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45 CHIESA, 2018). A parentalidade é um termo relativamente novo que começou a ser abordado na década de 60 marcando o processo de início das dimensões inerentes às funções de pais e filhos. Tal processo é determinado pela forma como cada ser humano iniciou suas relações de infância e as transferiu para o exercício da parentalidade. Dessa forma, os vínculos afetivos se dão por influência de diferentes tipos de interações socioculturais, estas podem ser positivas ou negativas, haja visto que o momento de nascimento de uma criança traz consigo uma gama de sentimentos, expectativas e alterações nas dinâmicas e equilíbrios até então estabelecidos pelo casal (ZORNIG, 2010).

“A partir do século XVIII, com o discurso iluminista e com a importância do romantismo, o amor entre casais e entre pais e filhos é priorizado e as alianças conjugais passam a ser estabelecidas com base no afeto e não mais como arranjos externos, que não levavam em consideração as escolhas individuais. O amor entre pais e filhos é fortemente marcado pela noção de educação e a formação das crianças torna-se um fator importante para o desenvolvimento de um país e garantia de uma sociedade saudável” (ZORNIG, 2010)

A chegada de um novo bebê movimenta aspectos subjetivos como ideias, medos, inseguranças, e relacionais de cada um dos pais, como os modelos pré-estabelecidos de maternidade e paternidade.

Assim, a história da criança tem início a partir dos seus pais e suas experiências individuais de mundo, tais representações influenciam a forma como estes interagem, sendo um grande fator de predição sobre o apego evidenciado (ZORNIG, 2010)

O cuidado parental, por conseguinte, retoma ao desenvolvimento biológico das espécies por aumentar a capacidade de sobrevida do filhote. Na condição humana, está relacionado ao suporte dos pais (ou responsáveis legais) ao recém-nascido que é totalmente dependente de cuidado para a sua sobrevivência. Dessa forma, existe um reconhecimento sobre a necessidade prolongada de cuidado, haja visto, a imaturidade neurossensorial do RN ((BENCZIK, 2011).

Nessa conjectura, a mãe dispende maior gasto energético e emocional que se iniciam desde o período gestacional, o que lhe assegurará o delineamento de estratégias de cuidado diferenciadas e que são consolidadas, gradualmente, com o desenvolvimento do filho (BENCZIK, 2011). Dessa forma, o nascimento de um filho é uma experiência reconhecida como positiva e natural que, por sua vez, culmina na transição no autoconceito individual até então estabelecido para o surgimento de novos sentimentos e relações sociais (POMBO, 2019).

A mudança no ciclo vital acontece, majoritariamente, no período puerperal, esse momento prediz que a mãe tem iniciado os ajustes de papel, reorganização de prioridades e definição de sua nova identidade parental (RETICENA et al., 2019). Esse período adaptativo tem características

46 próprias e em muitas situações implicam em uma vivência negativa, como o nascimento prematuro que gera incertezas e expectativas irreais (BARROS; BATISTA-DOS-SANTOS, 2010).

Tais mudanças têm sido relacionadas à percepção das mães para a competência do cuidado, componentes estes da autoeficácia, crença que um indivíduo tem a respeito de sua capacidade em alcançar resultados (APARECIDA et al., 2019). O desempenho de papeis diz respeito ao modo como os indivíduos manifestam seu autoconceito, ou seja, “saber quem é” e como agir e se relacionar em sociedade, avaliação esta feita sobre si e que implica em uma percepção única de sentimentos e processos cognitivos que envolvem ações, emoções, aparência e habilidades (RETICENA et al., 2019;

ZORNIG, 2010).

O constructo “Autoeficácia” foi desenvolvido por Albert Bandura após estudos sobre o comportamento humano e associou-se, rapidamente, à crença estabelecida pelos pais para sua competência no cuidado com o filho, predizendo, inicialmente, uma parentalidade positiva. O conceito remete ao desenvolvimento pessoal de sucesso e fracasso, influenciado pela forma como o ser humano foi criado e pelas experiências por este estabelecidas (TRISTÃO et al., 2015).

“A autoeficácia é tida como a crença que o indivíduo tem sobre sua capacidade de realizar com sucesso determinada atividade. Dessa forma, sua crença pode afetar suas escolhas e o desempenho profissional” (BARROS; BATISTA-DOS-SANTOS, 2010).

Alguns fatores podem influenciar a percepção de si e a autoeficácia das mães como doenças mentais, estado de espírito, apoio familiar e aconselhamento recebido dentro e fora do círculo familiar, histórico de depressão pós-parto e ou dificuldades enfrentadas com a chegada do recém-nascido, em especial um recém-nascido prematuro e de baixo peso (BARROS; BATISTA-DOS-SANTOS, 2010).

Os determinantes individuais e sociais de saúde têm influência na saúde do RN desde o período do nascimento, principalmente, quando estes retornam ao lar, momento em que são desenvolvidas pelas mães as atividades domésticas/familiares exigindo maior adaptação na rotina do contexto familiar (SOBEP, 2021).

De forma geral, majoritariamente, as mães são as figuras centrais desse universo, vivenciam uma experiência dicotômica com a chegada do filho, sendo seu cuidado pautado, em essência, no ambiente domiciliar, onde encontram-se suas crenças, tabus e culturas e onde são traçadas as suas atitudes e condutas maternas (BENCZIK, 2011; VAN DER SAND et al., 2022).

Muitos aspectos influenciam positiva ou negativamente em seu julgamento de capacidade para o cuidado do RN como as experiências pessoais advindas no nascimento precoce do filho e a necessidade de novas construções relacionais em ambiente hospitalar, como as experiências de outras

47 mães que favorecem o diálogo e confiança mútua e as ações intermediárias do profissional de saúde, em especial o enfermeiro, por aproximar-se desse contexto com a finalidade de conduzir intervenções que aumentem o potencial e a habilidade das mães em resposta aos seus anseios e necessidades (RODRIGUES et al., 2014).

Assim, considerando que o enfermeiro é reconhecido como um profissional capacitado e bem aceito pelas famílias para propagar ações promotoras de parentalidade e desenvolvimento infantil, entende-se que sua atuação, em nível domiciliar, passa por nove dimensões de atuação profissional no cuidado à primeira infância. 1. Pelo seu papel de promoção à construção parental; 2. Papel de apoio e orientações à implementação de cuidados de saúde físicos da criança; 3. Papel orientador para a promoção de um ambiente seguro; 4. Papel de aplicação de teorias e metodologias aos programas materno-infantis; 5. Papel de mediador em relações terapêuticas; 6. Papel gerencial na atenção materno-infantil; 7. Papel de referência na rede de apoio; 8. Papel de suporte para o desenvolvimento das figuras parentais; 9. Papel científico para a orientação da prática (RETICENA et al., 2019).

A atuação do enfermeiro vai ao encontro das diversas metas e iniciativas da área materno-infantil. O cuidado parental perpassa a construção de papeis e atribuições que são passadas dos pais para as crianças, tendo uma especial atenção durante os primeiros anos de vida, quando o cérebro humano possui maior potencial de absorção e aprendizagem (RETICENA et al., 2019).

Nessa perspectiva, os pais têm a oportunidade de intensificar o desenvolvimento dos seus filhos, não obstante, nessa trajetória de construção, alguns casos, carecem de apoio e direcionamento para a efetivação deste papel (RETICENA et al., 2019). No caso de crianças que apresentaram maior tempo de internação como os RNPT e RNBP o papel parental pode sofrer restrições e/ou perdas, configurando importante fator associado de maior vulnerabilidade neonatal e parental com capacidade de afetar a confiança dos pais no cuidado com o filho com repercussões emocionais, psicológicas e físicas (SOBEP, 2021).

Assim, articulado com outras profissões e setores sociais, o enfermeiro é um dos profissionais que pode colaborar para a construção e desempenho das funções parentais. Suas contribuições podem ser facilitadas na configuração de visitas domiciliares a fim de possibilitarem, além dos alcances já mencionados, redução da mortalidade materna e infantil por causas evitáveis (RETICENA et al., 2019).

Diante disso e entendendo a necessidade de inovações nas práticas de cuidado junto às mães de crianças nascidas de baixo peso e prematuras com vistas à autoeficácia materna e saúde da criança, este estudo intenciona contribuições relacionadas ao empoderamento da mãe para o cuidado da criança

48 nascida pré-termo e de baixo peso, prospectando desdobramentos ao desenvolvimento dela. Entende-se que a atuação do profissional pode garantir, de forma precoce, uma rede articulada de saúde, voltada para o crescimento e desenvolvimento infantil, bem como para o aumento da segurança dos pais nos cuidados com o RN (FERREIRA et al., 2019).

Assim, questiona-se: O suporte domiciliar do enfermeiro ao binômio mãe e recém-nascido prematuro e de baixo peso pode influenciar em melhores respostas de cuidado materno diante os períodos iniciais de transição ao domicílio? O uso da posição canguru em ambiente domiciliar atua sobre estes aspectos?

Essa discussão torna-se necessária pelo entendimento de que muitos estudos têm se apoiado nos benefícios da posição canguru sob aspectos fisiológicos, sendo assim, este trabalho se propõe a fazer um olhar sobre o suporte do enfermeiro em tempos de pós-alta hospitalar evidenciando os aspectos relacionados à posição canguru e parentalidade e que vão além dos fatores fisiológicos já tratados. A intenção é de recomendar a VD com suporte ao amplo uso da posição canguru enquanto intervenção que contribui com a parentalidade e cuidado da criança nascida pré-termo e de baixo peso.

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