CAPÍTULO 2 - APORTES METODOLÓGICOS
2.3 C UIDADOS H ISTORIOGRÁFICOS
Para muitos leitores, realizar uma reconstrução histórica sobre um tema tão explorado como o Darwinismo pode parecer genuína perda de tempo em pesquisa. Afinal, que teríamos nós de acrescentar a uma história já contada centenas de vezes? Não seria mais viável tomarmos como base as inúmeras reconstruções já existentes? Sem dúvida, estas são questões razoáveis que merecem argumentação.
Sabemos que para pesquisadores iniciantes, como neste caso, aconselha-se investir em temas menos pesquisados e que viabilizem descobertas e/ou novas interpretações dos objetos de estudo da ciência, pois, estudar temas demasiadamente abordados exige do pesquisador, entre outras coisas, experiência, conhecimento e tempo disponível para investigação. As fontes são inúmeras e os enfoques, os mais variados.
Neste sentido, autores como Martins (2005, p. 308) argumentam que:
[...] em uma pesquisa, não faz sentido repetir coisas que já foram feitas, ou chegar a conclusões já aceitas por todos, sem acrescentar nada de novo. Uma pesquisa deve procurar trazer novos conhecimentos históricos ou criticar e corrigir conhecimentos antigos.
Entretanto, para o que pretendemos apresentar nesta dissertação, reconstruir, ainda que não em absoluto, os principais eventos históricos do Darwinismo, constitui algo fundamental à pesquisa. O que queremos não se restringe a elaborar mais uma reconstrução histórica do tema, e sim, fazer tão somente a nossa reconstrução histórica do tema, que à luz de cuidados historiográficos – decisivamente estruturantes e necessários aos empreendimentos dessa natureza – nos ajudarão a reconstruir alguns eventos históricos do Darwinismo, considerando particularidades não evidenciadas comumente.
Queremos, portanto, olhar o Darwinismo com nossos próprios olhos, segundo o nosso ponto de vista, questionando, conjecturando e discutindo algumas de suas inúmeras controversas.
Além do mais, entendemos que reconstruções históricas precisam ser constantemente reavaliadas a fim de que compreensões incorretas dos eventos históricos não sejam responsáveis pela criação de mitos que, muitas vezes, são aceitos e transmitidos indiscriminadamente.
Para Mayr (1998), o principal motivo pelo qual as histórias devem ser constantemente revisadas “consiste em que, em qualquer tempo determinado, elas meramente refletem o estado atual do conhecimento; elas dependem da maneira como o autor interpretou o conhecimento [...], da sua própria estrutura conceitual” (MAYR, 1998, p. 15). Essa necessidade fica ainda mais evidente quando são feitas comparações entre as publicações de historiadores da ciência para um mesmo tema que, em muitos casos, apresentam enfoques e conceitos significativamente díspares.
“Tudo o que muda no tempo tem, por definição, uma história”. Com essas palavras Mayr (1998, p. 15) ratifica a importância do estudo das mudanças históricas do mundo científico. Segundo ele, o papel central a ser desempenhado pela ciência consiste na compreensão do mundo em que vivemos por meio da solução de problemas.
Assim, estudar a História da Ciência significa estudar os problemas da ciência, bem como, suas soluções ou tentativas. Além disso, suas funções
estendem-se a outras competências, como o esclarecimento da evolução dos princípios científicos que sustentam as estruturas conceituais do conhecimento. Ao contrário do que muitos pensam, estudar e refletir sobre o passado da ciência não significa ignorar seus conflitos atuais, uma vez que grande parte dos problemas discutidos na contemporaneidade arrastou-se de séculos predecessores. Assim, tornar-se-ia impossível compreender tais conflitos (evolutivos) sem um mínimo conhecimento histórico.
A reconstrução histórica apresentada neste trabalho baliza-se em pressupostos básicos da historiografia. Martins (2005), entre outras coisas, adverte para os seguintes cuidados:
Devem-se evitar reconstruções meramente descritivas, focadas em datas e contendo informações desnecessárias. Nesses tipos de reconstruções, muitas vezes são apresentadas figuras de gênios, donos exclusivos do saber, enquanto as contribuições de outras pessoas são desconsideradas. No caso de trabalhos voltados ao estudo de cientistas específicos como Einstein, Darwin e Lavoisier, é comum encontrar críticas àqueles que não aceitavam suas ideias.
Contudo, “é preciso estudar não apenas os vencedores, mas também derrotados, verificando quais os argumentos que apresentavam contra as novas ideias. Muitas vezes, os argumentos eram excelentes” (MARTINS, 2005, p. 314).
Evitar o anacronismo, ou seja, julgar os fatos passados segundo parâmetros atuais. Aqueles que se propõem fazer História da Ciência não devem ignorar o contexto social do período em que pretendem desenvolver pesquisas, a fim de que estejam familiarizados com a situação histórico-social da época. “Não se pode criticar autores antigos utilizando argumentos e fatos muito posteriores” (MARTINS, 2005, p. 314).
Não se deve utilizar a História da Ciência de forma ideológica, ou seja, em favorecimento de intenções nacionalistas, políticas ou religiosas;
Evitar o apudismo, responsável por ratificar informações advindas de fontes secundárias sem conferi-las nas fontes primárias. Muitos autores podem cometer erros históricos. Considerar citações secundárias pode significar assumir interpretações erradas e disseminá-las. É tarefa do historiador, portanto, revisar constantemente as obras de outros historiadores, pois, “toda narração histórica é uma seleção ou ‘recorte’ da história. Ao fazer este recorte, o historiador pode selecionar e descrever apenas os fatos que corroborem o seu ponto de vista e ocultar os fatos que entrem em conflito” (MARTINS, 2005, p. 315).
De fato, com nossa reconstrução histórica do Darwinismo, não pretendemos buscar – segundo os aportes da História da Ciência – soluções para seus problemas clássicos. Entretanto, como evidencia Kragh (2001), pretendemos por meio do estudo de sua história, compreender de forma mais razoável questões científicas contemporâneas, como em nosso caso, o atual contexto dos conceitos evolutivos.
Além disso, concordamos que conhecimentos adquiridos por meio de estudos fundamentados na História da Ciência podem contribuir para a percepção de tendências e relações entre os eventos científicos e o reconhecimento de que os moldes científicos atuais decorrem de antigas escolhas socialmente condicionadas entre muitas alternativas.