Assim como o conhecimento científico, a produção de artefatos tecnológicos também tem sido analisada sociologicamente. Os estudos sociológicos e históricos sobre a tecnologia desenvolveram importantes conceitos, como grupos sociais relevantes, sistemas tecnológicos e engenharia heterogênea, por exemplo, com o intuito de auxiliar na compreensão do componente social dos artefatos tecnológicos. Se até a seção anterior foi apresentada uma revisão do desenvolvimento dos estudos sociológicos sobre a ciência é porque estes lançam as bases de trabalho para a compreensão sociológica da tecnologia de um modo geral, e, em específico, do caso do desenvolvimento do contexto/conteúdo da tecnologia de uso do álcool combustível no Brasil, durante a década de 1970. Com base no que foi apresentado sobre os ESCT e sobre a Sociologia da Ciência, pode-se supor que o caso estudado no segundo capítulo desta dissertação, a construção de um contexto e de uma tecnologia que possibilitou a substituição da gasolina por álcool no Brasil é resultado de negociações tanto sociais quanto técnicas, mas fica a dúvida sobre como compreender estas negociações. É pela compreensão de como este referencial é aplicado à tecnologia que será construído um conjunto de reflexões capaz de oferecer uma análise sobre a criação e o desenvolvimento de um contexto e da tecnologia para uso do álcool combustível no Brasil.
CO N S T R U Ç Ã O SO C I A L D A TE C N O L O G I A
A aplicação do referencial analítico do PER à tecnologia consiste em uma das primeiras tentativas de compreensão do fenômeno tecnológico realizada a partir da utilização de conceitos desenvolvidos nos estudos de sociologia da ciência. Considerando que os estudos sobre controvérsias científicas no âmbito do PER representam um ponto de partida, busca-se aplicar conceitos de
flexibilidade interpretativa, grupo social relevante, fechamento de controvérsias, etc aos estudos da tecnologia, constituindo o programa conhecido como Construção Social da Tecnologia – CST15.
Conforme argumentam Pinch e Bijker (1987: 18-26), esta abordagem se apóia sobre as referências do (i). Programa Forte, por considerarem todas as formas de conhecimento socialmente construídas, desde as formas mais “primitivas” até os complexos sistemas tecnológicos; (ii). Dos estudos das relações entre ciência e tecnologia, tomando como ponto de acordo que as ciências e as tecnologias não representam uma seqüência linear de aplicação dos resultados da primeira à segunda porque os cientistas e engenheiros constroem seus conhecimentos de forma circunstancial e se apóiam nos recursos uns dos outros sempre e quando for apropriado. Abandona, portanto, a distinção entre ciência e tecnologia por não considerá-la estática, mas como resultado de negociações sociais locais e situacionais, e por isso esta não utilizada esta distinção como um recurso explicativo a priori; (iii). Dos estudos de tecnologia, mais precisamente, abrindo mão dos estudos da inovação, porque, segundo os autores, buscavam compreender as condições que influenciavam o sucesso da inovação sem dar muita importância ao conteúdo da tecnologia em sí, e (iv) da história da tecnologia, que os autores consideram oferecer uma análise problemática da inovação porque explica o desenvolvimento posterior a partir do é o seu sucesso da inovação16. Para a construção social da tecnologia são justamente as razões para o sucesso do artefato devem ser analisados pela sociologia da tecnologia.
Da mesma forma como o PER realiza os seus estudos empíricos sobre desenvolvimentos científicos contemporâneos e sobre as controvérsias científicas em três fases, a abordagem da CST foca em compreender como surge a flexibilidade interpretativa, como se encerram as controvérsias e como o encerramento das controvérsias se relaciona com o amplo contexto social e cultural. Como conseqüência, a abordagem não é linear ou evolutiva, como se advoga serem nos estudos da inovação e na história da tecnologia, pois enfatiza o caráter multidirecional do desenvolvimento das tecnologias. Para ilustrar este ponto, Pinch e Bijker (1987: 28-47) utilizam como exemplo o caso do desenvolvimento da bicicleta17. Por volta de 1880 vários modelos de bicicleta estavam disputando a hegemonia de mercado, havia modelos com as rodas maiores na frente, outros com rodas maiores no eixo traseiro e também havia variação sobre qual era o eixo que estaria interligado com o pedal e seria responsável pela tração. Só quando o desenvolvimento dos artefatos tecnológicos é estudado de uma
15 No Inglês esta abordagem é amplamente conhecida pelo nome Social Construction of Technology - SCOT.
16 Conforme p. 24, Alguns desenvolvimentos recentes na história da tecnologia, como a os estudos sobre os grandes
sistemas tecnológicos, desenvolvida por Hughes, invertem esta análise, explicam o sucesso de um artefato pelo estudo de seu processo de desenvolvimento e, por isso, não deve ser considerada parte do corpo de trabalhos clássicos da história da tecnologia. Esta abordagem será mais bem abordada no decorrer do texto.
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perspectiva da regressão histórica é possível criar uma narrativa não linear, com um enfoque multidirecional e compreender porque alguns modelos tiveram sucesso e outros não. Para evidenciar a semelhança da CST com o PER o estudo já destaca que existe a possibilidade de haver outros modelos de bicicleta, demonstrando que o artefato possui uma flexibilidade interpretativa. Esta multidirecionalidade se deve à existência de diversos grupos sociais relevantes.
Os grupos sociais relevantes problematizam algum artefato e produzem uma resposta própria para o problema ao qual o artefato em questão está relacionado. “Grupo social relevante (...) denota instituições e organizações (...) assim como grupos organizados ou não organizados de indivíduos. O requerimento principal é que todos os membros de um determinado grupo social compartilhem o mesmo conjunto de significados sobre um artefato específico” (Pinch; Bijker, 1987: 30). Exemplos destes grupos são os usuários, consumidores, e mesmo aqueles que se opõem ao artefato, etc. No caso da bicicleta, os usuários podem ser divididos em homens e mulheres porque os modelos, ou as respostas destes dois grupos ao problema do artefato, são diferentes na sua forma. Para que este tipo de estudo seja feito de maneira satisfatória é preciso identificar e detalhar os grupos sociais relevantes e compreender o significado do artefato para cada um deles. Por exemplo, é fundamental compreender se a bicicleta era considerada um veículo de transporte ou um meio de diversão; qual era a visão de cada grupo social relevante sobre a função do artefato?
Após descrever os grupos sociais relevantes e a forma como eles problematizam os artefatos é fundamental compreender quais são as respostas de cada um dos grupos para os problemas. Quais são as soluções apresentadas pelos grupos? Podem existir variações diversas! Ao observar as respostas que cada grupo social relevante apresenta para o problema evidenciam-se os conflitos técnicos entre os grupos; as soluções conflitantes para o mesmo problema; os conflitos morais (como no caso das mulheres usarem saia ou calças – em 1880 – para andarem de bicicleta). A forma como ocorre o fechamento das controvérsias, como um artefato neutraliza as diversas soluções apresentadas aos mais variados problemas identificados pelos grupos sociais relevantes, como a flexibilidade interpretativa do artefato é superada e o artefato é estabilizado é o ponto central desta abordagem sobre a tecnologia porque neste processo é possível observar como os fatores sociais atuam no encerramento da controvérsia.
O segundo estágio, o da análise da estabilização do artefato, é onde se faz o mapeamento de como o debate se encerrou. Pinch e Bijker (1987: 44-46) sustentam que a identidade e o formato de um artefato podem ser definidos de duas formas preponderantes: encerramento retórico e encerramento
pela redefinição do problema. Ou seja, os grupos sociais relevantes, no primeiro caso, vêem o problema como solucionado. Neste ponto, campanhas publicitárias são de grande validade porque modificam a visão que os grupos sociais relevantes têm sobre a natureza do problema e os convencem de que este foi solucionado. Ou podem também redefinir o problema como, por exemplo, quando transformam o problema da redução da vibração da bicicleta com o uso da câmara de ar, na solução do problema do aumento da velocidade das bicicletas quando equipadas com as câmaras de ar. Para os esportistas a vibração não era um problema e o uso da câmara de ar era dispensável, mas quando foi demonstrado que o seu uso proporcionava uma vantagem competitiva, de maior alcance de velocidade, eles adotaram a solução da vibração (que era um problema dos usuários comuns) para solucionar o problema da baixa velocidade. Desta forma, dois grupos sociais tiveram seus problemas solucionados por uma mesma mudança, e os esportistas que eram opositores do uso da câmara de ar passaram a sustentar a estabilização do artefato18.
O terceiro estágio do PER, onde ocorre a análise da relação do encerramento da controvérsia com o contexto social mais amplo, embora não tão desenvolvido nos estudos sobre a ciência, já é trabalhado no momento em que é estudado o surgimento da flexibilidade interpretativa e as características dos grupos sociais relevantes. Pinch e Bijker afirmam, “o método da CST de descrever os artefatos tecnológicos focando nos significados dados a eles pelos grupos sociais relevantes parece sugerir um avanço. Obviamente, a situação sociocultural e política de um grupo social moldam as suas normas e seus valores, que em contrapartida influenciam os significados dados aos artefatos” (Pinch e Bijker, 1978: 46 – o grifo é meu).
Ao propor compreender o fenômeno tecnológico a partir do referencial analítico da sociologia da ciência utilizando os conceitos da PER, a CST inaugura o campo de estudos sociológicos sobre a tecnologia. Entretanto, argumenta que a construção é puramente retórica, não enfatiza as relações de poder assimétricas entre os diversos grupos sociais relevantes e negligencia a importância, demonstrada pelos estudos de laboratório, da materialidade e dos artefatos já estabilizados para a construção de novos artefatos19
. Além disso, oferece poucas chances de compreensão sobre como ocorre o desenvolvimento de sistemas tecnológicos, no qual diversos artefatos tecnológicos se inter-relacionam, criando contextos sociotécnicos cada vez mais complexos. Este é o foco de outra abordagem, tratada a seguir.
18 Conforme nota 36 do texto de Pinch e Bijker (1987: 50), a idéia da segunda explicação sobre como um artefato tem sua é
baseada no conceito de translação/tradução de interesses, proposta pela Teoria Ator-Rede.
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