Através dos professores do grupo de pesquisa da professora Ana a pesquisadora pôde conhecê-la na Faculdade de Educação da UNICAMP. Ela se dispôs a marcar uma conversa com a pesquisadora para que, com mais tempo, pudesse esclarecer sua pesquisa.
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Durante esse primeiro encontro, a pesquisadora pôde esclarecer exatamente os objetivos da pesquisa, os procedimentos metodológicos e tudo o que pretendia fazer. Além de esclarecer detalhadamente sobre o processo de filmagens, de entrevistas e das sessões de autoscopia, a pesquisadora deixou clara a importância da participação da própria professora nas entrevistas, na autoscopia e como importante mediadora na aproximação entre pesquisadora e alunos para que estes confiassem e aceitassem participar de todo o processo. A professora estava na fase final de sua pesquisa de doutorado, tendo tido contato com várias pesquisas realizadas na instituição, encontrando-se plenamente familiarizada com a pesquisa acadêmica e ainda havia compartilhado muitas informações com seus alunos, que participaram, inclusive, de sua qualificação da tese de doutorado. Muito interessada pela proposta, a docente prontamente concordou em participar da pesquisa, permitindo que a pesquisadora estivesse presente em suas aulas semanalmente.
Autorizou a observação das aulas e as filmagens posteriores, tomando apenas o cuidado de pedir à pesquisadora que, primeiramente, estabelecesse contato com a turma, compreendesse o andamento e o ritmo das aulas, para que, posteriormente, fossem iniciadas as filmagens.
O primeiro dia de aula da turma de EJA, na rede municipal de Paulínia, foi marcado pelo esperado retorno da professora Ana após meses de afastamento por motivo de saúde e, posteriormente, férias. O grupo de, aproximadamente, dez alunos e alunas aguardava ansiosamente o seu retorno.
Ao chegar ao local, ao invés de encontrar a tão conhecida aparência dos prédios escolares, a pesquisadora deparou-se com uma igreja. A professora chegou de carro e deixou a chave com uma aluna e convidou a pesquisadora a acompanhá-la até a escola núcleo. Ela explicou que a sua turma de EJA está alocada em uma sala cedida pela igreja para a prefeitura, uma vez que não há espaço no prédio da escola. O prédio núcleo da escola costumava ficar a apenas dois quarteirões da igreja, mas a escola cresceu demais, portanto foi realocada em um prédio bem mais distante. Ainda assim, não havia espaço para a turma de EJA.
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Portanto, todos os dias a professora dirige-se até a escola núcleo, local onde bate cartão, pega o lanche (merenda) que a escola oferece aos alunos de EJA e volta até a igreja para iniciar sua aula. Ao fim do dia, devolve os recipientes da merenda e bate cartão na escola núcleo novamente.
No caminho, a professora comentou que existem poucas turmas de EJA diurnas em Paulínia, somando aproximadamente quatro turmas. Cada turma é alocada em uma escola núcleo, em bairros diferentes. O público dessas turmas é mais velho, praticamente inexistindo a figura do jovem nessas salas de aula, realidade diferente da atualmente verificada em EJA no nosso país. Contou, também, que o trabalho das professoras não é articulado, que os espaços de discussão e construção coletiva são mínimos, pois praticamente não existe horário de trabalho coletivo, coordenação pedagógica ou qualquer tipo de encontros regulares para discutir EJA, metodologia, trabalho pedagógico, conteúdos, etc.
Os alunos já aguardavam na sala quando a professora chegou com o lanche e o material da aula. Havia um aluno novo. Senhor de setenta e seis anos que chegou munido com um caderno, um lápis e muitas ideias sobre a escola tradicional. A professora disse que lhe entregaria o material distribuído pela prefeitura. A professora dirigiu-se até seu carro, abriu o porta-malas e lá havia praticamente uma secretaria escolar. Foi possível ir constatando que a professora fez sozinha a matrícula, que cadastrou os dados do novo aluno no seu próprio computador, notebook que ela carrega consigo, entregou o material que estava no seu carro. A pesquisadora, ainda no primeiro dia de aula, pôde perceber que a professora é, além de professora, responsável pela merenda, pela secretaria escolar, enfim, realiza sozinha todas as funções de uma escola para sua turma de EJA, que se encontra praticamente à margem da escola núcleo.
Após integrar o novo aluno, a professora começou a contar sobre tudo o que aconteceu com ela desde o afastamento médico. Os alunos ansiavam muito por ouvir o diagnóstico pós- tratamento da professora. Ela narrou como descobriu sua doença, os exames que fez para
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confirmar o diagnóstico, o tratamento e a recuperação. Deixou claro que ainda está em observação, que continua o tratamento, mas que está fora de risco e bem de saúde. Os alunos começaram a se aproximar e abraçá-la. Muitos choraram e repetiam sem parar: “sua cura foi um milagre que Deus concedeu de tanto que rezamos, professora”. O aluno mais velho, senhor L., de mais de 80 anos, afirmou que Deus lhe concedeu dois milagres esse ano: a recuperação de seu filho das drogas e a cura da professora que lhe ensinou a ler e escrever.
Era latente a intensidade emocional no relacionamento dos alunos com a professora. Todos estavam emocionados, contavam para a pesquisadora que queriam visitar a professora Ana durante seu afastamento, mesmo ela vivendo em outra cidade, que ligavam para ela para saber de sua saúde, que oravam todos os dias pela sua recuperação. Muitos afirmavam: o que iríamos fazer sem você, professora?
Em sua maioria, os alunos rapidamente começaram a se interessar pela pesquisadora. Perguntavam sobre sua vida, seus estudos, como conheceu a professora Ana. Eles também demonstraram enorme desejo de se comunicar, de narrar suas histórias. Começavam a contar onde nasceram, quem eram seus pais, quantos irmãos tinham, como foi sua infância e os motivos que os afastaram dos estudos, narrando o que os motivou a procurarem a escola novamente. Havia semelhanças em várias histórias, mas um ponto era o mesmo em todas elas: contavam que tentaram voltar a estudar em outras oportunidades, mas somente com a professora Ana perseveraram e continuaram estudando.
Os alunos também relataram uma experiência com a professora substituta no período em que a professora Ana esteve de licença. Contaram que ela era uma pessoa legal, que gostaram dela, mas que não era como a professora deles, pensaram em deixar de ir às aulas e voltar somente quando a professora Ana voltasse, mas que a professora substituta os alertou que se não fossem nas aulas, corriam o risco de a prefeitura fechar a turma. Ela os estimulou a irem mesmo
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que fosse apenas para manter a turma. E eles assim o fizeram para rever a professora Ana no ano seguinte.
Para o primeiro encontro, a professora havia programado uma festa de reencontro. Como os alunos procuram manter contato por telefone quando a professora se afastou, ela pôde avisá-los da festinha, portanto alguns trouxeram comes e bebes. Passaram um bom tempo contando sobre suas vidas, suas famílias, suas rotinas, perguntando da professora, contando dos problemas de saúde que já enfrentaram na família e em suas próprias vidas. O clima de amizade e proximidade demonstrou como os laços afetivos construídos ao longo do tempo entre os alunos e aquela professora, são muito fortes.
No final da tarde, no horário da despedida, a professora entregou cópias da poesia “Saudade”, de Clarice Lispector, e leu para seus alunos.
A professora, muito tranquila com a presença da pesquisadora, recebeu-a de forma acolhedora, apresentando-a à turma, valorizando a pesquisa, afirmando estar feliz com a realização da mesma em sua sala. Durante os meses que se passaram, a professora sempre foi extremamente solícita e atenciosa. Todas as vezes que sua ajuda foi necessária, auxiliou a pesquisadora, quer seja no contato com os alunos, quer seja na mediação com a direção da escola.