segundo o consenso a que chegaram os cidadãos.
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) nasceu em Genebra, na Suíça, transferindo-se para a França em 1742, onde escreveu suas grandes obras. Além de escritos de Filosofia, o autor escreveu romances, e mesmo uma obra sobre pedagogia, chamada Emílio. Vejamos, entretanto, o que pensou o autor sobre o surgimento da Sociedade Civil.
―O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer isto é meu e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não pouparia ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: ―Defendei-vos de ouvir esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence a ninguém‖ (ROUSSEAU, J-J. Do contrato Social. In. ROUSSEAU II. Tradução de Lourdes Santos Machado. São Paulo: Nova Cultural, 2005, p. 87)
Com base no trecho, podemos tecer as primeiras comparações com relação às teorias dos dois autores anteriores. Contrastando Rousseau com Locke, podemos ver uma diferença significativa, que também o segundo mantém com Hobbes: para Rousseau, assim como para Hobbes, a propriedade privada não é um direito natural. Somente Locke o acrescenta aos direitos de vida e liberdade. A propriedade, porém é elemento importantíssimo para o entendimento do pensamento de Rousseau, pois o mesmo atribui a seu surgimento a responsabilidade pela criação da sociedade civil. É porque passa a existir propriedade que surge a necessidade da criação, por meio de um contrato, de uma sociedade artificial.
Para Rousseau, a instituição da propriedade é a causadora, como vimos, das desavenças entre os homens, que não existiam no estado de natureza. É aí que aparecerá um estado parecido com o que Hobbes denomina estado de guerra, assim como a necessidade da passagem para a sociedade civil, por meio do contrato. Para o autor, a teoria hobbesiana está equivocada, pois: ―Vivendo em sua primitiva independência, não mantêm entre si uma relação suficientemente constante para constituir quer o estado de paz quer o de guerra, os homens em absoluto não são naturalmente inimigos‖.
Assim o autor nega ser o homem lobo do próprio homem, e funda o que grosseiramente se denomina a teoria do ―Bom Selvagem‖, acreditando na bondade natural do ser humano. Mas como o surgimento da propriedade inicia um novo estado de coisas, forçando a passagem para a sociedade civil, o contrato passa a ser necessário. Sobre o mesmo, o autor afirma:
―Encontrar uma forma de associação que defenda e proteja a pessoa e os bens de cada associado com toda a força comum, e pela qual cada um, unindo-se a todos, só obedece, contudo a si mesmo, permanecendo assim tão livre quanto antes. Esse, o problema fundamental cuja solução o contrato social oferece‖. (ROUSSEAU, J-J. Do contrato Social. In. ROUSSEAU. Tradução de Lourdes Santos Machado. São Paulo: Nova Cultural, 2005, p. 69)
A liberdade na sociedade, porém, não pode mais ser considerada natural, visto que a associação é algo artificial. Trata-se, pois do que se chama liberdade civil, a qual coloca a todos em pé de igualdade. A soberania para o autor, visto que o Estado surge por meio de um consenso entre os homens, encontra-se nas mãos do povo. O Soberano é a vontade geral, que porém não pode ser confundida com a vontade de
todos. A vontade geral é fruto de um consenso a que chegam os membros de uma associação, podendo alguns discordar da mesma, estando, porém obrigados a acatá- la, pela própria natureza do acordo.
QUADRO COMPARATIVO