Retratação xiii Utilizar explicações dadas antes de uma ação potencialmente
C ONTEXTO DE R EFERÊNCIA , U NIVERSIDADES E
INTERORGANIZAÇÕES
Vistas sob o ângulo de suas funções básicas – ensino, pesquisa e extensão – as universidades apresentam-se como uma das organizações centrais para estabelecer conexão entre os contextos global e local. Pode-se mesmo dizer que é de sua natureza intrínseca que essas relações se estabeleçam. No entanto, considerando-as como organizações imbricadas, permeadas por diferentes lógicas de orientação e grupos de interesse, e a conseqüente complexidade de suas estruturas e processos, verifica-se
também que essas relações não se estabelecem de forma linear nem tampouco homogeneamente entre as organizações que compõem o setor.
As últimas décadas, marcadas por mudanças vorazes que transformaram a família, o Estado, o trabalho e a propriedade têm igualmente afetado as organizações universitárias (CASTANHO, 2000), provocando questionamentos acerca de seu papel atual, onde seu produto e objeto – o conhecimento – é elevado à categoria central.
A produção científica, principal atividade geradora de conhecimento, e a vocação acadêmica característica das organizações universitárias, as tem colocado como o motor central do desenvolvimento. A aceitação universal desse pressuposto negligencia aspectos da formação histórica, social, política, cultural que conformam sociedades específicas. No modelo tradicional de desenvolvimento, a ciência e a tecnologia eram tomadas como fatores exógenos cuja evolução determinaria, linearmente, a evolução da sociedade (ZOUAIN, 2001).
Entretanto, sob a ótica do novo modelo, não poderá haver desenvolvimento sustentável “se o sistema de ciência nacional não se relaciona com o sistema nacional de inovação, com a incorporação de valor a produtos de exportação, com a solução dos graves problemas de distribuição de renda e com o acesso à saúde no Brasil” (CHAIMOVICH, 2000).
Com base em dados do Science Citation Index, Cruz (2002) verifica que o crescimento no volume de publicações de cientistas brasileiros (de cerca de 2.000 por ano na década de 1980 para cerca de 10.000 em 2001) não corresponde à produção de inovação tecnológica. Dados citados pelo Ministério da Ciência e Tecnologia em 1998 mostravam que, enquanto a contribuição brasileira para a produção científica mundial é de 1,2%, sua participação na produção tecnológica mundial é de 0,06%xx (VIOTTI, 2001).
A relação verificada no Brasil, de 20 para 1, é incomparável com outros oito países analisados: Estados Unidos (0,62); Reino Unido (3,22); Alemanha (0,96); França (1,76); Itália (2,22); Israel (3,13); Coréia (1,26); e Japão (0,39).
Marcovitch (2000, p. 108) inclui saúde, ambiente, segurança, trabalho e educação entre as prioridades sociais brasileiras discutidas na academia e afirma que o papel das universidades é fornecer elementos para o equacionamento destes problemas por meio da análise, da crítica e da interpretação. Em suma, sua intervenção deve se dar por meio de “sua missão formadora de mentalidade e renovadora de conceitos” e não como uma “usina de proposições” e “formatos acabados e definitivos” de políticas públicas.
xx
Percentagem do número total de artigos publicados por autores brasileiros em periódicos indexados pelo Science Citation Index e percentagem do número total de patentes concedidas pelo US Patent Office a residentes no Brasil, respectivamente.
Ao concluir o trabalho em que discute fragmentos e reconfigurações do local como subsídios para o entendimento de gestão contemporânea e cidades estratégicas, Fischer (1996, p. 21) indica a necessidade de investigação a respeito do compromisso da academia “com duplo movimento: de valorização das raízes às contingências e desafios da globalização, de convivência culturalmente sensível ao local à competência para intervir em diferentes tempos e espaços”.
Assim, a consolidação de construtos como poder local e gestão do desenvolvimento pode contribuir para a orientação e a análise de rumos alternativos a seguir no sentido de posicionar as universidades como atores sociais relevantes nas interorganizações, ou seja, nas teias sociais formadas por organizações com objetivos conjunturais semelhantes. Ao mesmo tempo, a competência das organizações universitárias em articular os paradoxos global/local, econômico/social, público/privado pode contribuir para superação de suas inúmeras e permanentes crises.
O discurso contemporâneo sobre desenvolvimento tem, como elemento central, a articulação. Este é o elemento a inspirar novas formas de pensamento e ação. A polarização global-local, Estado-mercado, econômico- social, precisa ser superada em favor da sustentabilidade do planeta. Há que se conjugar identidade com universalidade, poder político e poder econômico, lucro e solidariedade.
Atores sociais coletivos são chamados a protagonizar ações no novo modelo de desenvolvimento. O coletivo, neste caso, é constituído por um conjunto de organizações capazes de reunir e articular recursos de poder que viabilizem a articulação de interesses e objetivos pactuados. Tanto mais poder terá este coletivo quanto mais recursos de poder tiverem os diferentes atores a compor interorganizações.
Tornou-se um truísmo a afirmação de que ciência é poder e, por via de conseqüência, que as organizações que a produzem têm elevada capacidade de intervenção no processo de desenvolvimento. Países periféricos, como o Brasil, têm, nas universidades, a base fundamental e quase exclusiva de sua produção científica. No entanto, indicadores econômicos e sociais, especialmente se contemplados regionalmente, mostram uma lacuna entre o discurso institucionalizado e a realidade social.
Neste aspecto, cabe destacar o trabalho de Shenhav e Kamens (1991) sobre a institucionalização de um padrão de ciência determinado pelos países industrializados, isomorficamente seguido por países subdesenvolvidos e em desenvolvimento. Seus resultados demonstram que, na realidade, não se confirmam as proposições de correlação positiva entre o grau de institucionalização e o desenvolvimento econômico sob perspectiva neoclássica. No entanto, afirmam que a legitimidade alcançada em decorrência do processo isomórfico pode contribuir, ao longo do tempo, para
aumentar o potencial de crescimento econômico, estimulado por inves- timentos estrangeiros.
A contradição entre os resultados e a conclusão dos autores reafirma os pressupostos do modelo neoclássico de desenvolvimento (crescimento, em longo prazo, conduz ao desenvolvimento) e sugere neutralidade da origem dos investimentos.
No entanto, demonstra que a ciência produzida nos países periféricos está razoavelmente contextualizada com a produção científica mundial, o que permite inferir que as organizações produtoras referenciam-se a um contexto institucional global. Mas, ao não se vincularem ao contexto nacional ou local, perdem capacidade de intervenção. Evidencia-se, assim, o requisito da articulação global-local para promoção do desenvolvimento.
Com base no suporte analítico da teoria institucional, especialmente nas noções de ambiente e contexto de referência, e estabelecendo relações com os construtos de desenvolvimento e poder local, pode-se hipotetizar que quanto mais global o contexto de referência das universidades e quanto maior seu vínculo com o local maior sua capacidade de intervenção.
Questões como a crise de financiamento das universidades públicas, liberdade, ética e autonomia da atividade científica, valores acadêmicos, entre várias outras, evidenciam os requisitos da articulação Estado-mercado- sociedade e das vertentes econômicas, sociais, culturais e políticas do ambiente.
Infere-se daí que a intervenção das universidades no desenvol- vimento local depende de seus recursos de poder, que podem ter como base, sua legitimação nos contextos global, nacional ou local. São esses recursos de poder que irão determinar o papel e o posicionamento das organizações universitárias nas interorganizações.
Poderiam ainda ser investigados, com base nas relações entre contexto de referência e poder local, os diferentes resultados entre organizações estruturalmente tão homogêneas como as universidades brasileiras (MACHADO-DA-SILVA, 1991).
A noção de desenvolvimento sustentável esteve, originariamente, muito vinculada ao meio ambiente e, portanto, agregada a disciplinas e construtos das ciências naturais. Sachs (2000, p. 60) lembra que “as ciências naturais podem descrever o que é preciso para um mundo sustentável, mas compete às ciências sociais a articulação das estratégias rumo a este caminho”.
Assim, cabe destacar que a área de estudos organizacionais tem importantes contribuições a dar no entendimento das questões que envolvem aspectos teóricos e práticos do modelo de desenvolvimento que se propõe sustentável.